Ana Carolina Fernandes|The New York Times
Courtney Thompson disputa o título da Superliga pelo Rexona|Ades no domingo Ana Carolina Fernandes|The New York Times

Courtney Thompson é espiã americana na Superliga

Veterana da final olímpica de 2012 treina com Bernardinho

John Branch, The New York Times

31 de março de 2016 | 07h01

Courtney Thompson, levantadora veterana da equipe de vôlei feminino dos Estados Unidos, saiu pela porta lateral do ginásio abafado e foi envolvida pela brisa fresca do oceano. A praia ficava perto e era possível ouvir as ondas batendo na areia. Ao fundo, o Pão de Açúcar com seu bondinho, famoso cartão postal do Rio.

Era inverno nos EUA, mas pleno verão no Brasil. As companheiras de seleção de Courtney estavam espalhadas pelo mundo, em pelo menos seis países de três continentes, jogando em ligas profissionais de voleibol de quadra, que não existem nos Estados Unidos.

Já ela estava aqui, jogando na Superliga, que pode ser considerada a melhor do vôlei feminino, onde quase todo o time da seleção brasileira joga em algumas das maiores equipes.

Os Estados Unidos e o Brasil são rivais ferozes e favoritos à medalha de ouro olímpica no Rio de Janeiro. E Courtney havia se infiltrado no território inimigo, em um time do Rio de Janeiro, como uma espiã fazendo o reconhecimento do terreno para as americanas.

"Todos fazem piada com isso. Estão aprendendo sobre mim também. Vou levar algumas dicas de volta, mas não era essa a minha intenção", disse ela.

As companheiras de equipe prestam atenção nela. Em poucos meses, Courtney estará do outro lado da rede, talvez em uma disputa pela medalha de ouro. Até lá, está aqui para aprender.

As duas Superligas do Brasil - masculina e feminina - estão entre as principais do vôlei profissional do mundo. No Brasil, o voleibol de quadra e o de praia só perdem em popularidade para o futebol. Normalmente os jogos da Superliga são televisionados e os melhores jogadores de ambos os sexos são famosos nacionalmente.

Porém, apenas metade da seleção masculina brasileira joga em casa na Superliga, pois os jogadores são atraídos pelos salários melhores e a reunião de talentos oferecidos em lugares como Rússia, Polônia e Itália. E não há nenhum time masculino do Rio de Janeiro no torneio.

Mas a feminina, mesmo enfrentando uma concorrência semelhante por talentos em todo o mundo, vem conseguindo manter a maioria das principais jogadoras brasileiras em casa. Apenas algumas se aventuraram no exterior nesta temporada. As outras jogam juntas, ou frequentemente uma contra a outra, em times da Superliga como o Osasco e o Sesi, de São Paulo.

"Há algumas vantagens de jogar junto durante todo o ano. Gostaríamos de fazer isso, se pudéssemos", disse Courtney, 31 anos, que participou da equipe americana de 2012, time olímpico que perdeu para o Brasil no jogo pela medalha de ouro, repetindo o mesmo resultado de Pequim, em 2008.

A melhor equipe da temporada - e da história da liga - é do Rio de Janeiro, atualmente com o nome de seus atuais patrocinadores, a Rexona-Ades. A escalação final do Brasil só será divulgada no meio do ano, mas cerca de 12 jogadoras deverão vir da equipe carioca. Com a jogadora americana, ele é basicamente uma equipe de estrelas.

Courtney jogou pela Universidade de Washington e ajudou o Huskies no campeonato nacional da NCAA de 2005. Desde então, participou da maioria das temporadas em lugares como Suíça, Áustria, Polônia e Porto Rico. Nada se compara ao Brasil.

"Tudo aqui é muito diferente dos EUA. As pessoas dizem: 'Ei, Courtney! Você é americana! Como é isso?'. Eu estava em um restaurante uma noite dessas e um brasileiro à minha frente disse: 'Courtney, que bom te ver. Como vai a temporada?'. Isso não acontece nos Estados Unidos. E o nível de jogo? Estou jogando com metade da seleção nacional."

Courtney veio para o Rio de Janeiro não só para jogar na Superliga, mas para aprender com Bernardo Rezende, o Bernardinho. Bicampeão olímpico como levantador na década de 80, ele treinou a seleção feminina brasileira durante uma década e está com a masculina desde 2001.

Courtney gosta do estilo de jogo do Brasil, que já havia visto do outro lado da rede. É um pouco como futebol, o jogo "bonito", cheio de velocidade, habilidade e sutileza, mas tendendo para o grandioso e o potente.

"Elas jogam rápido", comentou sobre as brasileiras. "Conhecem bem o jogo. É quase como uma dança. É muito fluido. O controle de bola é muito bom, a defesa é boa, elas têm uma boa visão de jogo. Nem sempre são muito físicas - claro, a seleção é -, mas como um todo, são bem espertas. E dá para perceber isso quando você joga com elas."

Ela disse que as brasileiras têm pelo menos uma vantagem sobre as americanas: o voleibol é parte da consciência nacional.

"Elas cresceram com o jogo, que é muito popular. Jogamos duas vezes por semana e os homens, outras duas, então são quatro noites por semana em que você pode assistir a um voleibol de alto nível na televisão. É assim que se aprende. Você vê e tenta jogar. É como assistir a um vídeo, você só não sabe."

As partidas são animadas, cheias de famílias, com bandeiras, distribuição de camisetas e uma mascote. Bandeiras e as fotos de cada jogadora são penduradas na parede de um lado do ginásio, mas embora os resultados das partidas apareçam em jornais e na televisão, pouca gente da imprensa aparece para os treinos ou os jogos e a liga não divulga resultados ou estatísticas on-line. O site da equipe é uma página do Facebook, mas com mais de 450 mil curtidas.

As jogadoras da seleção veem a Superliga como uma vantagem e a maioria está disposta a abrir mão de ganhar mais para ter a chance de ficar em casa, jogar entre gente conhecida e se preparar para os Jogos Olímpicos de um modo que as americanas não podem.

"As jogadoras querem vir para cá porque ganhamos os dois últimos Jogos Olímpicos. O resto do mundo pensa: 'O que será que fazem no Brasil que é tão bom?' Ganhamos dinheiro suficiente para competir e as equipes sabem jogar", resumiu a líbero Fabiana Alvim, conhecida como Fabi, bicampeã olímpica e oito vezes campeã da Superliga no Rio.

Foi isso que atraiu Courtney. Quando ela chegou ao Brasil, no final do ano passado, não demorou muito tempo para perceber no que havia se metido.

"Jogamos em Osasco, nosso grande rival, pouco antes do Natal", disse ela sobre uma partida na periferia de São Paulo. "Provavelmente um dos ginásios adversários mais legais em que já estive. Estava lotado quando chegamos e dava para ouvir as vaias antes de sairmos do vestiário. Foi divertido, sabe?"

"Acho que todos aqui são muito apaixonados, em todas as esferas da vida. É um lugar divertido para se viver e conhecer sua cultura. E os torcedores não têm medo de esconder que não estão felizes. Adoro isso. Mas também, quando você está indo bem, é a coisa mais legal que já vi."

Courtney e suas companheiras olímpicas dos Estados Unidos, onde quer que estejam, verão por si mesmas como a coisa funciona, daqui a poucos meses.

 

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