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'É um marco', diz Tandara sobre vitória na Justiça por direitos ligados à gravidez

Primeira atleta a buscar a Justiça para brigar pelos direitos ligados à maternidade, campeã olímpica venceu ação contra o Praia Clube, que a dispensou grávida em 2015

Entrevista com

Tandara, jogadora de vôlei

Ricardo Magatti, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2020 | 05h01

Campeã olímpica de vôlei, Tandara conquistou no mês passado uma vitória que transcende as quadras. A atleta venceu na Justiça a ação que movia contra o Praia Clube, de Uberlândia (MG), que a dispensou grávida em 2015. Em decisão de última instância, a Subseção de Dissídios Individuais 1 (SDI-1) do Tribunal Superior do Trabalho (TST) concluiu que o clube mineiro não poderia ter rescindido o contrato de direitos de imagem com a jogadora durante a sua gravidez.

"É um marco de muita representatividade feminina", disse Tandara ao Estadão, sobre a decisão judicial inédita no esporte brasileiro. "Acho que, com essa vitória, represento as mulheres atletas para mostrar que gravidez não é doença e que a gente pode voltar muito melhor depois da gestação", prosseguiu. Ela é primeira jogadora a acionar a Justiça para lutar pelos direitos trabalhistas ligados à maternidade. Após o julgamento do TST, não cabem mais recursos. O valor a ser pago pelo Praia Clube à oposta ainda deve ser atualizado.

Tandara decidiu ir à Justiça porque passou a receber apenas 0,5% do total de seu salário depois que seu contrato de direitos de imagem terminou em maio de 2015 e não foi renovado pelo Praia Clube, que não quis manter a oposta grávida em seu elenco. Ela recebeu a quantia ínfima por alguns meses até pedir demissão em outubro, pouco tempo depois de dar à luz Maria Clara, hoje com 4 anos.

Em entrevista ao Estadão, Tandara disse o que representa para ela a vitória contra o ex-clube, como isso pode inspirar outras mulheres, contou como foi o período em que estava grávida e afastada das quadras e falou sobre a sua rotina na quarentena, enquanto as partidas não retornam. Aos 31 anos, ela jogará a próxima temporada pelo Osasco, dando início à quarta passagem pelo time paulista, que a apresentou oficialmente na última semana.

Você é a primeira atleta a buscar na Justiça seus direitos trabalhistas ligados à maternidade. O que essa vitória representa pra você?

É um marco de muita representatividade feminina. Acho que, com essa vitória, represento as mulheres atletas para mostrar que gravidez não é doença e que a gente pode voltar muito melhor depois da gestação. Aconteceu comigo e também temos outros exemplos dentro do esporte de que a gente pode, sim, voltar melhor do que antes.  No meu caso, foi acidental (a gravidez). O que eu queria era apenas um respaldo até minha filha nascer para que eu pudesse exercer o meu melhor para o time depois, mas infelizmente isso não foi realizado. Fui mãe de primeira viagem, não foi de propósito e só queria um respaldo. Me senti muito insegura. Tenho minha consciência tranquila de que eu fiz o que tinha de ser feito. Fico muito feliz em ser reconhecida na Justiça porque prova que eu não estava errada.

Acha que essa decisão inédita da Justiça pode inspirar outras jogadoras e lutarem pelos seus direitos e também levar os clubes a mudarem a conduta com as atletas grávidas?

Pode iniciar, sim, uma nova briga de outras atletas. Mas a ideia é mostrar também que tudo tem que ser conversado, dialogado a partir do momento em que acontecer o acordo entre o clube e o atleta. Temos o exemplo da Camila Brait, que permaneceu com o contrato com o Osasco mesmo grávida e depois voltou à atividade pelo time. O combinado não sai caro. Pode ajudar a iniciar uma luta, mas o importante é que tudo seja conversado e isso também reforça que a atleta também tem o direito de ser mãe. Não pode existir aquela história de que a jogadora tem que abdicar do trabalho um ano para exercer o papel de mãe. Fica o aprendizado para o clube a atleta também. Falo e repito inúmeras vezes. Não tenho raiva de Uberlândia, do Praia Clube porque foi um clube em que eu comecei a minha carreira. Tenho amor pela cidade, onde minha filha nasceu e também onde meu marido nasceu e morei por muito tempo. Tenho um carinho imenso pela cidade e pelo Praia. Não é o dinheiro que ganhei na ação que me importa.

Você temeu represálias?

