Mark Thompson/Getty Images/AFP
Mark Thompson/Getty Images/AFP

Um piloto com todas as qualidades dos grandes campeões

Há grandes campeões que têm uma, duas ou três dessas qualidades como marca de suas carreiras. Hamilton tem todas elas, absolutamente todas essas qualidades

Reginaldo Leme*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h30

Comecei a conhecer Hamilton quando ele disputava a GP2 em 2006, com Nelsinho Piquet, e nós, brasileiros, o chamávamos de Robinho. Era o auge da carreira do atacante da seleção brasileira, e o inglês parecia até gostar daquilo. Ele ganhou o campeonato com cinco vitórias contra quatro de Nelsinho, e à noite fomos a um bar-restaurante em Milão, onde os pilotos de F-1 se reuniam para comemorar o fim da temporada europeia após a corrida de Monza. E ele, com contrato assinado para estrear na F-1 no ano seguinte, cabelinho bem curto, cabeça quase raspada mesmo, nenhuma tatuagem visível e uma indisfarçável timidez, já se mostrava bem à vontade no meio dos futuros rivais.

 

No ano seguinte, eu entendi toda aquela autoconfiança. Ao dividir os cockpits da McLaren com um bicampeão como Fernando Alonso, já então tido como um dos melhores do mundo e dono do segundo maior salário (só perdia para Schumacher), Hamilton não teve o comportamento de estreante que todos esperavam. Alonso havia escolhido a McLaren por acreditar que seria o lugar certo para coroar a sua carreira com um tricampeonato. O companheiro de equipe era um inglês de 22 anos, muito talentoso, mas um estreante que, se fosse um ser normal, entenderia aquela temporada como a de aprendizado ao lado de um supercampeão.

Mas ali não estava uma pessoa comum. E, muito menos, um piloto comum. A sequência da história todos conhecem. Ele bateu de frente com Alonso e, antes da metade do campeonato, já não havia clima para eles continuarem convivendo. Como resultado dessa briga interna, o melhor carro do ano não ganhou o campeonato, que acabou caindo no colo de Kimi Raikkonen (Ferrari). Os dois nunca foram amigos. Mas o respeito profissional superava qualquer desavença. Alguns anos depois, quando Hamilton disputava o título com Sebastian Vettel, da Red  Bull, eu entrevistei Alonso e ele disse claramente que o único adversário que merecia o seu respeito era justamente Hamilton.  

A vida seguiu. E a sorte deu um sinal de que também estava do lado de Hamilton. Ele surpreendeu o mundo ao trocar a McLaren por uma Mercedes, que estava na F-1 havia três anos e somava apenas uma vitória isolada de Nico Rosberg em 2012, e o resultado é aquele que se vê hoje: 83 vitórias, 87 poles, 3.381 pontos e um tempo enorme ainda pela frente para alcançar, sem dificuldade, as 91 vitórias de Schumacher e, quem sabe, igualar também os sete títulos. 

Mas já nem precisa disso para confirmar a posição de melhor da história. Vamos imaginar as melhores qualidades que um piloto pode ter. Estamos falando de habilidade, coragem, concentração, destreza, bravura, superação, saber negociar uma ultrapassagem, etc... 

Há grandes campeões que têm uma, duas ou três dessas qualidades como marca de suas carreiras. Hamilton tem todas elas, absolutamente todas essas qualidades, no mínimo no mesmo nível dos outros. Em algumas, está acima. Por isso eu venho dizendo, e não é de hoje, que ele será o melhor da história. Hamilton tem a inteligência de Piquet, é veloz e impetuoso como Senna, calculista como Schumacher e aprendeu a minimizar riscos, como Prost. O resultado disso nas pistas é que ele vence uma corrida em cada três. Pode existir um piloto mais completo?

*Comentarista da TV Globo há 42 anos. Foi colunista do Estadão durante 20 anos

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