Alex Silva/Estadão
Bruninho diz que atletas do masculino estudam atitude mais drástica Alex Silva/Estadão

Jogadores de vôlei e CBV entram em rota de colisão

Atletas querem derrubar o sistema de ranking, que gera restrição de mercado

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2017 | 17h00

A manutenção do ranking para a temporada 2017/2018 da Superliga deflagrou o conflito entre jogadores e Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). E o embate nos bastidores da modalidade pode ficar ainda mais intenso nas próximas semanas, já que os campeões olímpicos se articulam para agir em busca da extinção do sistema e cogitam repetir os passos das atletas do feminino de recorrer à Justiça.

O debate tem se desenvolvido em um grupo de WhatsApp, que reúne de dois a três jogadores de cada clube participante da competição, e eles já chegaram a consultar um advogado para embasar a ação. O levantador Bruninho, do Sesi-SP, é um dos atletas engajados nessa luta.

"Todos os jogadores com quem conversei são contra o ranking. A gente está aguardando um pouco para ver como se desenrola a situação do feminino para decidir se vamos tomar alguma atitude mais drástica. É complicado porque não temos muito tempo também", afirma.

O titular da seleção brasileira acredita que a promessa de equilíbrio desde a implementação do ranqueamento, na temporada 1992/1993, perdeu a validade ao longo dos anos e critica a limitação de mercado para os jogadores de ponta, que correspondem a sete pontos na escala. 

No mês passado, as jogadoras Thaisa, Sheilla, Dani Lins, Jaqueline, Natália, Fabiana, Gabi e Fernanda Garay - com o apoio de Tandara - entraram com uma ação na 9.ª Vara do Trabalho no Rio de Janeiro exigindo a extinção do ranking. Antes de partirem para o tribunal, divulgaram uma nota de repúdio expondo a insatisfação do grupo. 

A medida foi tomada depois da votação realizada em 14 de março, em que oito dos 10 clubes classificados para a próxima edição da Superliga e o vice-presidente da Comissão de Atletas, Gilmar Teixeira (Kid), definiram que cada equipe poderá ter até duas jogadoras de sete pontos na temporada 2017/2018. Foram sete votos a favor da manutenção do formato e apenas dois contra - das próprias jogadoras e do Vôlei Nestlé. Com uma alteração: apenas a pontuação máxima foi mantida.

"Com a mudança do ranking, a situação das atletas piorou. O direito de elas concorrerem com as demais foi ainda mais relativizado, elas estão em uma situação clara de discriminação e impotência frente ao mercado de trabalho", defendeu o advogado Carlos Heitor Pioli Filho, que representa as atletas. 

Já os critérios da próxima temporada da Superliga masculina foram definidos em votação mais apertada. Por seis a cinco, ficou decidido que cada clube pode ter até 40 pontos e, no mínimo, cinco. O limite de três atletas de sete pontos por equipe continua valendo. Foram ranqueados os 172 jogadores entre brasileiros e estrangeiros, sendo dez com pontuação máxima.

Insatisfeito com o modelo atual, Bruninho torce por uma liga bem estruturada - usa o Campeonato Italiano como exemplo - e defende um formato de gestão independente. "A CBV poderia intervir, mas tem tentado deixar as decisões mais para os clubes e, ao mesmo tempo, não quer perder a Superliga. Sou a favor de uma liga independente. Além disso, não se vê a CBV tão participativa nos últimos anos."

Para ele, a união dos atletas vai trazer resultados a longo prazo. "O engajamento que as meninas têm mostrado e que estamos buscando é importante para que o vôlei melhore."

Saiba quem são os atletas de 7 pontos no ranking da temporada 2017/2018:

FEMININO

Dani Lins (Vôlei Nestlé)

Fabiana (Dentil/Praia Clube)

Fernanda Garay (Guangdong Evergrande, na China)

Gabi (Rexona-Sesc)

Jaqueline (Camponesa/Minas)

Natália (Fenerbahçe, na Turquia)

Sheilla (sem clube)

Tandara (Vôlei Nestlé)

Thaisa (Eczacibasi Vitra, na Turquia)

MASCULINO

Bruninho (Sesi-SP)

Éder (Funvic Taubaté)

Isac (Sada Cruzeiro)

Lucão (Sesi-SP)

Lipe (Halkbank, na Turquia)

Maurício (Brasil Kirin)

Lucarelli (Funvic Taubaté)

Simón (Sada Cruzeiro)

Wallace (Funvic Taubaté)

Leal (Sada Cruzeiro)

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Bicampeã olímpica critica ranking do vôlei: 'Ficou discriminatório'

Atleta, que está sem clube, diz que CBV é culpada pela manutenção do sistema

Entrevista com

Sheilla

Nathalia Garcia, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2017 | 17h00

Como foi a decisão de entrar com o processo judicial?

