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Conheça o vovô veloz que ganha provas de kart depois dos 70 anos

Engenheiro José Miguel Noronha Sacramento, de 71 anos, não perde sua paixão de seis décadas pelo automobilismo 

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2022 | 05h00
Atualizado 30 de junho de 2022 | 14h33

Para ser um bom piloto de automóvel é preciso ter coragem, reflexos e uma boa saúde. José Miguel Noronha Sacramento, aos 71 anos, tem tudo isso e prova sua condição nas corridas de kart que vence garotos de até 15 anos, que poderiam ser seus netos.

Mas a história deste doutor pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (USP), especialista em Administração de Empresas pela EAESP da Fundação Getúlio Vargas e engenheiro mecânico pela Escola Politécnica da USP começou no kart há seis décadas, sempre como hobby, mas que lhe permitiu ter amizade com Ayrton Senna e Nelson Piquet

Fã do escocês Jim Clark e de Emerson Fittipaldi, Miguel começou no kart em 1965, quando ia ver as competições que aconteciam em volta do prédio da Bienal. “Eu ia de ônibus até Interlagos e andava a pé pela pista, imaginando pilotar os carros”, disse o apaixonado pela engenharia dos automóveis, que comprou seu primeiro kart em 1972. Com o dinheiro curto (era estagiário), a forma encontrada para seguir na cara modalidade foi montar e preparar o motor dentro de casa.

Em 1975, disputou o Campeonato Paulista, de 11 provas. Fez 11 poles. “Eu era fanático por tomada de tempos.” No ano seguinte, com US$ 10 mil, comprou o motor usado pelo italiano Ricardo Patrese na conquista do mundial de Kart, em Estoril, Portugal. “Torrava tudo que tinha no kartismo." 

Com esse motor, teve uma bela disputa com Ayrton Senna, diz, e chegou a tocar rodas no kartódromo de Interlagos com o futuro tricampeão da F-1. Fez amizade com o “campineiro”, apelido que Senna tinha por treinar em Campinas. “Ele era Beco para a família, mas nunca teve este apelido no kart”, disse Miguel. “Tivemos uma boa relação a ponto de ele vir conversar comigo sobre o vice mundial no kart."

Em 1978, Miguel parou com o kart, mas continuou a acompanhar o automobilismo. Até que em 1991, foi trabalhar na empresa de roupas Pakalolo, onde um dos sócios era apaixonado pelos carrinhos. Criou-se então a ideia de se fazer uma competição da modalidade. Foi quando nasceu a Fórmula Pakalolo.

“Voltei a ver corridas de kart, mas fiquei desanimado com o panorama de 30 pilotos em todas as categorias. Só alguns privilegiados participavam e ganhavam as provas”, lembrou Miguel, que se filiou a parceiros e, com a intenção de revelar talentos, criou uma competição na qual os motores duravam a temporada toda e tinham manutenção grátis, com taxa de compressão mais baixa para não dar desgaste, além de poder ser comprado em dez vezes. “Fizemos até um pneu que durava o ano todo. A Pakalolo dava combustível e pagava as taxas para a federação de automobilismo. Subiu para 200 o número de participantes.”

Com essa organização, pilotos como Gastão Fráguas, Rubens Carrapatoso (ambos campeões mundiais de kart), Luciano Burti, Felipe Massa, Nelsinho Piquet, Bia Figueiredo, Tony Kanaan surgiram e fizeram história. O Fórmula Pakalolo despertou o interesse de Nelson Piquet, em 1994, para levar a competição para Brasília. “O nome Pakalolo estava sempre presente e os pilotos falavam que corriam de Pakalolo. Marketing tupiniquim intensivo e eficiente”, lembrou, orgulhoso.

Três décadas depois, Miguel voltou a competir no kart e mostrou que a paixão por um esporte pode superar as dificuldades que a idade pode acarretar. “Fui campeão no ano passado e lidero o campeonato atual. A categoria é dividida acima de 35 anos e acima de 50. Já fui pole e venci na geral algumas vezes. Em outros campeonatos, enfrentei e venci garotos de 15 e 16 anos”, afirmou o também professor da Fundação Getúlio Vargas.

Miguel não pretende parar por aí. Sua ideia é continuar na ativa sempre na busca de manter vivo o objetivo do kartismo, que é o de dar oportunidade a todos para iniciarem no automobilismo. “Eu estou ajudando os administradores do kartódromo de Interlagos a organizar torneios em novos moldes. Com certeza, estarei presente (mesmo que parcialmente) na organização quando forem lançados."

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