Rubinho promete insistir no título em 2004

Rubinho Barrichello começa esta semana a temporada de 2004, com os primeiros testes de inverno em Jerez de La Frontera, na Espanha. O piloto de 31 anos, com sete vitórias e nove poles na F-1, só faz uma promessa: vai insistir na conquista do título mundial. ?Quero isso para mim?, diz. Com 178 GPs, só perde para Nelson Piquet (204) entre os brasileiros. Mas deverá ultrapassá-lo em 2005, pois não faz planos para encerrar a carreira. Na semana passada, Rubinho recebeu os repórteres Castilho de Andrade e Livio Oricchio em seu apartamento no Morumbi, em São Paulo, em companhia da atenta assessora da Ferrari, Jane Parisi. Não evitou nenhum tema, mas deixou claro que, agora, só vê o lado bom das coisas. ?As derrotas são uma forma de se aprender a vencer?, disse Barrichello.AE - Você hoje inicia as corridas sempre com chance de vencer, e não apenas porque pilota uma Ferrari. O que mudou?É verdade, hoje sou mais rápido porque evoluí muito mentalmente. No braço mesmo, pouco. E a razão é que passei a encarar as coisas de outra forma, ver a vida de maneira mais fácil. Com isso me tornei muito mais veloz. Acho que a partir do ano passado, em especial, essa mudança ficou mais clara.AE - Foi alguma preparação psicológica específica?A experiência adquirida nesses 11 anos de Fórmula 1 e a leitura de livros como Sem Stress me permitem agora, por exemplo, saber reagir quando eu termino em segundo. Ou mesmo se o carro quebra. É só abrir os olhos e ver que o que está lá é verdade. Adoro ler sobre regressão, mas não sei se teria coragem de fazer. Desenvolvi uma visão melhor dessas situações desfavoráveis e como manter-me firme na enorme luta que é tentar vencer na Fórmula 1. Não chorar porque tive um dia ruim. Você tem que aprender com isso.AE - Qual a sua religião?Sou católico mas não vou todo domingo à igreja, embora reze regularmente e agradeça a Deus todos os dias.AE - Apesar da sua evolução como piloto, ainda há muita gente que o vê com desconfiança. Há resistência em aceitá-lo?Sinto que o número de pessoas assim está diminuindo. Olha, já foi até chocante. Recebia nas ruas muito carinho, claro, mas muita paulada também. Está mudando. Aquelas gozações nos programas de TV, como no Casseta e Planeta, que tiveram grande influência nisso, diminuíram. É, eles não têm feito mais. Tiram sarro até do presidente da República. Acho que tem de haver respeito nesse caso, mas se as brincadeiras são capazes de levar as pessoas a rir, então faz bem. Na realidade, nunca chegou a me atrapalhar. Incomodava, sim, uma criança ver aquilo e vir brincar comigo também. Humor, até certo ponto. Mas isso faz parte do passado, tornei-me um vencedor. Veja a temporada deste ano. Foram duas vitórias (GPs da Grã-Bretanha e do Japão) na pista, difíceis, frutos de estratégias bem definidas. Tiveram mais valor que as quatro de 2002.AE - E quando seu desempenho fica comprometido por causa de um erro seu, da Ferrari, ou pior, por ter de dar passagem ao Michael Schumacher?Eu saio na rua e vejo as pessoas reconhecerem, dizem que é um absurdo a equipe, o box errar daquela maneira. Mas na vida você pode levar tudo para o lado bom ou ruim. E tem que saber deixar para trás. Estou aprendendo isso também com o golfe. Se uma tacada não foi boa, o negócio é esquecer e seguir para a próxima. É mais ou menos o que se passa com o Guga e o Ronaldinho. Os dois também tomam pancada das pessoas a toda hora, por isso vibro quando eles vencem.AE - Há críticas que ainda o incomodam?Não admito ouvir que fiz escolhas na Fórmula 1 pensando em dinheiro. Na verdade, deixei de ganhar dinheiro por conta de minhas opções. Eu comecei minha carreira do zero e dizem que não fui para a McLaren (em 1995) por causa de dinheiro. Eu fiquei na Jordan e de lá ninguém tira dinheiro.AE - Normalmente sua desvantagem para o Michael Schumacher é de um ou dois décimos de segundo, e o alemão é o melhor de todos. Se ele não fosse seu companheiro de equipe, você seria campeão do mundo?Em primeiro lugar, o que passou já passou. O resultado dos campeonatos passados, em que ele foi meu companheiro na Ferrari, não irá mudar. E nos que estão por vir, tenho de pensar que o Michael é o meu