Williams e McLaren: bons exemplos

Quando Patrick Head, da Williams, e Ron Dennis, da McLaren, afirmaram, domingo, depois da incompreensível decisão da Ferrari, que suas equipes nunca interferiram na competição entre os seus pilotos, não estavam mentindo. Em oposição à política da Ferrari, desgastante para toda a Fórmula 1, ainda mais danosa num momento de crise financeira como o atual, Williams e McLaren permitiram, mais de uma vez cada, quando também tinham o melhor carro da temporada, que seus pilotos disputassem entre si o título. Em 1986, Nelson Piquet e Nigel Mansell pilotavam para a Williams. Ambos tinham um adversário difícil, Alain Prost, da McLaren. Frank Williams e Patrick Head não estabeleceram ordens de equipe e tanto Mansell quanto Piquet, além de Prost, apresentaram-se para a última etapa do Mundial, em Adelaide, na Austrália, com chances de serem campeões. Os pilotos da Williams tentaram disputar a corrida toda, 82 voltas, sem substituir os novos pneus que a Goodyear havia produzido.Não deu certo. Prost, mais precavido, planejou um pit stop e acabou vencendo não só a corrida como o campeonato, apesar de suas possibilidades matemáticas serem menores que as de Mansell e Piquet. Frank Williams e Patrick Head pagaram caro a política de não interferir na disputa de seus pilotos. Desgostosa com a perda do Mundial, seria o seu primeiro, a Honda deixou a Williams no fim de 1987 e passou para a sua concorrente, a McLaren, onde fez enorme sucesso. Mas em 1987 a Honda ainda trabalhou com a Williams. E de novo a direção da equipe permitiu que Mansell e Piquet decidissem na pista quem seria o campeão. Naquela temporada eles tinham o melhor conjunto da Fórmula 1. Deu Piquet. Em 1988 e 1989, a associação McLaren-Honda não ofereceu chances a seus adversários. Dominou as duas temporadas, com Ayrton Senna e Alain Prost. Cada um ficou com um título. Senna em 1988 e Prost, em 1989. Mas até as duas últimas corridas os dois mantiveram de pé o interesse dos fãs da Fórmula 1, pelas acirradas disputas que travavam nos circuitos. Dennis não estabeleceu também ordens de equipe. A Williams voltou a mostrar que nas situações em que não existe um time em condições técnicas de superá-la, como em 1996, que não há razão para intervir na definição de quem será o campeão. Jacques Villeneuve e Damon Hill, a dupla da Williams, estendeu a disputa do Mundial até o GP do Japão, o último do ano. Hill, mais experiente, venceu. Aquele era o primeiro ano de Villeneuve na Fórmula 1 depois de ser campeão na Fórmula Indy, em 1995. Mais recentemente a McLaren deu nova mostra de que é, por vezes, mais sadio para os investidores da equipe uma imagem polida do esporte que uma eventual vitória. No GP da Bélgica de 1999, Mika Hakkinen lutava pelo título bem mais de perto com Michael Schumacher, da Ferrari, que David Coulthard, ambos da McLaren. Surpreendentemente, Dennis não interveio na disputa, ordenando que Coulthard, primeiro colocado, deixasse Hakkinen, segundo, passá-lo para vencer a prova de Spa-Francorchamps. Hakkinen reclamou da política da McLaren na entrevista depois da corrida. Na etapa final daquele ano, os quatro pontos que Hakkinen deixou de somar por ser segundo e não primeiro quase lhe custam a vitória final. Eddie Irvine, da Ferrari, obteve no total 74 pontos diante de 76 do finlandês. Essas situações não são muito distintas da experimentada hoje pela Ferrari. O modelo F2002 está invicto desde a estréia no GP do Brasil. Foram quatro vitórias seguidas: Brasil, San Marino, Espanha e Áustria, todas com Schumacher. Os próprios pilotos da Williams, Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher, supostamente os maiores adversários da Ferrari, já afirmaram que contra um carro mais de um segundo mais veloz, não há o que se fazer. Apesar da enorme vantagem técnica, já na sexta etapa do campeonato a direção da Ferrari impôs ordens para que o primeiro piloto fosse favorecido. Depois de ver a reação da imprensa no mundo todo, hoje, com toda certeza os próprios patrocinadores da Ferrari gostariam que Rubens Barrichello tivesse vencido. Nunca uma vitória repercutiu tão negativamente para uma escuderia.

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