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Sebastian Vettel, um piloto que a Red Bull criou e projetou para a Fórmula 1

Programa de formação de talentos da equipe descobriu o alemão com 12 anos e o guiou até o tricampeonato mundial

LIVIO ORICCHIO, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2012 | 20h52

SÃO PAULO - Logo depois de Sebastian Vettel deixar o cockpit do modelo RB8-Renault da Red Bull, domingo, em Interlagos, saltou de alegria junto dos integrantes da equipe, no paddock , e subiu para a sala de imprensa para ser entrevistado pelos jornalistas. Uma das primeiras perguntas foi: você ganhou três títulos seguidos de Fórmula 1 pela mesma escuderia, qual o seu próximo desafio, vencer outro campeonato com outro time?

O mais jovem piloto a conquistar três vezes o Mundial, aos 25 anos, respondeu: “Estou fechado com esse grupo. Tenho contrato até o fim de 2014. Sinto-me muito feliz com o que conseguimos e essa história não acabou ainda. Estou completamente comprometido em dar tudo o que posso também nos próximos anos com eles. No momento, não vejo nada nas outras equipes que me faça pensar nelas. Sou uma pessoa feliz na posição que tenho aqui”.

Antes de subir para a coletiva, Vettel viu o homem-forte da Red Bull, o austríaco Helmut Marko, vestindo a camiseta concebida para celebrar o tricampeonato. Marko ganhou força quase ilimitada com o proprietário da Red Bull, Dietrich Mateschitz, ao bancar a formação de Vettel desde a Fórmula BMW, seu primeiro ano no automobilismo, em 2003, com 16 anos apenas. Marko gosta da fama “Descobridor de Vettel”.

Na realidade, a relação de Vettel com a empresa austríaco de energéticos é mais antiga. No ano passado, quando conquistou o bicampeonato, em Suzuka, no Japão, esse notável piloto alemão, sempre solícito, simples, mas extremamente focado no trabalho, conversou com o Estado. Desse bate papo emergiram histórias deliciosas. Por exemplo: em julho de 1999, então com 12 anos, Vettel foi disputar uma corrida de kart em Essen, na Alemanha.

No kartódromo, soube da presença de um agente da Red Bull. Naquela época, a empresa já investia na formação de jovens pilotos, embora não tivesse time próprio na Fórmula 1. Seu projeto no Mundial começou somente em 2005. Vettel é o terceiro filho de uma família de classe média alemã. Tem duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. Seu pai trabalhava numa empresa que construía telhados residenciais e, portanto, não lhe era possível bancar a carreira do filho.

A presença do agente da Red Bull no kartódromo levou o menino Vettel procurá-lo. “Você me dá o dinheiro para terminar o campeonato e eu coloco o adesivo da Red Bull no meu kart”, disse-lhe. Assim começou a relação entre Vettel e a Red Bull. Valor do patrocínio obtido pelo piloto cheio de iniciativa: o equivalente hoje a 2 mil euros (R$ 5 mil).

Os tempos são outros agora: a Red Bull investiu na organização que domingo foi tricampeã com Vettel e tricampeã entre os construtores cerca de 200 milhões de euros (R$ 500 milhões). E paga um salário anual para o seu principal piloto no Mundial algo como 18 milhões de euros (R$ 45 milhões). Na sua residência na Suíça, contudo, em meio à área rural, Vettel leva um via um tanto espartana com a namorada. Mesmo dispondo de alguns empregados, realiza algumas atividades no sítio.

Ao Estado, no Japão, Vettel comentou: “Nada disso seria possível se naquele momento, no kart, eu não tivesse recebido um ‘sim’. Meu mais profundo agradecimento a Red Bull por me atender naquele instante decisivo para o meu futuro”.

Não foi apenas a Red Bull que acreditou no seu talento. Antes ainda do primeiro contato com a Red Bull, Vettel inscreveu-se, em 1997, com dez anos de idade, numa corrida no kartódromo construído por seu ídolo, Michael Schumacher, em Kerpen, na Alemanha, cerca de 300 km ao norte de onde nasceu e viveu a infância, na pequena Heppenheim, próxima de Hockenheim, cidade do circuito.

Schumacher já o havia visto correr. Largou nas últimas colocações e venceu. Schumacher, já duas vezes campeão do mundo pela Benetton e então piloto da Ferrari, entregou pessoalmente o troféu a Vettel no pódio. O empresário alemão Gerhard Noach, mecenas de Schumacher no início de carreira, estava no evento. Com Vettel do lado, Schumacher disse a Noach: “Nesse você pode investir. Eu acredito no seu talento”.

Vettel não disse tudo o que Schumacher lhe falou quando os dois se abraçaram, domingo, em Interlagos. Mas em Suzuka, no ano passado, o alemão falou de seu pupilo: “É emocionante vê-lo campeão de novo. Sinto-me muito feliz e um pouco orgulhoso também”. O que Vettel contou de seu ídolo, no GP do Brasil, agora, foi: “Pediu para tirar logo o capacete porque o público queria festejar comigo a conquista”.

Também em entrevista ao Estado, ao longo de seus cinco anos e 101 GPs na Fórmula 1, Vettel descreveu a relação com Schumacher: “Tínhamos de fazer economia para comprar os ingressos e ir com eu pai assistir ao GP da Alemanha, em Hockenheim. Lembro-me de pagarmos o equivalente a 5 euros por uma garrafinha de água, muito dinheiro para nós naquela época, não se esqueça que meu pai tinha de cuidar de quatro filhos. O pior foi descobrir, depois, que a água da garrafinha era de uma torneira e não mineral.”

Sobre Schumacher, comentou, ainda: “Eu tinha vários pôsters dele no meu quarto. Mas quando me tornei adolescente os substituí por de mulheres peladas”. E como o vê hoje? A resposta é do começo do ano: “Minha admiração é a mesma. Agora, no entanto, o encaro com um adversário, a exemplo dos demais pilotos. Não tenho mais ou menos prazer em superar, é um concorrente”.

Há mais em comum entre ambos além do amor pela velocidade: a forma como encaram o impressionante escalada nas estatísticas. Vettel tem quase todos os recordes de precocidade na Fórmula 1 e diante de como supera marcas históricas já se inseriu na lista dos melhores de todos os tempos. “São números importantes, sem dúvida, que me orgulham, claro. Mas penso que serão ainda mais importantes para mim quando eu parar de correr, olhar para trás e talvez entender melhor o que conquistei. Não corro por melhorar minhas estatísticas, elas são consequência do que faço com muita paixão.”

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