Ruseel Boyce/Reuters
Ruseel Boyce/Reuters

Saiba os detalhes da volta de Kimi Raikkonen à Ferrari

Depois de ser sumariamente dispensado no fim de 2009, Raikkonen está de volta ao time italiano, reabilitado pelos resultados

LIVIO ORICCHIO - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2013 | 11h51

NICE - Agora que a Ferrari oficializou a esperada contratação de Kimi Raikkonen, por dois anos, os fãs da Fórmula 1 podem estar certos: a disputa entre Fernando Alonso e o finlandês será uma das atrações da próxima temporada. Bem como a maneira que Stefano Domenicali, diretor da escuderia, irá gerenciar a presença de dois campeões do mundo juntos, sabendo-se que Alonso passa a reclamar de tudo e de todos quando fica atrás do companheiro de equipe. A empreitada é das mais complexas para Domenicali, homem de filosofia liberal, voltado sempre ao diálogo.

Quando Raikkonen se lançou no mercado, no fim de 2011, interessado em voltar à Fórmula 1, a maioria acreditou que a razão era financeira. O finlandês montara seu próprio time de rali naquele ano e bancou com dinheiro próprio as elevadas despesas. Para completar o quadro de ceticismo quanto ao que poderia fazer, se retornasse à Fórmula 1, a imagem deixada no fim de 2009 foi muito ruim.

A Ferrari simplesmente não respeitou o contrato e o pagou para não correr de Fórmula 1 em 2010. Raikkonen recebeu metade do valor. Segundo uma fonte próxima ao piloto, nada menos de impressionantes 12 milhões de euros (R$ 36 milhões). O que estava por detrás da dispensa de Raikkonen?

O presidente da empresa, Luca di Montezemolo, não suportava mais ver o piloto que foi campeão do mundo com sua organização, em 2007, estar tão desinteressado da Fórmula 1. Viu que depois do título perdeu o foco e sua vida fora dos autódromos, por nada condizente com as necessidades de preparação de um piloto de Fórmula 1, o levou a ser terceiro no campeonato de 2008, com 75 pontos diante de 97 de Felipe Massa, vice-campeão, seu companheiro, e sexto em 2009, com 48 pontos contra 95 de Jenson Butto, da Brawn GP, campeão. A temporada de Massa foi interrompida no GP da Hungria, décimo do calendário, por causa do acidente.

O modelo F60 de 2009 não era competitivo, mas Montezemolo e os demais integrantes da Ferrari compreenderam facilmente que Raikkonen não tinha mais estímulo. “Fazia o que pedíamos, por obrigação, sem falar quase nada com ninguém, acabava, virava as costas e ia embora”, disse ao Estado um ex-profissional do grupo de Fórmula 1 da Ferrari.

A direção do banco Santander acenou com a possibilidade de um grande investimento na Ferrari se fosse atrelado à contratação de Fernando Alonso, sem compromisso com a Renault no fim de 2009. Ora, tanto Montezemolo quanto Domenicali sempre disseram admirar o trabalho do asturiano.

Portanto, para empresas dessa monta, entrar num acordo para pagar os 12 milhões de euros da dispensa de Raikkonen e os cerca de 20 milhões de euros (R$ 60 milhões) por ano para Alonso não seria um grande problema, diante da magnitude do projeto. Rapidamente o dinheiro apareceu e todos saíram na foto celebrando a chegada de Alonso e do Santander a Ferrari, no fim de 2009.

Nos dois anos distante da Fórmula 1, Raikkonen descobriu que o desafio do Mundial de Rali é talvez maior do que imaginava. Não conseguiu nenhum resultado de relevo. Experimentou, também, a Nascar, a Stock Car norte-americana, mas apesar de ter “adorado” viu também que teria de começar do zero. O teste com o carro da Peugeot da Série Le Mans foi um divertimento, apenas. Não pretendia disputar provas longas.

Depois de uma conversa com o seu empresário, o inglês Steve Robertson, no fim de 2011, ficou decidido que tentaria voltar à Fórmula 1. Roberton saiu ao mercado para sentir como seria a reação dos diretores das equipes. Falou, por mais incrível que possa parecer, com a mesma Ferrari que o dispensou dois anos apenas antes. Procurou também a Mercedes e a McLaren, além da Lotus. Esses times não escondem terem sido procurados pelo empresário de Raikkonen.

As incertezas todas que cercavam a figura do finlandês, depois da última exibição na Fórmula 1, em 2009, levou Ferrari, como era de se esperar, Mercedes e McLaren responderem “não, obrigado”.