Eu sofri algumas represálias. Algumas pessoas falaram que eu estava certa e outras não. Questionaram como eu tive coragem de fazer isso com um clube tão grande. Só quem estava próximo a mim sabe tudo o que eu passei durante esse período. É um assunto delicado e que me deixa muito chateada.

Como foi o período em que estava grávida e sem clube depois do contrato de imagem com o Praia Clube terminar? Mesmo sem clube, você se cuidou e conseguiu voltar rápido.

Eu poderia ter até me cuidado mais, mas, como foi a primeira gravidez, aproveitei bastante. Mas eu consegui voltar muito bem. Uma semana após o nascimento da Maria Clara eu já estava no parque caminhando 5 km e empurrando a minha filha no carrinho. Com um mês já comecei a fazer musculação. Em novembro, já estava saltando. Eu desconfiei, claro, de que não poderia retornar com tanta facilidade. Mas voltei muito bem e até mais forte depois dessa gestação.

Você foi campeã olímpica em 2012, em Londres, mas acabou ficando de fora da última Olimpíada, no Rio, em 2016. O seu grande objetivo é estar com a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio e ganhar mais uma medalha?

Com certeza. Meu objetivo era estar no Rio, em 2016. Tive a honra de representar o País e carregar a tocha olímpica, mas estava voltando da minha gestação e, por decisão do (técnico) Zé (Roberto Guimarães) eu acabei ficando de fora. O que fez com que eu trabalhasse muito mais e hoje, certamente, meu foco profissional é jogar a Olimpíada de Tóquio. Sei da minha responsabilidade e aprendi a lidar melhor com ela ao longo do tempo e também sei da referência que eu sou dentro da seleção. Estou crescendo tanto pessoalmente quanto profissionalmente durante todos esses anos.

Como recebeu a notícia do adiamento dos Jogos de Tóquio para 2021?

A gente acaba sendo pego de surpresa. Vemos até que há vários atletas com depressão, ataque de ansiedade em relação a isso. Mas eu recebi da melhor maneira possível porque era o melhor a se fazer no momento, já que o mundo inteiro passa por essa pandemia horrível e estamos vivendo um período cheio de incertezas. Independente disso, continuo treinando, focada e buscando melhorar. Não toco em uma bola há quatro meses, mas é igual a bicicleta: a gente aprende a andar e nunca mais esquece. Quando entrar na quadra para reiniciar o treinamento será natural a volta. Estou me preparando muito e sentindo muita falta da correria do dia a dia, dos treinos de manhã e à tarde. Estou ansiosa para que tudo volte ao normal e tenho certeza de que tudo ficará bem.

A Superliga foi encerrada precocemente em razão da pandemia e a seleção ainda não tem previsão para se reunir. Como está sendo a sua rotina durante a quarentena, com a família e treinos?

Eu saio de casa somente quando é necessário. A Maria Clara está sem escola e o trabalho do Cléber (marido) também foi afetado. A parte boa é que estou podendo ficar muito tempo perto da minha filha. Estamos muito apegadas. A rotina, com os afazeres de casa, acaba sendo corrida também. Também estou feliz porque consegui organizar a casa, fazer doações e realizar tudo o que sempre quis quando não ficava tanto em casa. Mas sinto falta da correria, parece que falta um pedaço da gente. Estou fazendo meus treinos físicos e seguindo uma linha de treinamentos nessa quarentena. Tenho que fazer fortalecimento no tornozelo e ombro, onde estão meus problemas, e faço acompanhamento uma vez por semana com meu fisioterapeuta, que me acompanha há 15 anos.

Pensa em ser mãe de novo?

Penso, mas mais para frente. Provavelmente depois da Olimpíada. Corre-se o risco ainda de os Jogos de Tóquio serem cancelados. Mas com certeza está nos meus planos ter mais um filho no futuro.

Várias personalidades do esporte encamparam a luta por justiça social. Avalia que os atletas precisam se posicionar mais sobre temas sociais, como racismo, machismo e homofobia?

Somos mais cobrados a cada dia que passa, por estarmos em evidência, sermos referência e pessoas públicas. Querendo ou não, a sociedade acaba cobrando um pouco mais da de gente. Naturalmente, a gente é forçado a se posicionar sobre fatos que acontecem no nosso dia a dia e não acho que isso seja ruim. Temos que colocar o que a gente pensa, o que sentimos, mas muitas vezes as pessoas não concordam com o que expomos. A sociedade pede que a gente se pronuncie, mas não está pronta para uma resposta contrária e às vezes acabamos sendo motivos de represálias. Independente disso, temos, sim, que nos posicionar. Essas situações  viram um crescimento diário para nós.

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