Nilton Cardin/Estadão
Nilton Cardin/Estadão

Deivid volta a enxergar um futuro na carreira de jogador de vôlei

Central do Funvic/Taubaté chegou a ficar cego de um olho, recebeu transplante de córnea e voltou para ser campeão paulista

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2014 | 07h00

Muitas competições escolares ou de várzea presenteiam seus campeões com taças mais bonitas do que a do Campeonato Paulista de vôlei. A conquista do título, que o central Deivid Júnior Costa celebrou no último sábado, pelo Funvic/Taubaté, em tese pouco representa para quem já foi campeão da Superliga e tinha três títulos do próprio estadual no currículo. Mas o central se emocionou de verdade ao ver o brilho do caneco. Na verdade, ficou feliz pelo simples fato de enxergá-lo.

Deivid teve que se submeter a um transplante da córnea do olho esquerdo por ter sido acometido de ceracotone, doença que reduz a rigidez do colágeno da córnea, dando-lhe um formato mais cônico. A pressão intraocular acabou por romper a córnea esquerda do jogador. Sem alternativa, Deivid teve que passar pelo transplante. Os pontos estouraram algumas vezes, e o período de afastamento, que era para ter sido de quatro meses, dilatou-se para 18. “Achei que a minha carreira no vôlei tinha terminado, porque ninguém consegue ficar parado tanto tempo e continuar jogando num time de ponta.”

Felizmente para Deivid, ele foi um dos três jogadores do modesto elenco da temporada passada de Taubaté mantidos para esta. Nesse ínterim, o time recebeu uma injeção polpuda de verba de seu patrocinador e se transformou numa superequipe, com Sidão, Lipe, Rapha e Felipe, todos da seleção brasileira que foi vice-campeã mundial na Polônia, além do veterano Dante, campeão olímpico em 2004, e do valorizado Lorena.

Como Sidão se machucou no primeiro jogo da final, Deivid teve que botar seus óculos especiais, que protegem os poucos pontos cirúrgicos ainda remanescentes, e foi à luta na segunda partida. Antes, passou por “sessões de terapia” com seus colegas para fortalecer a confiança e encarar a responsabilidade de substituir um titular da seleção brasileira contra o fortíssimo Sesi, um dos candidatos ao título da Superliga. “Voltei a jogar só em junho e ainda não estou do jeito que almejo. Tem algumas coisas que quero fazer, mas meu corpo não acompanha. Dormi muito mal nesta semana que passou. Mas conversaram muito comigo. O Rapha me orientava todos os dias, e o Lorena, que chamo de pai, também me deu força. É engraçado, mas quando vi o ginásio lotado, a ansiedade passou. Até me disseram que joguei bem, mas acho que fui razoável. O importante é que estou jogando”.

Antes de passar pela cirurgia, com 21 graus de astigmatismo, Deivid bloqueou alguns vultos. “Lembro que fomos disputar os Jogos Regionais num ginasinho baixo e escuro em Caraguatatuba. Acho que joguei por instinto. Meu oftalmologista disse que, o que a gente não enxerga totalmente, complementa com a imaginação. Acho que é isso”.

O transplante ajudou o gigante de 2,06m e 26 anos a enxergar a vida com outra perspectiva. Campeão e eleito melhor jogador do Mundial juvenil de 2007, na Índia, Deivid é uma promessa que não chegou a vingar como se esperava. “Eu gostava bastante da noite, estava desfocado do vôlei. Acho que esse problema no olho aconteceu para eu dar uma guinada na vida. Sou outro cara”. 

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