Já Eric Boullier, da Lotus, precisava de um piloto com experiência numa equipe grande e conhecedor do que é necessário para lutar pelas primeiras colocações e aceitou o desafio: contratou Raikkonen. “Sabíamos que era muito capaz, mas não tínhamos ideia do que representariam os dois anos parado, longe da Fórmula 1”, disse, ao Estado, em entrevista exclusiva, na Malásia, este ano.

“Mas logo no primeiro treino de Kimi ficou claro que havíamos encontrado o que tanto precisávamos, um líder com o qual poderíamos voltar a crescer. Veloz, de poucas palavras, mas muito preciso ao definir o que tinha de ser feito no carro”, disse Boullier.

O que com certeza Boullier e ninguém na Fórmula 1 imaginava era que os dois anos ausentes repercutiram apenas positivamente em Raikkonen. Manteve os predicados de velocidade e regularidade extraordinários e resgatou o interesse perdido em 2008 e 2009.

Resultado: no ano passado, o da sua volta à Fórmula 1, pela Lotus, disputou o título até as últimas etapas. Só não marcou pontos no GP da China. A Lotus, antiga equipe Renault, voltou a ser grande. E Raikkonen, o grande piloto que o levou a vencer o Mundial em 2007.

O difícil foi pagar Raikkonen. Subestimaram sua capacidade de fazer pontos. Havia um valor básico no seu contrato, baixo, e depois a cada ponto conquistado levaria, segundo estimativa no paddock da Fórmula 1, 50 mil euros (R$ 150 mil) para casa. Pois Raikkonen chocou os profissionais da competição ao somar nada menos de 207 pontos (10 milhões e 350 mil euros ou R$ 31 milhões). O campeão foi Sebastian Vettel, da Red Bull, com 281.

Raikkonen este ano disputa bela temporada de novo. É o quarto no campeonato por causa das duas últimas corridas desfavoráveis, Bélgica, quando abandonou com problema nos freios, e Monza, decorrente de um toque com Sergio Perez, da McLaren. Soma 134 pontos enquanto o líder é Vettel, com 222. O finlandês foi vice-líder bom tempo.

Ocorre que Raikkonen tem ambição de ser campeão do mundo novamente e a Lotus, que lhe deve o dinheiro dos pontos deste ano, não demonstra dispor de recursos para poder enfrentar Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull em 2014, quando haverá substancial mudança no regulamento técnico. “Eles sabem o que é necessário para continuarmos negociando”, disse o piloto em Monza, referindo-se a Lotus, quando o acordo com a Ferrari não havia sido estabelecido, ainda.

A exigência: a garantia de que a Lotus dispõe de saúde financeira para seu departamento técnico produzir um carro capaz de enfrentar as outras quatro escuderias mais bem estruturadas.

Como Montezemolo e Domenicali viram que o Raikkonen de hoje é ainda melhor do que foi campeão pela Ferrari em 2007 e Fernando Alonso, com todo seu brilhantismo, não está mais fechado com o grupo, ao se oferecer para correr na Red Bull, a contratação de Raikkonen atinge vários objetivos.

O primeiro é ter na escuderia um piloto muito mais regular que Massa, que alterna belas apresentações, como a de Monza, com outras tantas fracas. E a partir de 2014, com o novo regulamento, a regularidade será ainda mais essencial para disputar o título.

O segundo objetivo é tão ou mais importante que o primeiro. Mostrar a Alonso que ele não manda na Ferrari. E se desejar continuar competindo pela organização italiana tem de respeitar sua história, seus homens e sentir orgulho de lá estar.

Para não falar que ninguém hoje lhe pagaria 20 milhões de euros por ano. Alonso é um funcionário da Ferrari. De elavadíssima importância., inquestionavelmente, mas que sem ele também é possível, agora, pensar em vitórias e ganhar o campeonato. O fator novo chama-se Kimi Raikkonen.

Resta saber se haverá sinergismo entre os dois pilotos, se de fato vão trabalhar para a Ferrari crescer e na pista cada um tentar desfrutar do carro para obter seus resultados, com respeito ao companheiro, ou haverá tensão o tempo todo, por competirem pelo mesmo objetivo, gerado pela elevada capacidade de ambos de conquistar vitórias.

O estilo do finlandês é de não se importar com nada que o cerca. Mas pode ter limite. Já o de Alonso é de também trabalhar duro para estar sempre na frente, não só do companheiro, mas se as coisas não saírem como pensa, ficar atrás de Raikkonen, por exemplo, com toda certeza não será por que o finlandês realizou um trabalho melhor, mas por fatores extras que o prejudicaram para expor o seu máximo. E invariavelmente a culpa recai na equipe.

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