Domício Pinheiro/Estadão - 21/08/1984
Geração de prata deu início à época de glórias do vôlei do Brasil Domício Pinheiro/Estadão - 21/08/1984

A medalha de prata em 1984 virou ouro para o futuro do vôlei brasileiro

Brilhante campanha da seleção nos Jogos Olímpicos de Los Angeles completa 30 anos; trajetória mudou a história do esporte no País

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 07h00

Dois títulos olímpicos, três mundiais e nove conquistas da Liga Mundial da seleção brasileira masculina de vôlei colocam o País no topo do esporte. Na década de 2000, o  time do Brasil teve uma hegemonia poucas vezes vistas na história do esporte. Toda essa trajetória vitoriosa do Brasil teve um pontapé inicial. O caminho de glórias começou em 1984, há exatos 30 anos, com a incrível campanha brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, quando a prata conquistada se transformou  em ouro para a história do vôlei nacional.

A geração de prata, comandada por Renan, William, Bernard, Xandó, Amauri, Montanaro e Fernandão, inspirou garotos depois dos resultados obtidos no começo da década de 1980. Além da prata em Los Angeles, o time treinado por Bebeto de Freitas venceu o Mundialito do Rio, em 1982, além do Pan-Americano de Caracas  e do Sul-Americano, em 1983. Um ano antes, ficou com o vice-campeonato mundial na Argentina, depois de um terceiro lugar na Copa do Mundo disputada no Japão, em 1981.

Com o sucesso em quadra, os garotos do Brasil começaram a praticar o esporte e, oito anos depois, o País conquistou a tão esperada medalha de ouro, na  Olimpíada de Barcelona, em 1992, sob o comando do técnico José Roberto Guimarães. "A geração de prata foi fundamental. Ela marcou em episódio extremamente importante no vôlei no País. Eles abriram o caminho. Foi um marco de jogadores talentosos. O mundo começou a ver o Brasil de um jeito diferente", disse.

Para o técnico tricampeão olímpico (duas vezes com a seleção feminina, em 2008 e 2012), a prata em Los Angeles valeu ouro. "É uma escola que não se pode  abrir mão. Temos de agradecer as gerações anteriores por ensinar a atual geração", afirmou.

CAMPANHA

A derrota para a União Soviética na final do Mundial da Argentina no dia 15 de outubro de 1982 foi vingada depois nove meses depois. No dia 26 de julho de 1983, o Maracanã recebeu 94 mil torcedores para assistir à vitória por 3 sets a 1 sobre os rivais. O time soviético, no ano seguinte, não disputou os Jogos Olímpicos devido ao boicote do bloco comunista ao evento organizado pelos Estados Unidos.

Sem os tricampeões olímpicos (1964, 1968 e 1980), o Brasil chegou à competição como um dos favoritos. No Grupo A, a seleção conquistou duas vitórias seguidas,  sobre Argentina (3 a 1) e Tunísia (3 a 0). Depois, o time foi surpreendido pela Coreia do Sul ao perder por 3 a 1. Com duas vagas para as semifinais na  chave, o Brasil entrou em quadra contra os Estados Unidos precisando da vitória. Mesmo com a torcida contra, o time venceu por 3 a 0 e garantiu a  classificação como líder.

Na semi, o Brasil voltou a jogar bem e bateu a Itália por 3 sets a 1. Os norte-americanos, por sua vez, passaram pelo Canadá, que havia sido líder do Grupo  B. Na decisão pela medalha de ouro, a seleção brasileira não conseguiu repetir a atuação da fase de grupos a acabou derrotada por 3 sets a 0, com parciais de 15/6, 15/6 e 15/7. 

LEGADO

Além dos exemplos em quadra, a geração de 1984 mudou a concepção de planejamento no vôlei. A partir dela, o ciclo olímpico passou a ser mais pensado, mais  organizado. A seleção, desde a chegada de Bebeto de Freitas ao comando do time, contava com os assistentes Jorge Barros de Araújo (Jorjão) e José Carlos  Brunoro (então técnico da Pirelli), cada um com uma função tática específica, de ataque ou defesa. Na preparação física estava Major Paulo Sérgio Rocha, responsável pela implantação de  métodos novos - nos treinos, os jogadores chegavam a subir mais de 100 degraus de uma escadaria.

