Arquivo/AE-26/07/2009
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'A gente não se cobra só na derrota', diz Giba

Jogador reclama do calendário, fala da derrota na final olímpica em 2008 e do plano de ser dirigente

Valéria Zukeran, O Estado de S. Paulo

18 de janeiro de 2010 | 12h17

Depois de quase nove anos fora do Brasil, Giba está de volta ao vôlei brasileiro. O retorno, porém, não ocorre exatamente como imaginou. O ponta foi anunciado como reforço do Pinheiros/Sky em setembro, em um pacote que incluiu outros atletas da vitoriosa seleção brasileira de Bernardinho e levou o grupo a ser chamado de galáctico.

A incorporação de Giba e Gustavo na reta final do Superpaulistão, no entanto, não foi suficiente para levar o grupo à decisão do título, que ficou com o Sesi.

Com o início da Superliga, em dezembro, a esperança era que o Pinheiros pudesse mostrar força após ganhar mais entrosamento. Até agora, porém, quem domina a competição é a Cimed, campeã de 2009. E o pior. Giba sentiu uma contusão no joelho e desde o dia 22 está em tratamento.

O jogador diz não ter uma previsão de retorno e culpa o calendário - que não permite férias aos atletas - pelos problemas físicos. Giba pretende encerrar a carreira após os Jogos Olímpicos de 2012 e tem vontade de se tornar dirigente.

Como está a recuperação?

A progressão é muito boa, muito grande. A cada semana a gente está evoluindo muito bem. É um trabalho full time.

Existe expectativa de retorno?

A gente (ele e os fisioterapeutas) combinou que não existe uma data estipulada. Fazemos relatório semanalmente da progressão para voltar justamente sem ter risco nenhum. E este ano é um ano importante, de Campeonato Mundial (em setembro), mas a minha cabeça, no momento, está 100% no Pinheiros. Preciso me recuperar para fazer uma boa Superliga. Tanto investimento que o Pinheiros e a Sky fizeram... Eu não me lembro de outro time que tenha feito contrato de dois ou três anos com os atletas. Então eu acho que esse investimento vai renovar um pouco o cenário brasileiro em termos de contrato.

Os dirigentes colocam que o projeto depende muito da performance coletiva. Afinal o grupo conta com outros jogadores experientes, como Gustavo e Rodrigão...

Não, de jeito nenhum. É uma cobrança minha. O Gustavo e o Rodrigão têm a cobrança deles e tenho certeza de que pensam como eu. É um projeto que tem tudo para dar certo, para continuar por muitos anos.

Há uma dúvida. Para boa parte dos atletas a pré-temporada é importante para dar uma referência do que ele poderá fazer no restante do ano. Você pensa no seu clube, mas imagino que o torcedor pense no Mundial.

A gente não tem pré-temporada. A gente não para o ano inteiro e é por isso que estou com esta lesão. Faz mais ou menos uns três anos que eu não paro. É complicado você não ter pré-temporada, como jogador de futebol.

Você não tem um mês de férias.

Mas não é só um mês de férias. É um mês de férias e um mês e meio de pré-temporada. Se você quer um mês de férias, na próxima semana você está jogando e, por isso, precisa se cuidar. Tem de treinar, fazer peso, correr. Então acaba acontecendo que as suas férias são férias ativas. O campeonato acaba dia 1º de maio e dia 27 você está jogando a Liga Mundial. Quando você descansa?

Você acha que talvez esse seja o motivo pelo qual alguns de seus colegas tenham parado, como aconteceu com o Gustavo?

O Gustavo parou por opção dele. Ele teve 12 anos de seleção e por uma opção familiar dele, resolveu parar. Ele teria condição de atuar, mas optou por parar. O André Nascimento a mesma coisa: ele resolveu ficar fora da Liga Mundial, depois ficou um pouco abaixo fisicamente e não conseguiu acompanhar. Teve a chance de voltar, mas a parte técnica... São coisas que o Bernardo é quem decide. Marcelo parou com a seleção, o Anderson parou, o André Heller parou. É uma opção de vida. Eu tinha a opção de parar depois da Olimpíada de 2008 e conversando com a minha esposa (a ex-jogadora de vôlei romena Cristina Pirv) a gente resolveu ir até o Mundial de 2010 e, mais tarde, vendo a parte física, decidi parar depois dos Jogos de 2012.

Sacrifica a família, não?

Meus filhos vão começar a me chamar de tio (risos). Mas o mais importante é o equilíbrio do casal. Por ela ter jogado em alto nível, sabe como funciona.

Quando as contratações no Pinheiros foram anunciadas havia a expectativa de que o time chegasse à final do Estadual?

A expectativa foi criada por nomes - o Gustavo oito anos fora, eu oito anos fora, o Rodrigão seis anos fora, o Marcelinho jogou muito tempo fora e no ano passado aconteceu o que aconteceu - quatro titulares da seleção da Olimpíada. Enfim, todo mundo tinha esta expectativa. Os meninos que começaram a jogar hoje, eles nunca me viram jogar com a camisa do clube. Tiago Alves, Bruninho, todos esses jogadores que hoje estão na faixa dos 22 anos tinham 16 quando eu saí, não jogavam Superliga. Depois entrou o conflito, da imprensa, de briga de gerações.

