Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Biografia de Bebeto de Freitas resgata memória do comandante da Geração de Prata

Homenagem póstuma ao líder da seleção de vôlei vice-campeã olímpica em 1984 propõe debate sobre políticas esportivas

Alessandro Lucchetti, especial para o Estado

15 de outubro de 2019 | 13h00

Não será um lançamento de vulto, tal como fazia Bernard, impulsionando a bola de vôlei às alturas, no saque batizado como Jornada nas Estrelas. Bebeto de Freitas: o que eu vivi, a biografia do comandante da chamada Geração de Prata, será lançada em São Paulo na próxima terça-feira, dia 22, a partir das 19h, no pequeno Bar São Cristóvão (Rua Aspicuelta, 533, Vila Madalena).

A família de Bebeto preparou uma primeira tiragem, de apenas 500 exemplares, sem o suporte de uma editora. “Oferecemos o livro a diversas editoras. Elogiaram a qualidade do texto e ressalvaram a dimensão do personagem biografado, mas nenhuma se interessou pela publicação. Alegaram que, nesse contexto de crise, estão reduzindo o número de títulos lançados”, diz o autor, o jornalista Rafael Valesi, que fez parte das redações do diário Lance! e da revista Veja, e hoje trabalha com gestão do esporte de alto rendimento para a Prefeitura de São Paulo.

Entre novembro e dezembro de 2017, Valesi gravou quase 20 horas de entrevistas com o treinador que elevou o vôlei brasileiro a outro patamar. Em março de 2018, Bebeto sofreu um ataque cardíaco, aos 68 anos de idade, e partiu. O jornalista havia escrito apenas alguns trechos iniciais do livro, aprovados pelo biografado. Após o falecimento, família e autor decidiram manter o estilo do texto, escrito em primeira pessoa.

Ex-jogador do Botafogo, Bebeto foi escolhido no segundo semestre de 1980 pelo ex-amigo e colega no time da Estrela Solitária, Carlos Arthur Nuzman, então presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, para comandar as seleções masculinas. A equipe adulta havia sido quinta colocada nos Jogos Olímpicos de Moscou. Na mesma época, Bebeto recebeu o convite para treinar o time da Atlântica Boavista, um esquadrão que chegou a reunir Renan, Bernard, Xandó e Amauri.

Professor de Educação Física concursado do Estado do Rio formado pela Escola de Educação Física do Exército, Bebeto via um grande problema na seleção: repleta de jogadores habilidosos, como William, Montanaro e os já citados Renan, Bernard e Xandó, a equipe nacional jogava o primeiro set de igual para igual com praticamente qualquer adversário, mas “pregava” em quadra a partir do segundo devido à falta de preparo físico, decorrente de um esquema de preparação ainda amador.

Em parceria com o major Paulo Sérgio de Oliveira Rocha, Bebeto implantou treinamentos físicos diários na seleção, algo que até então não existia. Esse desenvolvimento, agregado ao investimento da CBV, que bancou diversas viagens aos países da Cortina de Ferro, então dominantes na modalidade, proporcionando intercâmbio, paulatinamente elevaram o nível do vôlei brasileiro. Outra chave de sucesso eram as soluções criativas de armação de jogadas, que exploravam a versatilidade e o talento de uma geração de craques, regida por William.

Os resultados não tardaram a aparecer: o título do Mundialito de 81, com direito a vitória sobre a poderosíssima União Soviética, marcou a decolagem do grupo, exibida pela TV Record, nos tempos em que o narrador Luciano do Valle se engajou no projeto de levar o vôlei para as massas. À medalha de prata no Mundial da Argentina-82 (com derrota na final para os soviéticos) seguiu-se o vice-campeonato olímpico em Los Angeles-84. O ouro coube à equipe dos Estados Unidos, comandada por Doug Beal – que dissecou as jogadas brasileiras.