A geração de prata ainda criou duas formas inovadoras de sacar. Bernard inventou o "jornada nas estrelas", jogando a bola nas alturas. O "viagem ao fundo do mar", por sua vez, perdura até os dias atuais e acabou utilizado em 1984 para ajudar o time brasileiro, que tinha baixa média de altura (1,87m). Criado por William, Renan e Montanaro, os saques se transformaram em ataques no fundo da quadra. A bola deixou de ser apenas reposta e dificultou a vida da recepção.

Além de Renan, William, Bernard, Xandó, Amauri, Montanaro e Fernandão, o time de Bebeto de Freitas ainda contava com Badá, Marcus Vinícius, Bernardinho,  Maracanã e Rui Campos. Do grupo, apenas Badá não manteve ligação com o esporte.

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'O time de 1984 era muito versátil na quadra', afirma William

Capitão da equipe de Bebeto de Freitas exalta os companheiros e relembra como aquele time marcou a história do esporte brasileiro

Entrevista com

William

O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 07h00

William era o líder do time de vôlei do Brasil durante boa parte da década de 1980. Com o levantador em quadra, a equipe brasileira tinha também a segurança  de uma boa distribuição de jogo - característica marcante da geração de prata. Além da genialidade de William, as diversas opções no ataque, de acordo com  ele mesmo, ajudaram a seleção a fazer história nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

Depois de 30 anos, o capitão daquela equipe ainda cita os companheiros e as jogadas que colocavam em prática em cada um dos jogos. Em entrevista ao Estado, o  ex-levantador, que hoje é gerente e assistente técnico do São Bernardo, exalta o planejamento do vôlei a partir de 1981 e conta detalhes da campanha na Olimpíada de 1984, além de relembrar os maiores momentos em quadra, jogando com a camisa 7 do Brasil.

Qual era o grande trunfo daquela equipe?

Era a versatilidade. Era um time baixo, muito rápido. Eu como o levantador da equipe tinha muita opção, com o Montanaro, Bernard, Xandó, Renan e Amauri.  Todos atacavam no fundo, com violência e também tinham bom saque. Isso surpreendia muita gente.

Vocês têm noção do que representam para o esporte brasileiro?

Temos, sim. Não só de ter influenciado outros jogadores, mas também do planejamento e do trabalho que foi feito. Do que representou essa medalha de prata.  Para o vôlei e para os outros esportes. Foi a primeira vez que foi feito um planejamento legal. O vôlei, depois, sempre primou por isso. A partir daquele  grupo conseguimos massificar o vôlei no País. E isso foi transformado em qualidade. Somos referência: como time e como planejamento. Foi a partir de 1984 que  tudo começou

Qual o papel do Bebeto de Freitas para a conquista da medalha inédita? 

Primeiro que ele era um jogador fantástico, pensava muito rápido. A comissão foi muito bem elaborada por ele. O Jorjão cuidava da parte dos bloqueios, o  Brunoro anotava tudo. Era impressionante como ele nos dava força para nós termos ousadia. Ele via o jogo muito rápido: sabia que o time era baixo e mandava  atacar no fundo, por exemplo. Nós conversávamos muito, por eu ser o capitão, o técnico para ele dentro da quadra. Tudo isso sem a tecnologia que existe hoje.

O Brasil venceu os Estados Unidos por 3 a 0 na primeira fase e depois acabou derrotado na final. Por que o time não conseguiu repetir a atuação?

