Andrej isakovic/AFP
Sebastian Vettel é cercado por fãs na chegada ao autódromo de Monza Andrej isakovic/AFP

Troca de donos e de mentalidade deixam a Fórmula 1 mais 'humana'

Agora controlada por americanos, categoria abre mão do tradicionalismo e investe na interação com os torcedores

Ciro Campos, Felipe Rosa Mendes, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2017 | 17h00

A tradicional e europeia Fórmula 1, quem diria, aos poucos se torna mais americana e inovadora. A compra da categoria no fim do ano passado pelo grupo Liberty Media, dos Estados Unidos, pelo equivalente a R$ 27 bilhões começa a mostrar diferenças principalmente em um âmbito pouco explorado anteriormente: a interação com os fãs ao redor do mundo.

O GP da Itália, neste domingo, em Monza, será a grande oportunidade de a nova visão dos donos ficar mais aparente. A fanática torcida da Ferrari vai lotar o autódromo para apoiar Sebastian Vettel, ocasião propícia para os novos donos continuarem o trabalho de aproximação entre o circo da Fórmula 1 e o público.

A saída do antigo chefe da categoria, Bernie Ecclestone, pela entrada de uma empresa americana da área de comunicação tem apresentado diferenças na gestão da categoria.

Os novos donos trazem principalmente um viés americano de lidar com o esporte, mais voltado à transformação da disputa como espetáculo e entretenimento. As redes sociais da categoria começaram neste ano a exibir vídeos, por exemplo.

O grande momento desse processo teve início no GP da Espanha, a primeira etapa europeia do calendário. Os organizadores montaram um espaço para o público com simuladores e tirolesa. Na mesma prova, um garoto francês de seis anos chorou ao ver Kimi Raikkonen sair da prova. O departamento de marketing realizou logo depois um encontro entre fã e piloto, filmado na transmissão.

Em julho, em Londres, a Fórmula 1 levou ao centro da cidade cerca de 100 mil pessoas para uma exibição dos carros do grid, junto com modelos antigos da categoria. "A mudança é trazer o lado humano para perto da torcida, que é o jeitão americano de fazer. Eles querem promover o lado humano, que sempre ficou ofuscado", afirmou Luciano Burti, comentarista e ex-piloto.

A TV Globo, emissora oficial da Fórmula 1, afirmou ter registrado neste ano em São Paulo dez pontos da média parcial de audiência das corridas, a maior dos últimos cinco anos. Estudos contratados pelo canal mostram que a categoria é o esporte que mais cresceu nas mídias sociais em 2017.

Por outro lado, o promotor do GP do Brasil, Tamas Rohonyi, vê com cautela essas mudanças. "Ainda não acho que eles entenderam a complexidade do negócio. A Fórmula 1 é extremamente complicada e resistente a mudanças. Não veremos grandes alterações na forma de disputa", disse.

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Análise: 'A Fórmula 1 vai ganhar no lado humano'

Ex-piloto Luciano Burti crê em alteração na relação entre os pilotos da categoria com os fãs

Luciano Burti, Especial para o Estado*

02 de setembro de 2017 | 17h00

Ainda é cedo para falar de resultados destas mudanças na Fórmula 1. Ainda estão em processo de conhecer melhor o esporte, conhecer o produto para depois promover as mudanças. Na TV, já deram uma mudada naquele jeitão que era mais travado da transmissão, que só mostrava carro de corrida. Estão mostrando cada vez mais as arquibancadas, o público. 

Eles têm tentado trazer os pilotos para perto do público. Depois que descem do pódio, eles vão até o meio da pista para dar entrevista, diante da arquibancada. Esse primeiro contato, que é trazer o lado humano mais para perto de quem está torcendo, já é uma mudança. Não foram muitas coisas ainda que aconteceram, mas para o ano que vem deve ter mais coisas novas. A F-1 era muito fechada para este mundo novo, da internet, mundo digital. O Bernie (Ecclestone, antigo dono) sempre foi contra. Só olhava o lado comercial. E para ele a internet não era comercial. As mudanças maiores devem vir para 2018.