A gente não queria que tivesse chegado a esse ponto, queria ter resolvido de outra maneira. Mas a gente já briga contra o ranking há muito tempo e nunca nos ouviram, nunca nos levaram a sério. A gente teve de tomar essa medida.

A manutenção do ranking só para atletas de 7 pontos foi a gota d'água?

Ficou discriminatório. Continuou um sistema que te limita e não te dá liberdade de escolha. A gente se uniu, não depende de mais ninguém para lutar contra o ranking.

Como vê o fato de os clubes terem votado pela manutenção do ranking?

A CBV sempre joga a culpa nos clubes, mas quem chancela a decisão é ela. Quem criou o ranking foi a CBV, quem divulga o ranking é a CBV, quem faz a Superliga é a CBV. Ela é diretamente culpada.

O quanto isso dificulta a sua volta ao vôlei?

Dificulta bastante, minha intenção é jogar no Brasil. Mas a gente vai conseguir reverter isso, tenho esperança. 

 

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'Ninguém tem explicação cabível para o ranking', diz levantador

Atleta do Sada-Cruzeiro diz que argumentos dos dirigentes não o convencem

Entrevista com

William

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2017 | 17h00

Qual é sua posição sobre ranking?

O problema é que o ranking acaba impedindo os atletas de trabalharem onde quiserem, entra na questão trabalhista de não poder ir e vir. As pessoas querem ver os jogadores de ponta, isso atrai público. Mas você cria uma regra dessa e é possível que alguns tenham de sair do País, como foi o caso do Leandro Vissotto. Alguns clubes perderam atletas de nível por causa do ranking, espero que repensem isso. 

Por que as equipes decidiram manter o sistema?

Questionei alguns dirigentes e, sinceramente, ninguém conseguiu me convencer. Ninguém tem uma explicação cabível para que o ranking seja uma boa regra aplicada. O maior prejudicado é o jogador. Não sei se o clube se importa muito com isso, parece que não.

Vocês vão procurar a Justiça?

A gente está estudando um pouco mais o caso, mas acredito que, no fim, isso vai acontecer. Precisamos estreitar bem a linha de raciocínio e ver qual é a melhor maneira para ter uma base sólida.

No caso do masculino, o impacto desse sistema de pontos é maior?

Todos são afetados. Um clube talvez não possa contratar um jogador de nível médio porque já estourou a somatória de 40 pontos e esse atleta acaba desempregado ou tem de jogar em time menor.

 

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CBV garante que acata decisão dos clubes sobre ranking do vôlei

CEO Ricardo Trade alega que não entidade tem juízo de valor sobre o sistema

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2017 | 17h00

Diante da insatisfação dos atletas, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) alega que não tem juízo de valor sobre o ranking e que se limita a respeitar a decisão tomada pelos clubes nas reuniões. 

"A gente não tem opinião formada sobre o ranking, nós estamos cumprindo regras. O ranking é estabelecido pelos clubes e a CBV acata, como acata outras coisas que são discutidas na plenária democraticamente", afirma Ricardo Trade, CEO da CBV.

O dirigente ressalta que o êxodo de algumas brasileiras foi opcional. "Tem jogadoras que não ficaram no Brasil porque a proposta de fora foi muito maior do que a daqui e elas optaram por ir (para o exterior). Clubes brasileiros que tinham condições de pagar bons salários fizeram boas propostas. Isso é livre mercado", justifica. 

No entanto, ele desconversa quando o assunto é equilíbrio na quadra. No masculino, o Sada Cruzeiro conquistou o tetracampeonato da Superliga em 2016. Já os times femininos de Rio e Osasco são soberanos há mais de uma década. "Não posso dizer que o ranking tenha trazido ou não equilíbrio, posso dizer que desde muito tempo a Superliga tem sido um sucesso. Nós temos bons resultados internacionais, não é possível que nossa competição seja tão ruim assim."

Trade lamenta a falta de diálogo entre as partes, acha "justo" que os atletas se juntem para reivindicar, mas reconhece que a discussão na esfera jurídica tem um viés negativo para a entidade. "Nunca é bom que o vôlei brasileiro seja palco dessas discussões. A gente preferia que isso não ocorresse, mas estamos prontos para nos defender."

 

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