Nós perdemos da Coreia do Sul na primeira fase e fomos obrigados a cruzar os Estados Unidos antes da hora. O certo era só na final. E precisamos ganhar ainda  na primeira fase, senão seríamos eliminados. Tinha de ganhar e apresentamos tudo. Tudo que entrou naquele jogo, não entrou no segundo. E eles souberam nos  marcar na final. Todas as jogados que só faríamos na final, fizemos na primeira partida. E eles fizeram o que não conseguiram na fase de grupos. Além disso,  o passe não chegou tanto na minha mão no jogo final, porque eles sacaram bem, taticamente. Se não tivéssemos perdidos para a Coreia, teríamos enfrentado os  Estados Unidos só na decisão e poderia ser diferente.

O time era bastante experiente. Isso foi importante para a boa campanha nos Jogos de Los Angeles?

Foi fundamental todas essas conquistas. Ganhamos o Pan de 1983, o Mundialito, fomos bronze no Mundial de 1981 e prata em 1982. A gente foi subindo degraus. A  prata no Mundial de 1982 foi logo após a derrota no futebol na Copa da Espanha. Isso nós ajudou para que as condições melhorassem. Olharam para o vôlei.

A convivência entre vocês ainda continua viva?

Quase sempre nos encontramos, em jogos, exibições, comemorações. Vamos comemorar bastante esses 30 anos. O que é mais bacana é que quase todos estão ligados  ao vôlei. 

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Para Amauri, equipe conquistou a prata e o público brasileiro

Meio de rede da seleção de vôlei por mais de 17 anos levou sua experiência à geração de 1992, campeão olímpica em Barcelona

Entrevista com

Amauri

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 07h00

Essencial para a conquista da prata em 1984, Amauri disputou, como meio de rede, quatro Olimpíadas. Durante mais de 16 anos, defendeu a seleção brasileira e fez parte de uma das maiores trajetórias do esporte brasileiro. Depois da campanha nos Jogos de Los Angeles, foi à Olimpíada de 1988, em Seul, obtendo um quarto lugar. Quatro anos depois, sagrou-se, enfim, campeão olímpico. Em Barcelona, tornou-se importante ao grupo do técnico José Roberto Guimarães ao ajudar os mais jovens, principalmente na final contra a Holanda.

O atual presidente da Confederação Brasileira de Vôlei Sentado, em entrevista ao Estado, disse que trabalho iniciado pela comissão técnica brasileira a partir da chegada de Bebeto de Freitas foi fundamental para a conquista em 1984. Para ele, a filosofia implantada naquele time foi pioneira e fundamental para o esporte do País, influenciando outros grandes treinadores da geração atual.

A geração de prata mudou os rumos do vôlei no Brasil. Por que isso aconteceu?

Sem dúvida nenhuma aquela geração fez o vôlei ser reconhecido. A medalha de prata foi uma conquista, o resultado de um trabalho. É uma geração que é lembrada  até hoje. Além da prata, conquistamos o grande público do Brasil.

Como aquele time se formou?

O trabalho foi iniciado ainda na década de 1970, na seleção juvenil. A base daquele time veio do primeiro Mundial Junior, no Rio, em 1977. Aos poucos todos  foram entrando na seleção adulta. Era um trabalho difícil, porque não tínhamos muito apoio financeiro. Mas apesar disso todos tinham muita determinação de  vencer e buscar alguma coisa a mais. Valeu o sacrifício de todos para manter aquele grupo.

E a comissão técnica?

O Bebeto assumiu o time em 1981 e implantou uma seleção permanente, com uma nova filosofia, que era algo novo no Brasil. Com muito empenho, conseguiu reunir  aquele time. Eram longos períodos de treinamento, concentrados no Rio. Essa nova filosofia dele influenciou outros treinadores, como o José Roberto Guimarães  e o Bernardinho. Foi uma receita de sucesso. Ele colocou na comissão técnica os melhores profissionais, cada um na sua especificidade. Ele se preocupou em  integrar o que tinha de melhor O Brunoro como auxiliar técnico, mais na parte de defesa, saque e recepção. O Jorjão na parte do bloqueio e ataque. O Major  Paulo na preparação física. Todos ajudaram muito  A função do Bebeto era bem tática, de armar a equipe na quadra.

O que faltou para o time voltar a vencer os Estados Unidos?

