Graça diz que prisão de iraniana é 'mentalidade de neandertal'

Graça diz que prisão de iraniana é 'mentalidade de neandertal'

Presidente da FIVB envia carta a presidente do país por detenção de Ghoncheh Ghavani por querer assistir partida de vôlei masculino

O Estado de S. Paulo

04 de novembro de 2014 | 11h51

A comoção causada pela prisão da jovem Ghoncheh Ghavami, de 25 anos, por querer assistir a uma partida de vôlei de time masculino no Irã chegou à Federação Internacional de Vôlei (FIVB). Presidente da entidade, o brasileiro Ary Graça disse nesta terça-feira ter enviado uma carta ao presidente do país, Hassan Rohani, para rever a punição, que classificou de "mentalidade de neandertal".

"Essa moça está presa há 127 dias. Ela só queria ver um jogo de vôlei, e esse foi o crime que cometeu. Isso é um absurdo, é uma mentalidade de neandertal. Por isso, fiz uma carta ao presidente do Irã dizendo que não quero interferir nas leis do país, mas, por um motivo de humanidade, que ele tentasse intervir nesse assunto, pois não tem sentido prender uma moça só porque ela queria ver um jogo de vôlei do time masculino", afirmou Graça ao Sportv.

Iraniana com nacionalidade inglesa, a estudante Ghoncheh Ghavami ganhou destaque na imprensa britânica por ter sido detida após protestar no entorno da partida entre Irã e Itália em jogo da Liga Mundial, na capital Teerã, por desacordo com as leis do seu país. No Irã, desde 2012 existe uma proibição para que mulheres frequentem eventos esportivos masculinos com a alegação de que o 'mal comportamento' dos torcedores podem mudar a atitude das mulheres.

Para Ary Graça, a argumentação do governo iraniano é uma inversão de valores. "Dizer que a torcida iria perturbar as mulheres não tem sentido. Ele que cuide dos torcedores e não das mulheres. Não tive resposta até hoje, mas estamos fazendo pressão por meio da Federação Iraniana de Vôlei para que isso não se repita", disse o dirigente brasileiro.

O presidente da Federação também revelou que a rigidez das leis podem prejudicar futuros torneios internacionais que o Irã possa sediar. "Isso nos deixa em dificuldade de querer fazer novos eventos no Irã, na medida em que estamos comprometidos com a inclusão. Não entra na nossa cabeça excluir mulheres. É o mesmo que excluir raças. Apesar de já termos acertado antes, temos o Campeonato Asiático em Teerã. Estamos em contato permanente com Humans Right para convencê-los de mudar o procedimento, assim como o Comitê Olímpico Internacional."

Questionado sobre a ineficiência da Federação Iraniana em conversar dentro do país sobre o caso, Graça diz que também há um sentimento de medo entre os dirigentes locais. "A Federação Iraniana está mais ou menos com as mãos atadas. Dá a impressão de que se se eles fizeram algo mais expressivo, vão presos também. Não posso prejudicar jogadores iranianos assim como a Federação por uma atitude de governo. São coisas completamente separadas. Se o governo está cometendo um engano, os jogadores não têm nada a ver com isso."

Dentre as manifestantes que foram presas, Ghavami é a única que permanece detida em Evin. Em confinamento solitário, a jovem iniciou greve de fome no mês passado. Na última semana, a estudante foi condenada a um ano de prisão. Sua família colheu mais de 700 mil assinaturas em petição por sua liberdade.

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