Campeões mundiais curtem a façanha

Peças-chave no banco, perseverança, muito talento e um técnico audacioso e inteligente. Esses são os ingredientes da espetacular vitória do vôlei masculino do Brasil. Após a tensa decisão contra a Rússia no Campeonato Mundial da Argentina, definida apenas no quinto set, os jogadores da seleção brasileira comemoraram muito a façanha. Ainda no domingo, comeram churrasco e dançaram a noite inteira em Buenos Aires. Na manhã desta segunda-feira, assim que desembarcaram em São Paulo, concederam entrevista coletiva. À tarde, foram recebidos pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em Brasília. "Quero curtir esse momento, que é único. Temos de aproveitá-lo. O título não significará menos pressão. Nas próximas partidas, seja nos times, seja na seleção, sei que seremos cobrados como sempre", diz o capitão Nalbert, único atleta do planeta a ter o título mundial nas categorias infanto (1991), juvenil (1993) e adulto (agora em 2002).Muito se falou sobre o título inédito - até então, a melhor colocação do vôlei masculino em mundiais havia sido a medalha de prata, em 1982, também na Argentina, quando o técnico Bernardinho era o levantador reserva. Mas, talvez, o segredo do sucesso seja mais simples do que se imagina: a vontade de querer triunfar. "Sempre digo que é resultado de trabalho. Esses meninos trabalharam muito, sentiram-se merecedores do título. Pensam assim: ?trabalhei tanto, não vou deixar esses caras tirarem o título de mim?", explica o treinador.Bernardinho temia que a seleção chegasse à decisão de "bateria fraca", após confrontos difíceis contra Itália e Iugoslávia, respectivamente nas quartas e semifinais do Mundial. "Lembro de ter saído do Brasil preocupado, porque o time não estava na forma ideal. Fez uma primeira fase instável, mas tivemos uma segunda etapa excepcional. E não foi por causa da programação. Aconteceu. O time mostrou que força é o que não falta", conta o técnico, que chegou à final das nove competições que disputou com a equipe, vencendo sete delas.Para Giovane, o Brasil venceu a final contra a Rússia antes mesmo da partida. "Quando o Bernardo marcou muito bem o time rival. Vi o quanto ele é bom mesmo. E depois, ainda foi corajoso e manteve os reservas em quadra", revela o jogador que fez o ponto decisivo no quinto set contra os russos, ao lembrar da excelente participação de Ricardinho e Anderson, que saíram do banco para ajudar a seleção a vencer.?Sempre acreditei que o título era nosso. Ninguém podia tirar a taça da gente porque tudo estava dando muito certo", admite o capitão Nalbert, que não largou o troféu de campeão mundial durante o dia cheio de homenagens.Bernardinho, que conduziu a seleção feminina ao vice-campeonato mundial (1994) e ao bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) e de Sydney (2000), foi audacioso. Nos jogos decisivos, deixou Maurício e André (eleitos, respectivamente, o melhor levantador e o melhor atacante do Mundial) no banco.O técnico campeão do mundo acha difícil que esse grupo caia na armadilha da presunção ou que a vaidade estrague o espírito de união entre os atletas. "Ao se sentirem poderosos, meu medo era que pudessem negligenciar coisas importantes, como o sacrifício, o trabalho e o coletivo. Hoje, devem repudiar atitudes do tipo ?eu sou o tal?. Em um ano e meio de trabalho, sei que mostramos amadurecimento. O grupo criou uma cumplicidade e entendeu que o que leva ao sucesso é o trabalho, a dedicação", fala Bernardinho, que reconhece a importância da derrota para a Rússia na final da última Liga Mundial para que o time chegasse à esse conquista na Argentina. "Aquela medalha de prata foi interessante porque os jogadores não queriam mais sentir aquele gosto amargo. Aprendemos com os erros."

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