Andre Pichette/EFE
Andre Pichette/EFE

Saiba o que esperar do mercado de pilotos para a temporada de 2014 da F-1

Vamos percorrer os motorhomes de cada uma das escuderias e mostrar como está a dança das cadeiras da categoria

LIVIO ORICCHIO - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2013 | 08h22

NICE - As quatro semanas de pausa no calendário da Fórmula 1 permitiram intensas conversas entre empresários de pilotos e diretores das equipes. Parte do que foi discutido emergiu para profissionais da Fórmula 1 e jornalistas nos dias da corrida em Spa-Francorchamps, no último fim de semana. Vale a pena percorrermos os motorhomes de cada uma das 11 escuderias para colocarmos sobre a mesa as hipóteses de arranjos entre estas e os pilotos disponíveis no mercado, bem como o que estaria por detrás de eventuais acordos entre as partes. Serão duas corridas, de acordo? Uma hoje, até, digamos, a metade do grid, e outra amanhã, com o restante.

RED BULL

O primeiro pit stop é na supercampeã Red Bull, vencedora com o notável Sebastian Vettel dos três útimos títulos de pilotos bem como a organização dos três de construtores. Vettel tem contrato até o fim de 2015. A outra vaga está aberta. Mark Webber já anunciou que correrá pela Porsche a partir de 2014 na volta da montadora alemã ao Mundial de Endurance. Helmut Marko, consultor da Red Bull, mas na realidade homem de grande influência nas decisões do proprietário da empresa nas questões de automobilismo, Dietrich Mateschitz, parece lhe ter convencido de que seria ruim para os interesses do time contratar Kimi Raikkonen, da Lotus.

Sei de fonte 100% segura que Marko explicou a Mateschitz que o atual modelo composto por Vettel e outro bom piloto, sem ser genial, como o alemão, levou a Red Bull a vencer tudo que disputou de 2010 para cá. E tudo leva a crer dará sequência à série impressionante de conquistas este ano. Expor Vettel com Raikkonen implica assumir outro modelo de gestão. Seriam dois pilotos potencialmente campeões. E historicamente a Fórmula 1 mostra que, na maioria dos casos, essas associações são explosivas com consequências muito danosas para as equipes.

Para citar dois exemplos: em 1986, o canibalismo entre Nelson Piquet e Nigel Mansell, na Williams, deu o título para Alain Prost, da McLaren, na corrida de encerramento do campeonato, na Austrália. A Williams perdeu o melhor motor da Fórmula 1, o Honda. Em 2007, Fernando Alonso e Lewis Hamilton digladiram-se na McLaren e também na etapa final, em Interlagos, Kimi Raikkonen, da Ferrari, celebrou a vitória no Mundial.

Ao que parece, a argumentação de Marko convenceu Mateschitz, o que levou Christian Horner, diretor da Red Bull, a interromper as negociações com Steve Robertson, empresário do finlandês. Também sob influência de Marko, a escuderia deve confirmar o australiano Daniel Ricciardo, da Toro Rosso, para a vaga de Webber. Mas até que o anúncio seja feito é sempre prudente aguardar. A Fórmula 1 é um universo complexo demais para raciocínios lineares.

MERCEDES

A próxima parada obedece a classificação no campeonato dos construtores, a Mercedes. Aqui não há discussão. Lewis Hamilton e Nico Rosberg vão pilotar para a montadora alemã em 2014. Ambos têm contrato assinado. A dúvida é se Ross Brawn, coordenador técnico, permanecerá. A chegada de Paddy Lowe certamente o atingiu. Soubemos e vimos Niki Lauda conversando com Brawn em Spa. E segundo o inglês contou a um jornalista alemão, seu amigo, Lauda tentava convencê-lo a ficar na Mercedes. Nas funções de hoje, coordenação técnica, Brawn é brilhante. Não tem histórico de participar do projeto dos carros, como também fazia no time alemão, e por essa razão não foi muito feliz. Agora coordena os vários grupos de trabalho. Se sair será uma perda.

