Schumacher: anti-herói na Alemanha

É sempre assim: toda vez que a situação requer algum comportamento ético de Michael Schumacher ou exige um certo desprendimento, uma reação mais elevada, característica dos verdadeiros campeões, ele decepciona até a própria torcida. No último domingo, o piloto da Ferrari, vencedor oficial do GP da Áustria, foi vaiado por milhares de incrédulos fãs ? entre eles, muitos que se deslocaram da Alemanha para Spielberg ?, mais uma vez envergonhados com aquele que deveria ser seu ídolo. Apesar dos números impressionantes da carreira, que já o colocam como o primeiro em quase tudo na Fórmula 1, Schumacher ainda não saiu do zero na escala dos esportistas que entraram para a história não só pela habilidade mostrada nas pistas, quadras, campos ou piscinas, mas, principalmente, pela dignidade com que competiam. Não é difícil resgatar algumas das passagens mais marcantes da trajetória do alemão na F-1. Curiosamente, as mais representativas não estão ligadas a momentos de júbilo pelas conquistas, mesmo sendo o responsável pela quebra de um tabu de 21 anos sem títulos de pilotos da Ferrari. Schumacher é ? e provavelmente sempre será ? lembrado com maior freqüência pelos métodos rasos com que define algumas de suas vitórias, incompatíveis com a habilidade, coragem e determinação que carrega desde o tempo em que começou a treinar no kartódromo administrado por seu pai, em Kerpen, na Alemanha. Velha tática ? Na memória dos que acompanham a F-1, está bem mais marcada a tentativa de jogar Jacques Villeneuve, da Williams, para fora da pista no GP da Espanha de 1997 para ficar com o título do que a conquista do primeiro Mundial com a Ferrari, no GP do Japão de 2000. No episódio de Jerez de la Frontera, em 97, Schumacher despiu sua alma para o mundo e todos se assustaram ainda mais pela extensão de seu comportamento, que chegou a pôr a vida do adversário em risco. O fato impressionou muito mais do que a vitória e a conquista do título em Suzuka, em que, pelas circunstâncias da corrida, o alemão não precisou ir tão longe. Melhor para todos. Mas a ?tática? empregada em Jerez de la Frontera já havia dado certo antes, no GP da Austrália de 1994, em Adelaide. Schumacher cometeu um erro, danificou a Benetton e jogou o carro contra a Williams de Damon Hill, conquistando seu primeiro título mundial. Como a manobra foi menos evidente que a de 97 ? e ainda não se sabia do que Schumacher era capaz ?, não houve punição. Tudo acabou sendo interpretado como um ?acidente de corrida.? Sobre o alemão, restaram fortes suspeitas. Mas ele estava apenas começando a carreira. Reforço negativo ? A imagem até mesmo de desonestidade que acompanha Schumacher desde o início da carreira na F-1 é reforçada periodicamente. Ela já está tão sedimentada na cabeça das pessoas que mesmo ocorrências como as de Spielberg, domingo, ganham dimensão maior do que têm na realidade. O piloto alemão tem total autoridade na Ferrari para afrontar ? e recusar ? uma ordem de equipe dada por Jean Todt. Mas, a exemplo de todas as decisões que já teve de tomar rapidamente, equivocou-se. Deixou-se contaminar-se diante da perspectiva de vencer. Aquela parte de seu ser que precisa estar em vantagem, não importando os meios, sempre acaba por se manifestar. Parece um ato reflexo, involuntário, posto em prática antes que possa refletir sobre suas conseqüências. Quando Schumacher se dá conta, o estrago está feito. Já foi dito que Damon Hill foi o campeão do mundo mais sem carisma da história da F-1. E que Ayrton Senna, apesar de nem sempre ser um modelo de comportamento na pista, é o piloto mais carismático dos 52 anos do Mundial. Em que lugar desse ranking se enquadraria Schumacher? Tomando-se por base o gesto dos torcedores alemães diante da cerimônia do pódio na Áustria, movendo os polegares para baixo, pode-se concluir que a empatia entre Schumacher e os próprios alemães deve ser bastante questionada. Juan Manuel Fangio, Muhammad Ali, Pelé, Jessie Owens, Michael Jordan, Bjorn Borg, Nadia Comaneci são exemplos de esportistas que, como Schumacher, colecionaram as mais importantes conquistas. Só que, ao contrário do piloto da Ferrari, transformaram-se em ícones do esporte. Daqui a alguns anos, quando o diretor de uma equipe de kart orientar um jovem que inicia a vida no automobilismo, poderá até dizer: ?Mire-se em Michael Schumacher?, pretendendo chamar a atenção para a velocidade que o alemão tira do equipamento. A seguir, o diretor, provavelmente, completará: ?Mire-se nele, mas não repita aquilo que você sabe que ele fazia.?

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