Turquia recebe a F-1 de olho na UE

Tudo começou com a iniciativa do presidente da pouco expressiva Federação Turca de Automobilismo (FTA), Mumtaz Tahincioglu, de inserir o país no calendário da Fórmula 1, há 7 anos. O que talvez nem ele mesmo esperasse era a acolhida que o seu projeto teria dentro do próprio governo. Uma vez que Istambul acabou preterida como sede dos Jogos Olímpicos, a Fórmula 1 seria outra excelente oportunidade de a nação demonstrar a validade de ser aceita na União Européia, grande sonho dos seus governantes.Não é por idealismo do primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan ou do presidente da Câmara Turca de Comércio, Murat Yalcintas, responsáveis pelo financiamento da obra, que foram investidos US$ 120 milhões na construção do Istambul Park, o belíssimo autódromo que hoje recebe a Fórmula 1. A inclusão do país no Mundial faz parte de um plano mais abrangente, bem mais importante que apenas oferecer lazer aos 120 mil torcedores que neste domingo lotarão as arquibancadas, mesmo porque o salário mínimo de um trabalhador, na Turquia, recebido pela maioria, é de US$ 300, enquanto o ingresso mais barato para os três dias de competição é de US$ 100.Já dia 3 de outubro políticos turcos e parlamentares da UE recomeçam o diálogo para tentar viabilizar o negócio, interrompido há meses. Há resistência dos países da EU, sob os mais distintos argumentos, que vão do desrespeito aos direitos humanos ao não reconhecimento de religiões como, por exemplo, o catolicismo, ainda que haja liberdade de culto.Outro gesto de desprendimento dos turcos, nesse sentido, foi o recente convite para o papa Bento XVI visitar o país. E melhor: Bento XVI aceitou. A visita deve ocorrer até o fim do ano.Não é também por acaso que os cartazes espalhados por Istambul, chamando para a prova deste domingo, dizem: "Uma volta pela pista, dois continentes." A Turquia deseja reforçar sua importância estratégica no mundo geopolítico, lembrar os europeus que o estreito de Bosfóro, no centro de Istambul, divide a Europa da Ásia. A escolha da região do circuito, próxima a Bursa, atende da mesma forma os interesses de o governo expor melhor aos europeus que a Turquia tem uma economia já bastante ativa. É lá onde se encontram as fábricas da Renault, Toyota, Ford, Fiat, Peugeot e Hyundai, concorrentes num mercado de meio milhão de veículos comercializados por ano.Os alemães aceitam a Turquia apenas na Comunidade Européia (CE), o que a permitiria entrar com seus produtos no continente, mas sem participação no Parlamento Europeu, já que com 80 milhões de habitantes os turcos teriam muitas cadeiras e grande poder de decisão.Não consciente de tudo o que cerca a chegada da Fórmula 1 à nação, o motorista de táxi Ahmet Mehmet diz ser torcedor da Ferrari. Desconhece o nome dos pilotos. Cobrou 70 euros para deslocar-se do centro de Istambul para o autódromo, distante cerca de 60 quilômetros, incluídos aí as 3 liras turcas (1,6 lira equivale a 1 euro) para cruzar a imponente ponte sobre o estreito de Bósforo. Disse ter visto na TV a propaganda dos carros da Ferrari. O que viu, na realidade, foi o lançamento de um show room já providenciado pela empresa italiana para os interessados em adquirir seus requintados e míticos automóveis, de série bastante limitada.Mehmet reclama do preco da gasolina, estonteantes 1,6 euro por litro. E pensar que o vizinho Iraque - os dois países fazem fronteira - é um dos maiores produtores mundiais de petróleo. A Turquia ainda o importa. Dizem existir muito no seu território. Apenas não foi encontrado. Seja lá quem for o piloto que vencer o I GP da Turquia de Fórmula 1, estará auxiliando a simpática nação a atingir seus objetivos políticos e econômicos. E, com isso, quem sabe um dia Mehmet tenha mais condições de gastar US$ 100 para comprar um ingresso a fim de assistir à corrida. "Desculpe, não tenho convites", responde o repórter a Mehmet.

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