FERRARI

Agora é a vez de estacionarmos no motorhome da Ferrari. Senhores, por favor, nenhuma dúvida sobre a permanência de Fernando Alonso. Qualquer mexida no contrato com duração até o fim de 2016 implica multa rescisória impensavelmente elevada. O segundo lugar do espanhol em Spa serviu para acalmar o clima dentro da equipe italiana, em ebulição depois do GP da Hungria.

Alonso foi considerado, e com razão, por Luca di Montezemolo, presidente da empresa, com um “insubordinado”. E a Ferrari costuma punir exemplarmente esses casos. Alain Prost, já três vezes campeão do mundo, em 1991, foi dispensado antes do fim da temporada por definir o carro de Fórmula 1 italiano como “um caminhão”.

Na entrevista depois da corrida de Budapeste Alonso criticou duramente o departamento técnico da Ferrari. E há outro ponto de grande tensão entre o extraordinário piloto espanhol e a direção do time: o twitter. Alonso escreve o que bem entende e isso já o levou a um conflito com o ex-responsável das relações com a imprensa, Luca Colajanni. Ocorre que Alonso dispunha de tamanha força na Ferrari, tanta liberdade, ganha tanto dinheiro, 25 milhões de euros (R$ 75 milhões) por ano que exigiu a saída de quem pretendia controlar seus comentários no twitter. E, claro, foi atendido. Em absolutamente nenhum outro time teria metade das regalias que a Ferrari lhe dá. Ou dava.

Em Spa, sábado, escreveu no twitter que não tinha gasolina no carro para mais uma volta lançada na classificação, o que o levaria bem mais para a frente no grid. Ficou em nono. A Ferrari desmentiu. A razão foi o erro cometido na curva 13 que o levou a perder 9 segundos. Com isso cruzou a linha de chegada depois de o cronômetro ter zerado, impossibilitando a volta seguinte, em que havia menos água na pista. Em resumo: a Ferrari não suporta mais controlar tanto a informação de um lado e do outro Alonso enviar para seu um milhão e meio de seguidores o que bem entende.

O ambiente ainda é tenso apesar do ótimo segundo lugar no GP da Bélgica, resultado da melhoria do modelo F138 e da capacidade única de Alonso de chegar no pódio mesmo com equipamento inferior à concorrência, ainda que em Spa a Ferrari, em corrida, estivesse um pouco acima da Mercedes e da Lotus.

Quem será o companheiro de Alonso? Sábado à tarde, vi Stefano Domenicali conversando próximo ao motorhome, atrás dos boxes. Chovia. Aguardei ele terminar e me aproximei. Domenicali foge o modelo de dirigente da Fórmula 1. Chama alguns pelo nome, como no meu caso, e sempre para e pergunta como vão as coisas. E, melhor, ouve o que você diz. O que esperar a respeito do companheiro de Alonso? Literalmente me disse: “Sei que é difícil as pessoas acreditarem, mas não paramos, ainda, para realmente pensarmos nisso. Quero dizer, não nos reunimos para sair de lá com uma definição. Sabe por quê? Porque não temos pressa”.

Pergunto-lhe sobre Kimi e ele desconversa. “O assunto piloto não entrou na ordem do dia. Kimi é uma ótima pessoa, mas é mais um nome dentre tantos que já li poderiam substituir Felipe.” Questiono se Massa pode continuar na Ferrari. “Absolutamente sim. E gostaria muito. Já o conhecemos, sabemos o que ele pode nos dar. Tudo bem, não vem obtendo o que desejamos, mas conhecemos seu potencial."

Análise, agora: contratar Kimi e lhe pagar os 12 milhões de euros livres (R$ 36 milhões) exigidos, metade do que ganha Alonso, não seria um problema. A convivência com o espanhol, sim, com toda certeza geraria imensas dificuldades. E já pôde ser sentida na quinta-feira, em Spa, quando perguntaram para o espanhol como via a chegada eventualmente de Kimi. “Não tenho problemas com companheiros, mas para que Kimi. Em 2008 e 2009 quando aqui esteve era mais lento que Felipe.” O Kimi de hoje, contudo, é bem distinto do daquele período, verdadeiramente desinteressado, segundo todos com quem falo na Ferrari. “Perdeu o rumo, não se concentrava mais. A Fórmula 1 passou a ser secundária nos seus interesses”, disse-me, contando depois detalhes dessa experiência, uma fonte que não mais está no time.