companheiro. Por outro lado, penso que correr ao lado dele me obrigou a experimentar todas essas situações difíceis, o que também contribuiu para o meu crescimento. O que é importante deixar claro é que meu grande sonho é ser campeão do mundo, e vou tentar conquistar o título de todas as formas.AE - Quando a Ferrari o obrigou a dar passagem para o Michael Schumacher vencer o GP da Áustria, foi um choque. Isso já foi superado?Sim. E de uma maneira positiva. Aprendi a saber perder para colher os frutos no futuro. Acho que com aquela decisão eu abri a porta dentro da equipe para ser campeão mais para a frente.AE - Qual foi a sua melhor corrida na Fórmula 1?Acredito que o GP da Grã-Bretanha deste ano, em Silverstone. Mas também quando me lembro da minha primeira vitória (Hockenheim, em 2000), das dez últimas voltas, a pista cheia de água e eu de pneu slick (para asfalto seco)... Fico com Silverstone: caí para oitavo e minha mente funcionou superbem, fui para cima. Como o Ayrton Senna dizia, há dias em que você se sente invencível.AE - Atuações como a de Silverstone e a qualidade do seu trabalho ao longo dos dois últimos anos, em geral, colocam-no como candidato a competir por qualquer das equipes de ponta. Você está conversando com alguém, já que seu contrato termina no fim de 2004?É muito legal ouvir o meu nome nas sondagens todas da Fórmula 1. Há momentos em que os jornais sabem mais do que você. Eles erram apenas quando falam dos salários, a maioria das vezes bem menor que o divulgado. Eu estou com os pés no chão, fazendo o meu trabalho, e não me sinto preocupado com o fato de que o contrato irá acabar. Em 2004, você vai disputar a sua 12ª temporada. As estatísticas mostram que muitos pilotos, antes dessa vivência toda na Fórmula 1, já entram na descendente. Você, ao contrário, parece estar na ascendente ainda.Eu não atingi ainda o pico de minha performance. Comecei muito cedo na Fórmula 1 (20 anos) e nunca é tarde para se tentar coisas novas. Já parei de colocar pressão sobre mim mesmo. Hoje acordo e vejo tudo pelo lado positivo, com auto-estima, com uma enorme vontade de vencer, ajudado pelo meu filho e pela minha mulher. Não conquistei ainda o que sempre sonhei. Não sei o que vai acontecer, mas como eu disse, vou tentar.AE - Você não tem planos de parar de correr?Nenhum. Quando o Gil de Ferran (ex-Cart e IRL) me contou que iria abandonar as pistas, fiquei pensando que devia ser a decisão mais difícil do mundo. E como o tempo passa rápido... Outro dia eu e ele estávamos carburando (kart) em Piracicaba. Eu não consigo nem pensar nisso. Desde que iniciei as férias eu já fui andar de kart, Stock Car, enfim, tudo que envolve velocidade. Só para se ter uma idéia ainda melhor de como curto o automobilismo, eu passei o último fim de semana na Bahia, num lugar bem isolado. E lá existe uma diferença de uma hora no fuso horário. Quando fui assistir à corrida final de Stock Car, na TV, descobri que eu estava uma hora atrasado e a corrida já estava no fim. Eu queria me matar, sou mesmo um aficionado.AE - O fato de ser o primeiro piloto brasileiro a correr pela Ferrari tem algum significado especial para você?Talvez tenha apenas no dia em que eu parar de correr. Este ano presenciei um aspecto muito importante. Para o público italiano, fui eu que venci o Campeonato de Construtores para a Ferrari. Não é uma verdade, mas para o italiano a história é essa e o título dos construtores, do nome Ferrari, tem muito valor para eles.Além de ser o brasileiro mais bem colocado no automobilismo internacional, Rubens Barrichello é um homem vivido e cheio de idéias sobre o que ocorre fora das pistas. Saiba o que o piloto de 32 anos acha dos italianos, de Lula, do Brasil, do Instituto Ayrton Senna e das chances de Nelsinho Piquet e outras promessas na Fórmula 1.AE - Em 2004, a morte de Ayrton Senna fará dez anos. Qual o sentimento que ficou?Infelizmente teve de acontecer algo assim, a morte de um grande campeão, para haver uma virada na segurança dos carros. Hoje há muito mais segurança. Ayrton Senna está, para mim, ainda bem vivo. Tenho um capacete da Arai que ele testou antes de se definir pelo Bell, na transferência para a Williams. Curiosamente é o que meu filho, o