JF Diorio/Estadão
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TCU apura irregularidades no repasse de verba federal para realizar GP do Brasil

Processo em fase de análise quer investigar utilização de recursos públicos para organizar evento privado

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2019 | 19h55

O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu no último mês um procedimento investigatório para apurar possíveis irregularidades no repasse de recursos federais para a realização do GP do Brasil de Fórmula 1, em Interlagos. A verba de R$ 160 milhões aplicada gradualmente desde 2014 até hoje tem sido utilizada para reformar o autódromo. A liberação do investimento foi para garantir a renovação do acordo entre prefeitura, organização da corrida e o comando da categoria para garantir a realização da etapa paulistana pelo menos até 2020.

 O processo no TCU corre sob segredo de Justiça e tem como relatora a vice-presidente do órgão, a ministra Ana Lúcia Arraes de Alencar. Nele, há questionamentos sobre o investimento, bancado pelo Ministério do Turismo via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Segundo apurou o Estado, o foco recai sobre o uso de dinheiro público para reformar o autódromo municipal com o intuito de beneficiar um evento privado – o GP do Brasil. 

Procurado, o TCU disse que não vai se manifestar sobre a apuração em curso. O órgão também não determinou um prazo para emitir a primeira avaliação sobre o caso. Segundo informações do sistema de busca do processo, a apuração teve início a partir de uma denúncia anônima. 

A prefeitura de São Paulo afirmou que não comentaria o processo por se tratar de um procedimento investigatório ainda em análise. O Ministério do Turismo prometeu que vai contribuir com o trabalho de apuração e frisou que o repasse de verbas foi acordado em administrações passadas. 

"O Ministério do Turismo está à disposição para auxiliar nas investigações iniciadas pelo TCU com o repasse de todas as informações necessárias. O processo apura denúncia de irregularidades em gestões anteriores", disse o órgão em nota. O contrato foi assinado no fim de 2013 entre a presidente Dilma Rousseff, o ministro do Turismo Gastão Vieira e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

Em contato com a reportagem, a organização do GP do Brasil afirmou que nunca recebeu recursos do governo federal para realizar a corrida. "Nunca recebemos um tostão da prefeitura e do governo federal. A manutenção do autódromo, que tem um uso pesado o ano todo, e sua modernização, são feitas pela prefeitura", disse Tamas Rohonyi, promotor do GP brasileiro.

REVITALIZAÇÃO

Os recursos da reforma serviram para modernizar Interlagos e atender antigas demandas da Fórmula 1. A principal delas é o espaço destinado para as equipes. Antes criticados, os prédios utilizados como estruturas auxiliares de trabalho das escuderias, chamados de paddock, triplicaram de área. 

O mesmo pacote de investimento realizou intervenções como a troca completa do asfalto da pista, construção de um novo prédio de apoio, reforma de tubulações elétricas e sanitárias e ampliação da área VIP.

A etapa atual da revitalização servirá para aumentar os boxes. Com o custo de R$ 43 milhões, esta nova fase de obras teve início em abril e servirá para dar mais espaço para os mecânicos das equipes. Os trabalhos estão em fase final e vão fazer com que os prédios dos boxes tenham tetos mais altos e paredes móveis, úteis para deixar o espaço mais diversificado para receber outros eventos além da Fórmula 1.

A apuração no TCU surge em um momento de definição sobre a continuidade da Fórmula 1 em São Paulo pelos próximos anos. Com acordo em vigor somente até o fim de 2020, a capital paulista quer renovar, mas enfrenta a concorrência do projeto de um novo autódromo em Deodoro, no Rio de Janeiro. A pista carioca, porém, ainda precisa de licença ambiental para começar a ser construída.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, e o governador de São Paulo, João Doria, prometem se esforçar para manter a prova em Interlagos pelos próximos anos. Um dos principais interesses é no rentabilidade que a corrida traz para a cidade durante o fim de semana. 

Segundo dados da São Paulo Turismo (SPTuris), empresa oficial de turismo da cidade, no último ano os turistas movimentaram R$ 334 milhões no GP do Brasil do último ano, um aumento de 19% em comparação ao ano anterior.

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