Contratar Kimi significa dizer a Alonso que suas asinhas foram cortadas de vez dentro da Ferrari. E o espanhol não funciona nessas condições. Produz menos. E se começa a perder a disputa interna passa a atirar para todo lado. Não admite que alguém possa ser melhor que ele com o mesmo equipamento. Foi assim na McLaren com Hamilton e não seria diferente na Ferrari. Não é uma questão de maturidade, afinal hoje está com 32 anos e em 2007, com 26. Mas de caráter. Alonso é o piloto que todo chefe de equipe sonha contar desde que não tenha concorrência interna na organização.

Montezemolo e Domenicali sabem muito bem disso. Foi conveniente para eles a história de que Kimi estaria negociando com a Ferrari. Não deixou de ser um recado para o espanhol, que já se sentia dono da área. Alonso viu que a Ferrari já se preparava para um inesperado, improvável, mas possível adeus antes do fim do contrato, em 2016. E que, essencialmente, a Ferrari o quer na equipe mas se não for possível há vida sem ele.

MANOBRA

Esse quadro revela, para mim, que Montezemolo e Domenicali ainda estão usando Kimi para atingir Alonso, no sentido de que seu trabalho é apreciadíssimo, mas não imprescindível, com o de ninguém na Fórmula 1. Têm consciência, também, de que se decidirem colocar o finlandês ao lado do espanhol vão perder o melhor do piloto que hoje ainda obtém resultados para a escuderia mesmo com um monoposto que ficou para trás em relação ao desenvolvimento dos adversários. É um risco elevadíssimo que, penso, não vão correr. Por isso eu e muita gente na Fórmula 1 vai se surpreender se a dupla da Ferrari em 2014 for Alonso-Kimi.

Quem, então? Tudo o que Massa precisa fazer é o que não fez do GP de Mônaco para cá: somar importantes pontos para a equipe. Se finalmente associar que tem responsabilidade no que define convenientemente como “azares”, estudar o ocorrido nessas ocasiões e evoluir, tem chance de ganhar mais um ano de contrato. Ainda não foi descartado por Montezemolo e Domenicali. E nessa hipótese estariam voltando à fase de agrados a Alonso, pois Massa é a sua escolha para 2014. Explícita. A direção da Ferrari teria de enfrentar, contudo, a imprensa italiana se renovar com Massa. Os jornais e a revista Autosprint são bastante críticos com o brasileiro.

Se Massa não corresponder nas próximas etapas, há um nome solto no mercado e, nesse instante, sem equipe para o ano que vem: o talentoso alemão Nico Hulkenberg, da Sauber. Muita gente acredita, como eu, que se não for Massa o alemão pilotará para a Ferrari. Sobre Jenson Button leia mais adiante.

LOTUS

Chegamos na Lotus. A expressão de Eric Boullier, seu diretor, mudou em Spa. Sorridente, solícito, disposto a falar. O engenheiro francês sabe que seu piloto, o maior responsável por a Lotus sair da condição de equipe média à candidata ao título, não tem opção. A Red Bull já lhe disse, ao que parece, “não, obrigado”. A Mercedes está fechada. A McLaren vai renovar, como tudo indica, com Jenson Button para ser companheiro de Sergio Perez. E a Ferrari provavelmente está gostando dos rumores de que pode contratá-lo enquanto na realidade sabe dos riscos de uma decisão dessa natureza.