“O Bebeto precisa ser valorizado como um dos caras mais importantes do vôlei brasileiro. Com muita justiça, dá-se muito valor ao Bernardinho e ao Zé Roberto, que ganharam praticamente tudo no comando das seleções brasileiras. Mas o Bebeto, de uma certa forma, foi o mentor dos dois”, diz Valesi. O levantador Bernardinho era comandado por Bebeto na Atlântica- Boavista e era reserva de William na seleção. Depois, foi auxiliar técnico de Bebeto em parte do ciclo que se encerrou com a campanha dos Jogos Olímpicos de Seul-88. Já Zé Roberto, que também foi levantador e colega de Bebeto na seleção, foi seu auxiliar na histórica campanha do Sul-Americano de Curitiba, em 89. Naquela ocasião, o Brasil foi campeão, derrotando a fortíssima Argentina medalhista de bronze em Seul, contando com Castellani, Quiroga, Uriarte e Weber. A seleção brasileira era formada por garotos – o embrião do time que iria conquistar o ouro de Barcelona-92, sob a orientação de Zé, com Maurício, Giovane, Tande, Marcelo Negrão, Paulão, Jorge Edson e Janelson.

Na avaliação de Valesi, o livro é uma excelente oportunidade para que jovens da geração dele (o jornalista tem 34 anos) conheçam as raízes do sucesso do vôlei brasileiro. “Minhas primeiras lembranças do vôlei são dos Jogos de Barcelona. Tinha sete anos de idade e me lembro do mascote Cobi e do Brasil sendo campeão olímpico, com a Geração de Ouro”.

Os mais velhos, aqueles que acompanharam o Mundialito de 81, o histórico jogo contra a União Soviética no Maracanã e os duelos eletrizantes entre Pirelli e Atlântica-Boavista, poderão mergulhar nos bastidores do vôlei, ter um retrato das práticas de Nuzman, que jamais repassou um tostão de direitos de imagem aos jogadores que transformaram o vôlei numa grande paixão nacional, entre outras manobras questionáveis.

Fiel a suas convicções, Bebeto fazia do questionamento aos dirigentes uma prática cotidiana e, por esse motivo, pouco tempo durou em muitos de seus empregos, mesmo com conquistas que o levaram ao Hall da Fama do vôlei, como os títulos da liga italiana pelo Maxicono Parma e a própria conquista do Mundial de 1998, pela seleção da Itália.

“Bebeto sempre foi muito passional. Amava muito o esporte e, por ser apaixonado, jamais compactuou com práticas que considerava erradas. Um capítulo muito importante do livro mostra a diferenciação que ele fazia entre o vôlei do Brasil e o vôlei no Brasil. Ele mostra que a seleção brasileira era um produto muito bem trabalhado, que obteve muito sucesso. Mas a seleção era praticamente um adversário dos clubes, que ficavam desfalcados de seus atletas mais importantes por vários meses do calendário esportivo, embora pagassem seus salários”.

De fato, os clubes jamais se uniram para criar uma liga – caminho trilhado com sucesso pelo basquete, que organiza de maneira satisfatória o NBB. Hoje, a liga de basquete é exibida em diversas emissoras e plataformas, com visibilidade superior à da Superliga. “No caso do basquete, são os resultados da seleção brasileira que não ajudam a modalidade no Brasil”, compara Valesi.

Sobrinho de João Saldanha, primo do craque do Botafogo Heleno de Freitas, pai de Rico Freitas, vice-campeão olímpico no vôlei de praia, Bebeto tinha histórias de sobra para contar, algumas bem divertidas – e as contou. No final do livro, o ex-presidente do Botafogo, ex-dirigente do Atlético Mineiro e ex-secretário de Esporte e Lazer de Belo Horizonte, na atual gestão do prefeito Alexandre Kalil, propõe que se pense uma política esportiva para o Brasil, baseada no oferecimento de atividade física a toda a população – o desenvolvimento do esporte de Alto Rendimento seria apenas uma consequência do investimento em esporte como ferramenta para a promoção da melhoria da saúde dos brasileiros.

“O Bebeto sempre deixou claro que sua prioridade, sua motivação para publicar o livro, era o último capítulo. Ele queria provocar essa reflexão”, diz Valesi.

Em entrevista ao Portal da Educação Física em 2017, no tempo em que ocupava a pasta de Esporte e Lazer no secretariado de Kalil, Bebeto questionou o chamado legado proporcionado pela Copa do Mundo de 2014 e pela Rio-2016. “Se quisermos fazer do esporte escolar a estratégia de desenvolvimento do esporte no Brasil, teremos que investir em quadras, em estrutura. O que se gastou com Pan e Olimpíada seria suficiente para esse investimento. Perdemos uma oportunidade”.

Resta saber se as ideias de Bebeto algum dia serão discutidas pelos formuladores de políticas públicas.

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