Neide Carlos/Vôlei Bauru
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DEBATE: Você é a favor de a Tifanny disputar a Superliga feminina de vôlei?

Américo Espallargas e Ana Paula Henkel colocam suas opiniões sobre a presença da jogadora nas quadras

O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2018 | 07h02

SIM - Américo Espallargas

Tifanny é um exemplo de inclusão tanto no esporte como na sociedade. Tal qual outros atletas como Magic Johnson, que na década de 80 contribuiu de maneira ímpar para o combate ao preconceito contra portadores do vírus HIV, ela tem desafiado a lógica de que o esporte de rendimento é para poucos e contribuído para o debate sobre o direito à igualdade.

É claro que a discussão em torno do desempenho dela, por ser transexual, sobressai face à questão da inclusão – especialmente em razão do argumento “biológico” de que Tifanny optou por fazer sua transição aos 30 anos e por isso teria vantagem em comparação às demais jogadoras da Superliga. Entretanto, é importante esclarecer que não existem estudos científicos que comprovem se, e quanto, ela (ou outras atletas trans) realmente possuem tal vantagem.

Em outras palavras, ao se medir todas as características (físicas, técnicas e psíquicas) que possuem atletas profissionais, hoje é cientificamente impossível definir quais dessas características efetivamente representam uma vantagem – afinal, sempre haverá comparativamente jogadoras mais fortes, mais altas, mais rápidas ou mais técnicas que outras, sejam elas cis ou transgênero. Como medir, então, se há vantagem ou não?

Como não há resposta concreta para essa pergunta, tanto o Comitê Olímpico Internacional como a Federação Internacional de Vôlei corretamente ratificaram em janeiro de 2018 a regra que permite que Tifanny possa competir. A ausência de certeza não pode servir como escudo para a segregação, simplificação e exclusão. Muito pelo contrário; no mundo atual, a dúvida deve gerar a inclusão. A questão é de direitos humanos, e não de competição.

* MESTRE EM ADMINISTRAÇÃO ESPORTIVA PELA UNIVERSIDADE COLUMBIA E ADVOGADO ASSOCIADO DO ESCRITÓRIO CSMV ADVOGADOS

NÃO - Ana Paula Henkel

A verdade mais óbvia e respeitada por todos os envolvidos no esporte é a diferença biológica entre homens e mulheres. Minha posição é apenas reconhecer a ciência, a justiça, a verdade e o bom senso. Sou contra atropelar os fatos em nome de uma agenda política.

Durante 24 anos dedicados ao voleibol, fui submetida ao mais rigoroso controle antidoping. Fui testada exaustivamente dentro e fora das competições para atestar que meu corpo não estava sendo construído em nenhum momento da minha vida com testosterona. Desde a adolescência precisei provar, cientificamente, que sou mulher para competir e depois manter minhas conquistas, títulos e medalhas.

O material colhido nesses anos continua guardado até hoje e pode ser novamente acessado e testado. Uma nova medição que constate níveis incompatíveis de testosterona num corpo feminino pode retirar títulos retroativamente. Usando exatamente o mesmo critério, uma amostra de anos atrás de alguém que era um homem e agora se identifica como mulher mostraria um nível incompatível. Ele pode, mas nós não podemos? Não faz sentido.

Inúmeros fisiologistas já atestaram que o parâmetro estabelecido pelo COI de testosterona não reverte os efeitos do hormônio masculino na construção de ossos, tecidos, órgãos e músculos ao longo de décadas. Em um ano de tratamento, é praticamente o mesmo homem.

A inclusão de transexuais na sociedade deve ser respeitada, mas essa apressada e irrefletida decisão de incluir homens “biológicos” em esportes femininos constrange, humilha e exclui mulheres. No limite, é a mais cruel forma de misoginia.

* EX-JOGADORA DE VÔLEI, DISPUTOU QUATRO EDIÇÕES DOS JOGOS OLÍMPICOS, GANHANDO O BRONZE EM ATLANTA-1996. É ARQUITETA E CURSA CIÊNCIA POLÍTICA NA UCLA. TAMBÉM TEM UM BLOG NO ESTADÃO.COM.BR

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