“A tendência é Kimi permanecer onde está”, afirmou o empresário de Kimi, Steve Robertson. Não está mentindo. Uma revolução, como a McLaren substituir Button por ele, já que a opção sobre o inglês não foi exercida por Martin Whitmarsh, é muito pouco provável, por mais que admire o finlandês, como sempre diz. Portanto, é bom Kimi começar a pensar com seriedade na ideia de permanecer na Lotus.

Em Spa, Kimi de novo nos disse não estar gostando do atraso no pagamento dos prêmios, bônus obtido por ponto conquistado. Acredita-se que seu fixo seja se 6 milhões de euros mais prêmios, o que dobra seu rendimento. Para 2014 exige o dobro no fixo, segundo se fala no paddock. Deve ser mesmo verdade. Já na Hungria ouvi uma história que não dei muita atenção. Mas diante de voltar a circular em Spa entre alguns integrantes das escuderias, com quem conversei, vale a pena estar atento. Há quem diga que Nicolas Todt, empresário de Pastor Maldonado, da Williams, esteja negociando a transferência do venezuelano para a Lotus.

E junto com ele iria a poderosa PDVSA, a estatal de petróleo da Venezuela, com seus 24 milhões de libras (R$ 90 milhões) por temporada. Esse patrocínio financiaria a permanência de Kimi. O que acha? Faz sentido, não? Mas se o desfecho será esse mesmo não sabemos. Como escrevi, na Fórmula 1 as implicações de uma mudança dessa natureza são imensas.

Há uma consequência se der certo: o que fazer com Romain Grosjean? Não que o talento do francês seja tal que levaria Boullier e nesse caso até o dono da Lotus, Gerard Lopez, de Luxemburgo, a não aceitar a proposta de Todt, mas ambos não gostariam que Grosjean saísse de sua órbita. É provável que o ajudassem a encontrar um carro para 2014. Disputa boa temporada. E se Kimi sair da Lotus para ser o companheiro de Alonso? Nessa hipótese Boullier já adiantou que gostaria de contar com Nico Hulkemberg que, acredite, tem boas chances de ficar sem escuderia de novo em 2014 se não der certo com a Lotus. Vamos falar mais lá na frente a esse respeito, no motorhome da Sauber.

MCLAREN

As instalações da McLaren estão dentre as mais suntuosas no paddock. E o ambiente interno é oposto ao que já foi até há alguns anos, quando Ron Dennis ainda dirigia o time. Agora há dentro do espaçoso e elegante motorhome um restaurante de fino gosto self service. Todos são bem vindos. E a assessora de imprensa é a mais querida do paddock, a italiana Silvia Hoffner, escolhida a dedo para ajudar a compor esse ambiente de desprendimento.

Bem, na Bélgica Button surpreendeu a todos ao afirmar que a McLaren deixou expirar o prazo para confirmar seu contrato para 2014. Ao decidir tornar a decisão pública Domenicali o entendeu perfeitamente. Se dependesse apenas da sua vontade Button já estaria na Ferrari. Já ouvi dele mais de uma vez: “Aceitei, como campeão do mundo, em 2010, correr ao lado de Lewis (Hamilton) na McLaren, para todo mundo o time de Lewis. Não teria problema em dividir o espaço com ninguém, mesmo com Fernando na Ferrari”.

Com certeza Button passa pela cabeça dos homens da direção da Ferrari. Há tempos. Representa o piloto ideal, pois não deve chatear tanto Alonso e muito provavelmente faria mais pontos que Massa. Mas a renovação com a McLaren parece ser apenas uma formalidade. Ao não exercer a opção sobre o seu contrato, Whitmarsh não quis dizer que não o deseja em 2014. Chocaria a todos se Button não permanecesse onde está e, como sempre, realizando um bom trabalho.

A outra vaga está certa para Sergio Perez. O contrato com a Vodafone, principal patrocinador da McLaren, acaba no fim do ano. E é bem provável que a Telmex, empresa de comunicação do México, a substitua. Com um preço, claro, a presença do mexicano Perez na organização. Que nem é alto.

Nesta sexta, vamos entrar nos motorhomes da Force India, Toro Rosso, Sauber, Williams, Marussia e Caterham.

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