Acho que a mudança é trazer o lado humano para perto da torcida, que é o jeitão americano de fazer. As entrevistas mais perto do público é uma forma de dar satisfação à torcida. Eles querem promover o lado humano, que sempre ficou ofuscado na F-1. Antigamente acabava a corrida, os pilotos estouravam o champanhe e iam para a sala de imprensa. Hoje os pilotos falam sobre a corrida, sobre o que estão sentindo. A pegada é por aí, as ações ainda não estão aparecendo. Mas a mudança principal é aproximar o público dos pilotos, visando este lado humano, que a F-1 perdeu faz muito tempo.

Esse jeitão americano pode promover muito mais o show do que a corrida em si. O americano faz o negócio ser um show, mais aberto. E não investe tanto na parte técnica. A F-1 se vendeu para as montadores como um berço de novas tecnologias, de segurança e desempenho. O americano foi para o lado do show, o europeu foi para o lado técnico. Acho que a F-1 não vai perder esse DNA. Vão tentar melhorar o lado do show, mas não vejo a F-1 se tornar uma categoria americana. A parte técnica sempre vai ser o DNA, diferente do automobilismo americano.

*Ex-piloto de Fórmula 1 e comentarista da TV Globo

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'A Fórmula 1 precisa se aproximar do público', diz especialista

Para professora da ESPM, entrada de grupo americano no ambiente da categoria será benéfica e vai atrair o público jovem

Entrevista com

Clarisse Setyon, professora de marketing esportivo da ESPM

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2017 | 17h00

A professora de marketing esportivo da ESPM, Clarisse Setyon, considera benéfica a entrada do grupo americano no comando da Fórmula 1. Na opinião da especialista, os novos donos da categoria podem aperfeiçoar a relação da modalidade com o público, que ainda é muito fria e distante. Confira os principais trechos da entrevista ao Estado:

Os americanos podem ser considerados a nação que sabe melhor transformar o esporte em espetáculo?

Com certeza. Eles são os donos de Hollywood, sabem fazer espetáculo, realmente entendem o que é entretenimento. São bons em finanças, sabem obter retorno. Em termos de entretenimento ninguém bate os americanos.

Quais outros esportes eles transformaram?

Eu acho que os dois grande exemplos são a NBA, que é um dos maiores espetáculos esportivos do planeta, um show midiático para os jogadores, com fogos de artíficio. Eles sabem concentrar na quadra coisas espetaculares. Se você ver o crescimento da NBA nos últimos anos é inacreditável, eles têm um grande trabalho comercial. O outro exemplo é a Fórmula Indy, uma categoria totalmente diferente da Fórmula 1, por ser aberta, onde as famílias dos pilotos se encontram, os fãs têm contato com os ídolos e os carros, ou seja, é um entretenimento, uma experiência para os fãs. Já a Fórmula 1, a impressão que dá que ela é quase um castigo, porque o cara tem que sofrer para conseguir um ingresso, se colocar lá na arquibancada, para assistir a corrida e a experiência em si é muito rasa. NBA e Indy satisfazem os fãs. O americano tem noção da importância da mídia.

A Fórmula 1 precisa investir mais em redes sociais?

O Bernie Ecclestone (antigo dono da categoria) é um senhor de 86 anos, não é um cara dessa mídia de hoje. Se a Fórmula 1 quiser sobreviver, quiser conquistar um público mais jovem, vai ter que falar com os canais de mídia mais jovem, e os americanos sabem bem disso. Na minha opinião a Fórmula 1 ainda vive dos fãs do Ayrton Senna e do Emerson Fittipaldi. As pessoas na faixa etária dos 20 anos mal sabem quem foi o Senna.

De que forma a Fórmula 1 pode mudar?

O primeiro é democratizar, dar o direito à palavra para todo mundo, fazer a categoria mais competitiva e equilibrada, o americano é muito ligado ao tema de retorno sobre investimento e parece que há uma tendência para se gastar menos dinheiro, vai abrir mais oportunidades para o público se aproximar dos carros e a relação com a mídia. Quem correu em outras categorias, sente falta do clima de família.

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