Vitória de Danica quebra a barreira das mulheres que pilotam

'Vencer é como encontrar algo que você ama, depois de tanto procurar por ele', diz, campeã na Fórmula Indy

Dave Caldwell, The New York Times

21 de abril de 2008 | 13h07

Quando uma estreante de 23 anos chamada Danica Patrick tornou-se a primeira mulher a liderar as 500 milhas de Indianápolis, três anos atrás, ela abriu um fascinante leque de possibilidades sobre o domínio masculino naquele esporte americano, onde um homem e uma mulher competem em condições iguais. Esta mulher, então, criou uma expectativa sobre quando seria a primeira vez que chegaria à linha da vitória.Veja também: Danica Patrick entra para a história e vence na Fórmula Indy Danica Patrick no Japão e no ensaio sensual Classificação Conheça os pilotos e as equipes da temporada 2008 Confira o calendário e o sistema de pontuaçãoPatrick terminou em quarto lugar naquela corrida, mas imediatamente tornou-se um fenômeno. Empresas brigaram para associá-la às suas campanhas de marketing pela sua ótima imagem e bebês começaram a sair das maternidades com o nome Danica. Mas aquela celebridade sempre carregava essa questão: quando ela vai vencer? Esta questão e outras acabaram agora. Neste domingo, ela ganhou.Danica, agora com 26 anos, venceu as 300 milhas de Motegi, Japão, na Fórmula Indy, apenas seis segundos à frente de Hélio Castroneves, duas vezes vencedor das 500 milhas de Indianápolis. "Eu sinto um jeito mais leve de ver a vida, mas agora tenho uma grande responsabilidade", Patrick disse no domingo à noite em uma entrevista por telefone, de Los Angeles., onde ela estava parada para uma troca de vôo vinda do Japão. "O que sinto vai além da disputa de corrida. Isto é como encontrar algo que você ama, depois de tanto procurar por ele". Além de agradecer, Danica disse que foi incapaz de dizer mais elogios à sua equipe pela emoção do momento. Voltando a Los Angeles, ela se estava aliviada emocionalmente por ter terminado o longo caminho a uma vitória. "Estou satisfeita por não ter mais que responder nunca mais a estas questões [sobre quando iria ganhar]", ela diz. "Sempre foi muito duro responder, porque eu acreditava em mim mesma. Eu não imaginava que ficaria tão feliz com a vitória."Houve um momento na história em que, talvez, Danica não tivesse tido a chance de disputar a corrida de domingo. Muitos anos antes, Janet Guthrie, uma engenheira espacial e piloto de carros de corrida, se tornou a primeira mulher a se classificar para as 500 milhas de Indianápolis em 1977. Até aquele momento, não existiam mulheres na área de imprensa, nos boxes ou nos pits.Guthrie escreveu em 'A Life at Full Throttle' ('Vivendo em alta velocidade', numa tradução livre, sem edição no Brasil) que em toda sua carreira como piloto, as corredoras mulheres eram marginalizadas e consideradas lentas, complicadas e instáveis emocionalmente para competir com homens. Fora que, para muitas famílias, as corridas eram vistas como algo perigoso."Uma mulher podia ser repórter, uma fotógrafa, marcadora de tempo, mas não poderia disputar corridas - mas ela não poderia entrar nisso em momento algum por não estar à altura", escreveu Guthrie. "Uma mulher nas corridas era algo impensável." No domingo, Guthrie mostrou pouca surpresa com a vitória de Danica. "Qualquer um que nunca a viu vai dizer que ela teve a chance de vencer porque ninguém estava prestando atenção", diz Guthrie, 70, numa entrevista por telefone de sua casa, em Aspen, Colorado (EUA). "Ela se preparou por um longo período. Era apenas uma questão de tempo, isso eu sempre disse". Guthrie continuou dizendo, "eu estou absolutamente esperançosa de que esse feito vai acabar com o resto dos pessimistas". Para Danica, o coro dos pessimistas tinha aumentado com a demora para na conquista da primeira vitória. Anos atrás, quando procurava uma equipe forte, Danica entrou na equipe que tinha como sócios o apresentador de TV David Letterman e o ex-piloto Michael Andretti, que tinha como piloto seu filho Mário. Michael acreditava que a pequena Danica, cerca de 1,60 m de altura e 45 quilos, tinha sede e desejo para vencer regularmente. Ele providenciou um poderoso carro de corridas e uma equipe experiente para ajudá-la a chegar à vitória a corrida deste domingo.Quando Patrick apareceu nas corridas há três anos, ela trouxe consigo um extensivo retrospecto de corridas. Seu pai é um piloto que a colocou nas corridas para quando jovem, com 16, quando ela se mudou para a Europa, para competir.Em 2005, a combinação de promessas de correr mais a capitalização de sua beleza - sua biografia no Guia de Imprensa da Indy de 2008 tem uma foto sua de biquíni - deixaram claro o forte marketing que lhe cerca. Desde que se tornou piloto oficial em 2006, o merchandising de Danica vendeu muito mais que o de qualquer outro piloto, 10 para 1. A Indy fez com que o nome Danica saltasse de 610.º para 352.º na lista dos mais populares entre os bebês desde 2005. Ela tem um patrocínio de Super Bowl neste ano, o Godaddy.com (empresa que vende domínios de internet). As expectativas em torno de si cresceram. Depois que passou com seu carro pela linha da vitória, ela disse nas entrevistas que não estava pronta para falar porque "isto era uma indicação de quão importante era isso em sua cabeça - quão longo tem sido esperar deste o começo em minha carreira na Indy". Patrick contou que a equipe pediu para economizar combustível desde a primeira volta da corrida de domingo. Os outros três pilotos que estavam na frente tiveram de parar para reabastecer faltando 10 das 200 voltas da corrida, e ela saltou para o segundo lugar, atrás de Castroneves.Castroneves não tinha muito combustível para acabar a corrida desde sua última parada, sendo por isso conservador em seu desempenho. Patrick, que perdeu as 500 milhas de Indianápolis em 2005 porque não tinha combustível suficiente, pisou fundo nas duas voltas restantes e venceu com estilo."Temos de reconhecer o talento de Danica, ela fez um grande trabalho" disse Castoneves na entrevista pró-corrida. "Ela me passou rápido e forte. Eu não tinha muito combustível, ainda tinha que chegar, não dava para lutar com ela." No próximo mês, ela retorna a Indianápolis, e a corrida deste ano já é esperada com muita ansiedade após a fusão com a Champ Car, a outra categoria fórmula nos EUA."Eu considero Danica uma pessoa fantástica e eu estou excitado com o fato dela ter tirado esse peso das costas", disse Andretti após a corrida. "Nos acreditamos muito nela, e ela provou hoje que é uma vencedora. Francamente, eu espero que esta seja a primeira de muitas."A outra mulher que pilota na Indy, Sarah Fisher, 27, tem sua própria equipe na categoria. Ela não correu neste domingo no Japão mas tem esperança de estar em Indianápolis e outras corridas. Sarah diz que o triunfo de Danica é um dia memorável não só para os pilotos e para a os torcedores da categoria fórmula, como para as mulheres."O dia de hoje marca a celebração de todos os que tem trabalhado para quebrar barreiras em que as mulheres tem de travar batalhas contra o domínio dos homens", disse. "A vitória feminina numa categoria fórmula é mais uma etapa do que Janet Guthrie começou." (tradução de Milton Pazzi Jr.)

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