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Medalhista olímpico, Xandó agora ataca a favor da inclusão no vôlei

Conhecido pelos ataques potentes e precisos quando jogava, hoje ele é o coordenador das seleções brasileiras de surdos

Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 05h00

Para os amantes do vôlei, o nome Xandó remete a ataques poderosos e precisos na seleção brasileira dos anos 1980. O ex-atleta foi medalhista de prata na Olimpíada de 1984, em Los Angeles, e melhor jogador do mundo em 1981. Hoje, ele ainda vive do vôlei, mas passou a associar seu nome também à inclusão esportiva e social. Desde 2014, é coordenador técnico das seleções brasileiras de vôlei de surdos.

Xandó atua em várias frentes. A primeira é um trabalho de formiguinha, como ele mesmo define, para buscar novos talentos da modalidade. Além de garimpar nas grandes competições, como as Surdolimpíadas, promove seletivas em várias cidades. A próxima será em Guarulhos, no dia 29. “Um dos nossos objetivos é despertar o interesse do surdo para participar de atividades esportivas. É importante perder o medo de sair de casa e participar da sociedade”, diz o ex-atleta, que não tem familiares ou conhecidos surdos.

FERRAMENTA

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), o País possui cerca de 10 milhões de surdos, dos quais 2,7 milhões não escutam nada. Especialistas afirmam que a falta de disseminação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e o preconceito dificultam a comunicação dos surdos, limitando a autonomia e a liberdade. Isso acontece na hora de ir ao banco, fazer compras ou pedir uma informação na rua. Por isso, Xandó diz que o esporte pode ajudar o surdo a sair de casa.

No caso do levantador João Pedro de Freitas, o JP, de 18 anos, o vôlei ajudou a identificar a própria surdez. Quando começou a jogar em Santa Bárbara d’ Oeste (SP), quatro anos atrás, ele não ouvia o que a técnica dizia. Os exames detectaram surdez progressiva nos dois ouvidos. Por indicação de amigos, conheceu a seleção brasileira de surdos. Em 26 de junho passado, dia do seu aniversário, fez o primeiro teste e passou. “Conhecer o Xandó e fazer o teste foram meus melhores presentes em muito tempo”, conta. Com aparelhos auditivos, ele também joga entre os ouvintes nas categorias de base do Vôlei Renata.

O ponta Lucas Bonalume Vieira conta que o esporte de surdos consolidou sua disciplina, foco, dedicação, além de trazer muitos amigos. “Sou ativo fisicamente hoje por causa de toda a bagagem que o vôlei me deu”, diz o atleta amador que joga no Panzzer de Novo Hamburgo (RS) e é titular da seleção brasileira.

Xandó também busca objetivos no esporte de alto rendimento. Depois de um longo processo de reestruturação, a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS) é patrocinada pelas Loterias Caixa. E os resultados começaram a aparecer: o feminino conquistou a prata no Pan-Americano de 2019; o masculino ficou em 5º lugar na última Surdolimpíada.

ZONA CINZENTA

A luta de Xandó pela inclusão está inserida no contexto do esporte internacional. Os surdos não participam nem da Paralimpíada nem da Olimpíada. De um lado, o atleta surdo não tem deficiência física, motora ou visual para entrar na Paralimpíada; d0 outro, tem dificuldade para acompanhar a dinâmica do esporte olímpico. Xandó aposta que as chances maiores de aproximação são com o esporte paralímpico brasileiro.

Por isso, os surdos disputam as Surdolimpíadas. A 24ª Summer Deaflympics (Jogos Olímpicos de Verão para Surdos) será realizada em maio, em Caxias do Sul (RS). Xandó conta que as competições têm pequenas adaptações em relação às olímpicas, como a troca de um apito por uma bandeira, por exemplo. No atletismo e na natação, sinais luminosos substituem as campainhas.

Nessa zona intermediária em que se encontram os atletas surdos, nem olímpicos nem paralímpicos, há exceções. Como a central Nati Martins. Diagnosticada com a perda auditiva nos dois ouvidos aos 4 anos, ela fez do vôlei sua história de vida. Quando tinha 14, se orgulha de contar que pegava o ônibus sozinha de Lorena a Guaratinguetá (SP) para treinar à noite três vezes na semana.

Com aparelhos auditivos, passou a atuar com os ouvintes e se tornou a primeira surda a jogar profissionalmente no País. Nati chegou à seleção brasileira e, como ela diz, conversou e sentou à mesa com pessoas que ela tanto admirou na adolescência. Sua última participação na equipe do Brasil foi em 2014, no Torneio de Montreaux, na Suíça. “O vôlei me proporcionou realizar sonhos”, diz a atleta de 37 anos.

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