Foi a primeira final olímpica. Tivemos uma grande preparação técnica, física e tática. Mas faltou alguma coisa na final. Deixamos escapar uma medalha de  ouro, porque éramos favoritos naquela final.

A campanha em Los Angeles foi importante para a vitória em Barcelona depois de oito anos?

Sem dúvida. Todos que estavam ali tinham funções. Aquele grupo era muito unido. A mescla de atletas mais experientes mais novos foi fundamental. Era a  primeira Olimpíada da maioria deles. Eu e o Pampa assumimos esse papel. Foi importante para manter a estabilidade e a união. O que eu passei em 1984 foi  levado a eles como uma experiência positiva. Eu não esperava a convocação. Me senti muito bem naquele grupo. Foi importante para eles.

Os jogadores mais jovens falavam com você sobre 1984?

Eles sempre perguntavam sobre tudo, de todas as experiências. Tentei passar para eles o que nós poderíamos fazer chegar à grande conquista.

Em qual situação isso aconteceu?

Quando vencemos os Estados Unidos na semifinal houve uma certa euforia porque pegaríamos a Holanda, que já havíamos vencido na fase de grupos. Era a mesma situação de 1984. E lembramos disso. Tivemos uma reunião para não mudar o comportamento e continuar com o mesmo espírito. Jogaríamos com um adversário que já  tinha sido derrotado. Mas uma final olímpica é diferente. É completamente diferente enfrentar na decisão. Superamos isso, aprendemos com os erros.

Vocês da geração de prata têm o hábito de se encontrar?

Nos encontramos na semana passada, sempre revivemos aquilo que passamos. Parece que nada mudou, é muito saudável, sempre muito legal.

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Bicampeão olímpico, Maurício foi incentivado pela geração de prata

Levantador nos títulos de 1992 (Barcelona) e 2004 (Atenas) afirma que começou a praticar o esporte após o sucesso do time de 1984

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 07h00

O jovem Maurício tinha 16 anos quando o Brasil conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Passados 30 anos, o ex-levantador da seleção confessa que dormiu durante a final contra os Estados Unidos. Àquela altura, não importava a omissão no jogo decisivo. A brilhante campanha do vôlei do País nos Jogos de 1984 já havia "contaminado" o garoto de vez. 

"Tudo começou para valer no Mundial de 1982, quando a seleção foi vice-campeão depois de perder para a União Soviética na Argentina", relembra.

E foi mesmo no vôlei que Maurício se encontrou. Antes, chegou a tentar a sorte na natação, além de jogar basquete e futebol também. Após o vice mundial de 1982, o garoto começou a jogar no Clube Fonte São Paulo. Cinco anos depois, já começou a defender a seleção brasileira, até chegar à titularidade absoluta em 1989, aos 21 anos. 

"A geração de prata me inspirou a seguir no vôlei. Foi a geração que mostrou o vôlei ao Brasil", ressalta o ex-jogador, que conquistou a segunda medalha de ouro nos Jogos de Atenas, em 2004.

Além da inspiração, a geração de prata serviu de exemplo durante a campanha nos Jogos de Barcelona - na ocasião, o vôlei conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil em esportes coletivos. Segundo Maurício, a experiência passada por Amauri nas finais foi fundamental para o jovem time brasileiro, que ainda contava com o talento de Giovane (21 anos), Marcelo Negrão (19 anos), Tande (22 anos), Carlão (27 anos) e Paulão (28 anos).

"Ele deu equilíbrio para nós. Foi importantíssimo para nós controlarmos a ansiedade na reta final", relembra o levantador do time de 1992.

Segundo ele, Amauri tentou explicar ao grupo o peso de uma conquista olímpica, principalmente na semifinal contra os Estados Unidos, quando o Brasil fez 3 a 0 e mostrou-se pronto para a medalha de ouro. "Foi o jogo mais difícil. Eles eram bicampeões olímpicos, o time a ser batido. Quando vencemos, ficamos mais tranquilos, pois uma medalha já estava garantida", ressaltou.

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