Schumacher fez de tudo, menos correr

Pela primeira vez desde que estreou na Fórmula 1, no GP da Bélgica de 1991, há 159 GPs, Michael Schumacher não correspondeu com sua vontade quase incontrolável de vencer, decepcionando muita gente. O campeão do mundo, diante dos torcedores da Ferrari, em pleno circuito de Monza, fez de tudo, até liderar um movimento entre os pilotos, menos disputar para valer o GP da Itália. Depois da prova, não falou com ninguém. Sua equipe distribuiu apenas o tradicional comunicado de imprensa, onde o alemão dizia: "Estou contente por este fim de semana ter terminado. O mais importante é que nada de ruim aconteceu nesta tarde." Bernie Ecclestone e Michael Schumacher entraram em rota de colisão.O piloto da Ferrari não deseja viajar aos Estados Unidos, para disputar a etapa de Indianápolis, dia 30, ao contrário do que afirmou quinta-feira. E Ecclestone defende a realização do evento. O campeão da temporada, da escuderia mais conhecida na América, não pode faltar, pensa o dirigente inglês. O receio de ter de viajar para os Estados Unidos, o terrível acidente sofrido por Alessandro Zanardi, a tragédia do ano passado em Monza e, claro, o fato de os mundiais de pilotos e construtores estarem já definidos tiraram Michael da corrida.O dia do piloto da Ferrari, hoje, foi único. Pouco antes do desfile dos pilotos, num caminhão aberto, logo pela manhã, ele dirigiu um movimento que tinha o objetivo de fazer com que os 22 pilotos não disputassem posições nas duas primeiras chicanes, na primeira volta, depois da largada. Sua assessora, Sabine Kehm, explicou a iniciativa: "Ele ficou chocado com as fotos do acidente do Zanardi. Acho que aquilo foi a gota d´água" disse. "Michael já estava sensibilizado com o episódio dos Estados Unidos, temia uma nova tragédia (morte do comissário) aqui em Monza, depois veio essa do Zanardi..." Já na sessão de classificação, sábado, Michael não demonstrou muito interesse na competição, ao obter o terceiro tempo. "Errei muito", limitou-se a dizer.O movimento de Michael necessitava da concordância de todos. Um piloto adiantou que não contassem com ele. "Vocês sabem que é já", falou o alemão. Era Jacques Villeneuve, da BAR, que nem mesmo faz parte da Associação dos Pilotos de Grand Prix, a GPDA. Michael queria que todos os colegas assinassem um documento comprometendo-se a não ultrapassar ninguém nas duas primeiras chicanes. Quando dois dirigentes souberam do negócio, proibiram expressamente seus pilotos de o assinarem: Tom Walkinshaw, da Arrows, e Flavio Briatore, da Benetton."Tom não me autorizou", contou Enrique Bernoldi, da Arrows. "Sou eu que pago o salário de meus pilotos e não Michael", afirmou Flavio Briatore.Ao conhecer a reação dos dois, Jean Todt, que apoiou o alemão, comentou: "Não tenho a menor estima por esses diretores de times que nunca sentaram num carro de corrida e pensam que podem decidir por seus pilotos." Diante do fracasso iminente nos planos de oferecer maior segurança na largada, Michael guardou para o último instante um golpe final. Tão logo estacionou sua Ferrari no grid, sendo que desta vez nem mesmo testou também o carro reserva, como sempre faz, deixou o cockpit e, um a um, exceto Villeneuve, tentou convencê-los de agir com extrema prudência nas duas primeiras freadas. "Quero vê-lo comigo no fim da corrida, está bem?" , disse a todos.

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