Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

São Paulo negocia para reduzir taxa e pagar R$ 84 milhões para manter a Fórmula 1

Com contrato para o GP do Brasil válido até 2020, cidade tenta convencer a Fórmula 1 a diminuir valor cobrado para realizar o evento

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2019 | 01h30

A Prefeitura de São Paulo, o governo estadual e os promotores do GP do Brasil de Fórmula 1 estão confiantes de que a corrida deste domingo, com largada às 14h10, não será uma das últimas da categoria em Interlagos. Com contrato somente até 2020 e diante da concorrência do Rio para sediar a etapa nos anos seguintes, São Paulo negocia para renovar o acordo e voltar a pagar a taxa anual cobrada pelo comando da F-1.

O objetivo é desembolsar cerca de R$ 84 milhões, equivalente a US$ 20 milhões, para bancar a chamada "promoter fee". A taxa anual está abaixo do que os novos donos da F-1 têm cobrado das cidades interessadas em receber a categoria. O grupo americano Liberty Media, que assumiu o comando do campeonato em 2017, exige ao menos US$ 35 milhões (R$ 147 milhões) por ano. O chefe do grupo é Chase Carey, um dirigente discreto e avesso a entrevistas.

A contraproposta de US$ 20 milhões, no entanto, é considerada viável porque há exceções entre as taxas pagas pelas etapas do calendário internacional. São Paulo, por exemplo, não paga nada atualmente. O GP dos Estados Unidos desembolsa US$ 20 milhões e o da Inglaterra, US$ 18 milhões. No outro extremo, Abu Dabi banca quase US$ 70 milhões. Já Mônaco paga valor simbólico por trazer outros benefícios à F-1. Quase todas as negociações da categoria passam pela etapa disputada em Monte Carlo. 

Se não consegue bancar o valor exigido pela Liberty Media, São Paulo conta com outras vantagens por causa do forte mercado consumidor, da grande audiência de TV e do desejo das empresas de atuarem na cidade. "A F-1 olha também para o quadro geral, para o interesse das empresas envolvidas em cada GP, patrocinadores e empresas automobilísticas", argumenta o promotor do GP brasileiro, Tamas Rohonyi, ao Estado.

Para bancar o valor de R$ 84 milhões, São Paulo conta com a liderança do governador João Doria para encontrar investidores. A meta é repetir a iniciativa bem-sucedida do México. Neste ano, o governo mexicano retirou os subsídios para a realização do GP, o que obrigou as autoridades locais a buscarem empresários interessados em bancar a corrida. Deu certo: o país renovou seu vínculo com a categoria por três anos. Doria, inclusive, estará no autódromo neste domingo para uma nova conversa sobre renovação de contratos.

Ao mesmo tempo, promotor e Prefeitura de São Paulo tratam o GP brasileiro deste ano como importante cartão de visitas na negociação. A intenção é caprichar ainda mais na organização para mostrar o quanto a cidade tem condições de assinar um novo acordo, com duração de dez anos. O diferencial de Interlagos para este ano é a reforma feita nos boxes, com R$ 41 milhões de recursos federais e mais R$ 3,5 milhões de verbas municipais.

A intervenção deixou os boxes com novo piso, teto mais alto e divisórias móveis, para possibilitar mais espaço de trabalho. "Com essa reforma, conseguimos modernizar a estrutura de um autódromo criado há 80 anos. Queremos fazer que o GP de 2019 seja um dos melhores da história", afirmou o secretário municipal da Casa Civil e Turismo de São Paulo, Orlando Faria.

A reforma integra a última etapa da revitalização iniciada em Interlagos no fim de 2014 como contrapartida pela renovação do contrato da cidade com a Fórmula 1 até 2020. A construção de novas áreas para equipes, reforma do asfalto e ampliação dos boxes custou cerca de R$ 160 milhões aos cofres do governo federal. Resta somente agora a cobertura do paddock, que será realizada em janeiro.

Segundo pessoas que acompanham as negociações, São Paulo considera melhor não ter pressa para selar o acordo. A cidade monitora as tratativas do Rio com a F-1 e avalia que, por já ter um autódromo pronto, a vantagem no páreo está do lado paulista. A estimativa é que o martelo só seja batido no segundo trimestre do próximo ano. Consultados sobre a disputa, pilotos do grid atual dividiram opiniões.

Quem está nas tratativas garante que quanto mais tempo as conversas demorarem, mais fácil ficará para São Paulo. A análise é que a cada dia o Rio tem menos tempo para viabilizar a construção de um novo autódromo em Deodoro. Isso poderia tornar o comando da F-1 mais flexível e disposto a aceitar o valor menor oferecido pela capital paulista.

GESTÃO

A partir de 2020, último ano do atual contrato de São Paulo, a gestão do GP poderá ter novidades. Tamas Rohonyi negocia parceria com Alan Adler, diretor executivo da IMM, empresa especializada em organização de eventos, para terceirizar alguns setores da corrida, como impressão e venda de ingressos. 

"No GP, fazemos tudo: organizamos o evento, imprimimos e vendemos os ingressos e cuidamos da limpeza. E ele (Alan) faz o mesmo nos eventos dele. Começamos a conversar para otimizar o que temos. Acabamos de fechar o primeiro passo dessa cooperação", explica Tamas, que garante que seguirá como o principal gestor.

Procurado pelo Estado, Adler confirmou a negociação para assumir certas áreas do evento paulista. Responsável pela organização do torneio de tênis Rio Open e por lutas de UFC, a IMM pertence ao grupo Mubadala, sediado nos Emirados Árabes Unidos. Na década passada, o grupo foi patrocinador e chegou a deter ações da Ferrari na Fórmula 1.

 

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