Como você vê o vôlei brasileiro atual? A procura por atletas altos mudou o vôlei nacional?

A procura por atletas altos sempre existiu. A única coisa é que os atletas altos estão se aprimorando cada vez mais. O estilo de jogo mudou - não era como a geração passada. A gente ganha em algumas coisas e perde em outras. Perde um pouco na velocidade, mas ganha na altura e na capacidade de bloqueio. E com bloqueio maior a gente defende mais. Uma coisa compensa a outra.

Você citou o choque de gerações. Como está sendo o encontro? Pode até ser que não exista briga, mas tem gente buscando espaço...

Briga é coisa da imprensa. Mas buscar espaço é lógico. Eu buscava espaço quando era jovem. Essa convivência partiu do momento em que os atletas que assumiram a seleção como titulares, como Lucas, Bruno, Visotto, mesmo o Murilo, que não eram titulares. Eles vêm de muitos anos treinando com a gente. Sabem o estilo de treino do Bernardo, o estilo de mentalidade dos atletas, a mentalidade vencedora, e como a gente leva as coisas.

Mas o estilo do Bernardo prevalece a troca de gerações ou a mudança faz com que apareça alguma característica diferente?

Durante oito anos a gente ganhou praticamente tudo. Neste tempo prevaleceu o que o grupo resolveu dentro de uma filosofia de trabalho que o Bernardo implantou. Não só o Bernardo - ele é o responsável, mas não faz nada sozinho. Tem uma comissão técnica que, para mim, é uma supercomissão. Assim como os jogadores, a comissão técnica também mudou, mas prevaleceu a eficiência de todos eles. A troca de gerações segue uma linha que está dando certo, então, para quê mudar? Hoje ficaram quatro jogadores - eu, o Rodrigão, o Sérgio, o Murilo - que a gente chama de ‘novo-velho’ - e, no ano que vem, o Dante. Esses jogadores já tinham uma certa mentalidade, um certo estilo de jogo, de liderança. E os outros jogadores, como já estavam treinando quatro, cinco anos com a gente, sabem como a coisa funciona e entraram nesse esquema.

Como vocês assimilaram o que aconteceu na Olimpíada, quando muita gente esperava o ouro e o time ficou com a prata?

Eu não tenho como derrota, mas como uma grande vitória. Eu lembro de um americano que jogou comigo na Olympikus em 1997, Brian Ivye. Ele disse que tinha 15 medalhas, uma de bronze olímpica e jogaria todas as outras fora, no lixo, por aquele bronze. É um pecado que o brasileiro pense nisso como derrota. É um pecado que a gente tenha acostumado o povo brasileiro a só ganhar.

Preocupa esse nível de cobrança.

Mas a gente se cobra sempre. Na vitória ou na derrota. A gente ganha e pensa: ‘Bem, poderia ter feito isso ou aquilo melhor. Se eu faço aquilo, o jogo fica mais fácil.’ Não é só na derrota que a gente se cobra, na vitória também, nas duas condições. E tem outra coisa: naquele ano (da Olimpíada) eu fissurei o osso do tornozelo, fiquei uns jogos fora por causa do ombro e quando voltei quase precisei operar; o Rodrigão, que estava em uma das melhores fases dele, rompeu o cruzado (do joelho); o Anderson torceu o pé antes das quartas de final. Com tudo isso e a gente chegou na final. Jogando como a gente jogou, foi uma vitória.

Está tranquilo quanto a isso, não?

Muito. Disputar duas Olimpíadas e dois Mundiais e ganhar três de quatro não é um porcentual baixo.

Quando você olha a geração de hoje jogando com a anterior, vê alguma evolução?

Eu acredito que já aprimorou. Eu tenho 1,93 metro de altura. Os rapazes têm 2 metros, 2,05 metros, 2,10 metros, e você vê jogadores rápidos, ágeis para a altura deles, com a gana, a vontade de ganhar que eles têm, eles estão sempre aprimorando. É o que eu disse antes: eles absorveram a nossa auto cobrança com 22, 23 anos. A gente chegou nessa consciência com 26.

Quais seleções no exterior podem ameaçar o Brasil?

Estados Unidos, Rússia, Cuba, Polônia, a própria Itália é um time a ser respeitado sempre. Bulgária, Sérvia. Acho que a Rússia e a Sérvia são os times que mais me preocupam.

Você disse que joga até 2012. Já deu para começar a pensar no que fazer, por exemplo, ser técnico?

Técnico nem sonho! Eu estou passando muito tempo em quadra, então prefiro muito mais pegar essa experiência e ficar fora, como dirigente.

Como dirigente, qual seria sua primeira providência? Disse que está três anos sem férias.

Na verdade estou 15 anos sem férias. Acho que a primeira coisa que eu faria é aprender como funcionam as coisas do lado de lá. Às vezes eu vejo o lado jogador, mas não vejo o lado político, patrocinador, televisivo. A primeira coisa, então é saber como funciona o trabalho de um dirigente, depois colocar em prática. Fazer o melhor do ponto de vista do jogador, sendo dirigente.

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