Temporada de 2014 marca retomada da inserção de mulheres na Fórmula 1

Depois de 22 anos categoria voltará a ter representante feminina em sessão oficial de um Grande Prêmio

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - A Fórmula 1 vivencia transformações históricas. Além da drástica mudança de regulamento, a nova temporada, que começará na semana que vem, na Austrália, terá a volta de uma mulher à categoria depois de 22 anos. E mais: uma outra piloto está sendo preparada para no ano que vem integrar a seleta classe de participantes da principal categoria do automobilismo.

O anúncio da chegada da dupla de mulheres ocorreu em fevereiro. A Williams informou que a escocesa Susie Wolff pilotará um de seus carros em dois treinos livres de sexta-feira ao longo do ano. Ainda sem promessa de efetivação, a colega de equipe de Felipe Massa se alternará no cockpit com outro brasileiro, Felipe Nasr, e será a primeira mulher a participar de sessões oficiais desde Giovanna Amati, em 1992.

Na fila para entrar na F-1, a próxima é a suíça Simona de Silvestro. A piloto disputou as quatro últimas temporadas da Fórmula Indy e em 2014 vai participar do programa de afiliados da Sauber com o intuito de ser preparada para estar no grid de largada no próximo ano.

A presença feminina na categoria é tão excepcional que, em 64 temporadas, cerca de 900 pilotos participaram e apenas cinco eram mulheres. Na maioria dos casos, elas tiveram pouquíssimas oportunidades e resultados modestos. Somente as italianas Maria Teresa de Filippis (1958-59) e Lella Lombardi (1974-76) conseguiram disputar alguma corrida. Embora a Fórmula 1 se gabe de sua modernidade, o ambiente da categoria é talvez o mais machista do esporte. Como não há divisão por sexo, as mulheres precisam desafiar velhos preconceitos e competir junto com os homens.

"Prefiro dizer que é difícil entrar e ter sucesso em qualquer modalidade, em vez de falar em gênero. O financiamento é uma grande parte do automobilismo e eu tive a sorte de ser financiada antes da crise econômica", despistou Susie Wolff, a responsável por encerrar o jejum feminino. "Não me sinto pressionada por ser a primeira mulher na categoria depois de tanto tempo. Cobrança e boa performance fazem parte", disse a piloto de 31 anos, mulher de Toto Wolff, diretor executivo da Mercedes.

Susie participa do programa de desenvolvimento de pilotos da Williams desde 2012 e personifica a evolução gradual da participação feminina na F-1. Somente em 2010, por exemplo, uma mulher foi nomeada chefe de equipe – a indiana Monisha Kaltenborn, da Sauber. "Ainda não dá para dizer que temos uma virada no esporte, mas as mulheres vivem uma época de progressos. Temos exemplos inspiradores e que mostram o quanto é possível a nossa presença no esporte", comentou Michele Mouton, presidente da Comissão para Mulheres da Federação Internacional Automobilismo (FIA).

DISPUTA POR ESPAÇO

Apesar dos avanços recentes das mulheres, ainda há muito a fazer. Susie e Simona não têm vaga garantida no grid de largada, embora a suíça tenha mais chances de atingir o sonho. Aos 25 anos, ela vai tirar os próximos meses para se acostumar ao carro e obter a superlicença, obrigatória para correr na categoria.

"A Fórmula 1 é o nível mais alto do automobilismo. Para chegar até aqui, eu tive sorte, fui bem nos circuitos de rua da Fórmula Indy e estou pronta para dar o próximo passo na minha carreira." Simona evita falar sobre o preconceito. A piloto passou os últimos sete anos nos Estados Unidos, onde a presença de mulheres é bem mais comum no automobilismo do que na Europa. Na Fórmula Indy, por exemplo, a americana Danica Patrick já venceu uma prova, em 2008.

A brasileira Bia Figueiredo vivenciou as diferentes recepções às mulheres no automobilismo nos dois continentes, pois passou seis meses na Europa antes de migrar para a Indy. "Barreiras já foram quebradas, mas ainda há ressentimento", explicou. A piloto conta ter sofrido bastante preconceito. "Já ganhei corridas em que os outros pilotos sentiram um verdadeiro desaforo por terem perdido para uma mulher."

Segundo a professora de educação física e esporte da USP Katia Rubio, as mudanças na Fórmula 1 geram estranhamento por serem o resultado tardio da inserção feminina em outras modalidades. "Para alguns homens, ainda é muito difícil superar o preconceito e admitir a derrota para as mulheres em esportes que envolvem inteligência e estratégia."

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