Todos na F1 reprovam o ato da Ferrari

Na F1, a reprovação foi geral e unânime à decisão da direção da Ferrari de ordenar que Rubens Barrichello deixasse Michael Schumacher ultrapassá-lo para vencer o GP da Áustria. As interpretações vão desde "atentado ao esporte" à "perda de credibilidade do negócio Fórmula 1."O inglês Patrick Head, diretor-técnico e sócio da Williams, afirmou: "Foi um escândalo. O que aconteceu aqui envergonha a Fórmula 1. A Ferrari tem um carro vencedor, pode e deve deixar seus pilotos disputarem o campeonato." Head lembrou que sua equipe e a McLaren também já tiveram modelos com desempenho tão ou mais superior que o atual dos italianos. "Nós, no entanto, sempre autorizamos que nossos pilotos definissem quem seria o campeão", garantiu. O dirigente, que foi um das muitas pessoas que foi para baixo do pódio para vaiar a cerimônia, parecia irritado: "Essa situação é nojenta e cínica."O ex-piloto Gerhard Berger, hoje diretor-esportivo da BMW, pediu que não acusassem Barrichello ou Schumacher. "Foi o time que tomou uma decisão errada. Eles contam com uma vantagem técnica tão grande, sabem que não correm riscos de perder o campeonato, por isso não faz sentido agir assim." Quando a Fórmula 1 passa por uma situação como a deste domingo, diz Berger, em que dois pilotos não sabem que degrau se posicionar no pódio, é "porque há algo de errado". E ele ainda solicitou: "A FIA deve analisar o ocorrido. Tenho certeza que o farão." Jacques Villeneuve, da BAR, questionou Schumacher: "Ele fez aquela cena toda no pódio, para Rubens ocupar seu lugar. Por que então não deixou ele vencer? Mesmo desobedecendo às ordens da equipe, ninguém lá o contestaria". O piloto canadense disse mais: "A Ferrari sabe que será campeã, não precisa passar por isso." Seu ex-empresário, ainda sócio da BAR, Craig Pollock, afirmou: "Foi a corrida mais nojenta que assisti na minha vida." Já Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren, com a calma de sempre, falou: "Estou surpreso com a surpresa de todos. A Ferrari sempre agiu assim, contra os interesses do esporte, e continuará da mesma forma." Segundo o dirigente da McLaren, o grave na decisão deste domingo é que todos vão ter de pagar as conseqüências do ato da Ferrari, "pelo ataque à credibilidade de uma instituição (Fórmula 1) em crise." Mas reconheceu: "Eles agiram dentro das regras. Não há nada, do ponto de vista legal, que possam ser acusados."A posição do diretor-técnico da BMW, o respeitado engenheiro Werner Laurenz, responsável pelo melhor motor da Fórmula 1 na atualidade, foi incisivo: "Eu espero uma reação da FIA, a mais alta autoridade desse esporte." Para ele, a decisão da Ferrari foi completamente equivocada, "para a equipe, Michael Schumacher e a Fórmula 1."Flávio Briatore, diretor da Renault, também defendeu "alterações urgentes" das regras do jogo. "Nós na Benetton, na época do próprio Michael conosco, fomos punidos exemplarmente por bem menos", lembrou o dirigente.O finlandês Mika Salo, hoje piloto da Toyota, experimentou em 1999 sensação semelhante à de Barrichello neste domingo, quando substituía Schumacher na Ferrari, que havia se acidentado na Inglaterra. "Eu dominei o GP da Alemanha e me mandaram deixar o Eddie Irvine (o outro piloto da Ferrari) passar para vencer." Mas Salo disse reconhecer que àquela altura do Mundial, com Schumacher fora, fazia sentido agir assim. "Hoje foi ridículo. O momento é bem distinto do de 1999. A Ferrari tem o melhor carro e será campeã, eles não precisam." O fotógrafo alemão Arthur Thill, da ATP, contou o que ouviu Ralf Schumacher, da Williams, dizer ao irmão, assim que ambos estacionaram seus carros no parque fechado, depois do fim da corrida. "Você está louco?" Gary Andersson, diretor da Jordan, resumiu bem toda a situação do GP da Áustria. "Schumacher ultrapassou Barrichello a poucos metros da linha de chegada, autorizado, sendo que o brasileiro havia sido o mais veloz na sexta-feira, na classificação e liderara as 71 voltas da prova sem ser incomodado por ninguém." Não é tudo: "Ninguém mais representativo do que ele para ficar com a vitória. O comportamento de Schumacher só o enfraquece diante da opinião pública."

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