Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

'Tive uma luz para chegar em 2º lugar', conta Moreno

Ex-piloto por pouco não correu o GP do Japão em 1990

Entrevista com

Roberto Moreno

Ciro Campos e Guilherme Moraes, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2015 | 07h00

Muita gente se surpreendeu quando a Benetton, então terceira melhor equipe da Fórmula 1, chamou o brasileiro Roberto Pupo Moreno para o lugar de Alessandro Nannini, que sofrera grave acidente dias antes do Grande Prêmio do Japão de 1990. Já com 31 anos, o experiente piloto havia passado apenas por equipes pequenas e disputado só duas etapas naquela temporada pela EuroBrun. Após a bandeirada, o segundo lugar no pódio só não chamou mais a atenção do que a sequência quase inacreditável de acontecimentos que o colocaram no cockpit do colorido carro da Benetton.

Dos Estados Unidos, onde mora com a família há 17 anos, Moreno conversou com o Estado por telefone e relembrou o feito. Carioca radicado em Brasília, assim como o amigo Nelson Piquet, o piloto afirma que uma "força sobrenatural" o ajudou a manter a segunda colocação em Suzuka, no resultado que trouxe a última "dobradinha" brasileira na categoria.

Como surgiu o convite da Benetton?

Ao contrário do que muitos pensam, foi antes do trágico acidente do Nannini. Estava insatisfeito com minha equipe à época e viajei para a Inglaterra para conversar sobre a temporada de 1991 com a Brabham. Como já estava lá, liguei também para o John Barnard (projetista da Benetton) para me oferecer. Por coincidência, ele estava trabalhando no carro do ano seguinte e precisava que algum piloto sentasse no protótipo para acertar os detalhes antes de fabricar o cockpit com fibra de carbono. Combinei que passaria na sede da equipe no final do dia. Quando cheguei na Benetton, percebi que havia algo de errado quando o John veio me buscar no carro, com o cabelo em pé. Quando entramos em sua sala, o telefone tocou e o nome do Michael Andretti (piloto americano, que guiaria a McLaren em 1993) foi falado. Só depois soube que era o presidente do departamento esportivo da Ford.

Em um certo momento, o John tirou o fio do telefone e me explicou que o Nannini havia sofrido um acidente e perdido o braço. Ele me disse: "Como você viu, todo mundo está ligando para se oferecer para correr. Você foi o único a ligar antes do acidente e ainda veio aqui fazer um favor para a gente. Você quer dirigir?".

E como ficou a situação com a EuroBrun?

Estava insatisfeito desde quando descobri, sem querer, que a EuroBrun não queria que eu passasse para a segunda parte dos treinos de classificação. Isso porque a parte suíça da equipe, que investia o dinheiro, enviava a mesma verba para a parte italiana, responsável pela operação, se passássemos ou não para a qualificação. Foi essa situação que me motivou a ir para a Inglaterra buscar outro time. Mas, depois de acertar com a Benetton para as últimas duas corridas do ano, ainda tinha contrato vigente. Então liguei para a EuroBrun e a secretária disse que também estava me procurando, porque a equipe havia decidido não correr no Japão e na Austrália por falta de verba. A sequência foi essa: às 10h cheguei na Inglaterra, às 14h acontece o acidente do Nannini, às 18h eu acerto com a Benetton e às 19h a antiga equipe me avisava que eu não precisava correr mais. Foi uma coisa de Deus.

E então o contrato foi desfeito?

A história não acaba por aí. Quando pedi uma carta da EuroBrun dizendo que não a equipe não ia correr nas últimas duas etapas, soube que eles descobriram que eu havia acertado com a Benetton. Por causa disso, tentaram me "vender" para a Benetton para conseguir dinheiro para correr no Japão e na Austrália, escapando das multas da FIA. Diante dessa situação, viajei para a Itália para fazer o macacão da Benetton e fui para o Japão na segunda-feira, mas não sabia se ia correr no fim de semana seguinte. Esperei até a quinta-feira para ver se a EuroBrun não apareceria no paddock. Como não apareceu, comecei a treinar normalmente com a Benetton na sexta.

E a corrida, foi muito difícil?

Quando guiei o Benetton, não acreditava no quanto aquele carro freava, acelerava e fazia curva. Em competição, foi o melhor que eu havia dirigido até então. Mesmo assim, como havia participado de apenas duas etapas naquele ano, não estava no melhor da forma física e fiquei muito cansado logo após o primeiro treino. Cheguei até a pedir ajuda para um amigo carateca do Brasil, que me recomendou ler a Bíblia. Na hora, esnobei. Mas depois fui ler a passagem que ele havia me indicado. Durante a corrida, quando já estava em segundo, o Nelson começa a abrir vantagem, porque eu havia cansado. Foi quando eu lembrei do trecho e ganhei forças para continuar. Eu tive uma luz.

Da sua posição, o que viu do acidente entre Senna e Prost?

Não deu pra ver muita coisa porque, logo após o toque, os dois saíram da pista. De dentro, não deu pra ver de quem era a curva. A melhor imagem é mesmo a da transmissão da TV.

Qual a chance de uma nova dobradinha brasileira nos próximos anos?

Não tenho bola de cristal, mas posso dizer que a formação do piloto mudou muito em relação à minha época. Hoje eles queimam etapas e querem guiar logo um carro com asa e potência para chegar às principais categorias rapidamente. Eles esquecem quantos anos o Senna andou de kart, que ele fez um ano inteiro de Fórmula Ford, com pneu de rua e sem asa. Eu acredito os brasileiros possam se destacar, mas a tendência é que não, por conta desse cenário.


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