Eduardo, mais gosta de usar. Gostei muito de ver como o Instituto Ayrton Senna vai lembrar do Ayrton, bem vivo também. Se eu puder, quero participar do projeto. Não faz muito, fui à APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Blumenau, que tem alguma ligação com o Instituto Ayrton Senna, e conheci um dos meninos, que sabia todos os números de minha carreira. Foi mais uma emoção.AE - O Michael Schumacher venceu os quatro últimos mundiais, todos pela Ferrari. A equipe é campeã entre os construtores desde 1999, ou seja, ganhou os cinco últimos campeonatos. O que a Ferrari tem que os outros não têm?Eu nunca corri por outra equipe grande, por isso não posso dizer das diferenças. O que vejo é que tudo na Ferrari é voltado para a competição, 24 horas por dia, como o pessoal que trabalha no túnel de vento. A Ferrari tem as pessoas certas nos lugares certos, há uma harmonia incrível entre os seus vários setores. Na Stewart, por exemplo, os resultados não vinham e ouvíamos que o problema era do chassi, enquanto a equipe acusava o motor. totorrtor; na Ferrrari não existe isso. É um esquema superprofissional. É outro nível.AE - De quais pistas você gosta mais?O circuito de Interlagos me fascina, mas adoro também o traçado de Sepang e o de Silverstone.AE - Por causa de sua origem e de seu bom domínio do idioma, a imprensa italiana costuma tratá-lo quase como um italiano. Você aceita bem isso?Os italianos são muito carinhosos comigo e com o Brasil. Eles carregam bandeiras brasileiras com a maior naturalidade. Mas antes de tudo sou brasileiro e amo esse país mais do que qualquer lugar do mundo.AE - Do que você gosta e do que não gosta no Brasil?Com certeza a pior coisa aqui é a violência. Você vê isso em toda parte, como no trânsito, que é péssimo porque as pessoas não se respeitam. Ao contrário da Inglaterra, em que é ruim também porque os motoristas respeitam até demais os outros. Aqui é impressionante, poucos respeitam alguma coisa. Eu faço questão de dar seta, por exemplo, mas quantos fazem isso? Quantos respeitam que a faixa da esquerda é para quem deseja andar no limite de velocidade? O lado bom do Brasil é que apesar dos imensos problemas que temos, as pessoas sorriem bastante. Não vejo isso em outros países. Há nações com dificuldades menores que as nossas onde os cidadãos não riem quase nunca.AE - O governo Lula vai bem?O que mais gosto no Lula é a humildade. Ele com certeza não pegou a casa arrumada e sabe que para mexer precisará não de apenas quatro, mas oito anos, e tentará se manter no cargo. Já ouvi coisas boas e coisas ruins sobre o governo dele. Mas repito: é um homem muito humilde e isso é bom.AE - Qual vai ser o próximo brasileiro na Fórmula 1?Não acompanho muito a trajetória desses meninos que estão tentando chegar lá, fica difícil para mim responder. Eu não tenho capacidade de julgar porque não sei mesmo o nível de competitividade das categorias em que eles estão correndo. E isso é fundamental para fazer uma análise. Às vezes há pilotos que mesmo sem vencer acabam demonstrando, mais tarde, ser bem capazes. Eu corri de Fórmula Ford aqui, em 1989, quando havia grandes diferenças de equipamento, e não obtive um grande resultado (terminou o campeonato na quarta colocação). Mas quando fui disputar o Campeonato Europeu de Fórmula Opel, em 1990, tirei de letra (foi campeão). O Nelsinho Piquet tem mais chances de chegar na Fórmula 1 pelo nome, o que é uma vantagem inicial, mas não a longo prazo. Tenho amigos como o Christian, que pelo nome Fittipaldi teve algumas portas abertas. Mas depois elas podem se fechar também.AE - Você quer ser campeão mundial como uma conquista pessoal ou pelo Brasil?Em primeiro lugar por mim mesmo. Eu me esforcei todos esses anos, lutei, acho que seria uma grande recompensa por tudo o que passei. E também pela minha família, minha mulher, meu filho. Meu pai, meu avô, todos sofreram comigo. Talvez até mais do que eu. Eu quero ser campeão por todos eles. E, é claro, também pelo Brasil. Pelos que torceram por mim. Tenho muitos motivos para continuar lutando pelo título. Mas não posso prometer que serei campeão. Prometo que vou tentar até o fim.

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