Valéria Gonçalvez/Estadão
Carlos Luiz Mossa, João Gabriel e Vera Mossa Valéria Gonçalvez/Estadão

Carlos Luiz Mossa, João Gabriel e Vera Mossa Valéria Gonçalvez/Estadão

Mossa, o clã com esporte no sangue em três gerações de craques

Filha de um recordista no atletismo, Vera brilhou no vôlei e hoje se orgulha do filho Bruninho; e o sobrinho João segue os passos

Alessandro Lucchetti, especial para o Estado , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Carlos Luiz Mossa, João Gabriel e Vera Mossa Valéria Gonçalvez/Estadão

As gerações mais novas que apreciam o vôlei não conhecem Vera Mossa. Era ponteira de talento evidente, tanto que participou da Olimpíada de Moscou antes de jogar um Sul-Americano adulto, com 16 anos incompletos. Muitos anos depois, a outrora poderosa atacante, que na seleção dividia com Isabel o papel de derrubar bolas na quadra adversária, pegou-se ajoelhada no chão da sala. Quando viu o filho Bruninho entrar na quadra de um Maracanãzinho barulhento, dividido entre vaias e aplausos, na estreia da seleção nos Jogos Pan-Americanos, pôs-se a rezar.

Recuperemos o contexto: Ricardinho havia sido cortado pelo técnico Bernardinho poucos dias antes do início do Pan do Rio, devido a sérias desavenças, relacionadas a indisciplina e a questões financeiras. A versão de que o treinador havia feito uma manobra para se livrar do melhor levantador da Liga Mundial daquele ano, 2007, foi comprada por muitos torcedores. Bruno era o terceiro levantador da seleção, e foi chamado para ser o reserva de Marcelinho Elgarten, promovido a titular com o afastamento do craque.

Os torcedores que apuparam imaginavam que Bernardinho havia feito o que fizera para proteger o filho. A atitude do comandante da seleção e dos atletas, todos recusando-se a esclarecer o caso, não contribuiu para que a verdade viesse à tona.

Bruninho havia entrado para sacar. Vera, que tem em casa uma pequena imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, pediu aos céus para que ele não errasse, e o serviço foi muito bem executado. Muita água correu pelo Rio Maracanã desde então. A seleção brasileira foi campeã daquele Pan, do Mundial de 2010, prata nos Jogos Olímpicos de 2008 e 2012 e ouro nos de 2016, sempre com Bruno.

Quem vaiava não sabia que Bruno foi talhado para competir desde a infância. “Quando era criança e saíamos para comer uma pizza, ele aproveitava o tempo para nos desafiar para um jogo da velha, de palitinhos ou um jokempô (pedra, papel e tesoura). Parecia que a vida sem competição não fazia sentido para ele”, lembra Vera, com um sorriso.

Houve transmissão de DNA competitivo por diversas fontes. O avô do levantador, Carlos Luiz Mossa, foi recordista brasileiro dos 110m com barreiras, defendendo o São Paulo Futebol Clube. A marca (14s01) foi obtida na pista que circundava o gramado do Pacaembu, em 1961, e só foi cair em 1983. O barreirista estava cotado para integrar a delegação brasileira nos Jogos de Roma, em 1960, mas os critérios de convocação não eram lá muito objetivos. Como era comum na época, cartolas e seus protegidos viajavam, em detrimento de atletas.

A frustração não afastou Carlos Mossa do esporte. Depois de pendurar as sapatilhas, foi lecionar Educação Física em Casa Branca, onde conheceu a colega Maria Helena Bonetti, que nadava e jogava vôlei. Os dois casaram-se, e lá nasceram o jogador de basquete Carlos Luiz, o Mossinha, e Vera. 

Depois a família se fixou em Campinas. Mossa trabalhou por décadas na Unicamp. A família se associou ao clube Fonte São Paulo. Depois de se iniciar na natação, Vera foi para a escolinha de vôlei. O pai passou a praticar a modalidade, e disputava os Jogos Abertos e Regionais defendendo Campinas. A paixão da menina pelo esporte foi despertada em um amistoso da seleção brasileira contra a equipe japonesa da Yashica, no ginásio do Taquaral.

“Minha mãe estava trabalhando como mesária e meu pai era árbitro de linha. Vi o jogo embaixo da mesa. Tinha oito anos e fiquei encantada pelo esporte. Eu me apaixonei pelo jogo da Alena, que era capixaba. Ela era muito alta e forte, fazia os ataques mais potentes. Naquele dia, eu botei na cabeça que ia ser jogadora, e que iria ser melhor do que a Alena.”

Quando Vera tinha os seus 11 anos, a Fonte deixou de investir nas categorias de base do vôlei feminino. A promissora jogadora foi então para o Guarani, que tinha um belo trabalho nos esportes amadores. Em torno do campo do Brinco de Ouro, havia uma pista de atletismo. O Bugre também erguia taças no ciclismo. No vôlei feminino, conquistou o Troféu Eficiência. O reconhecimento é dado a um clube que é campeão estadual no pré-mirim, mirim, infantil, juvenil e adulto no mesmo ano.

O desempenho de Vera no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais chamou a atenção do técnico Ênio Figueiredo, que a convocou para a Olimpíada de Moscou. “Eu ainda tinha 15 anos de idade. Nunca tinha saído do Brasil. Nos Jogos, fiz apenas uma passagem de rede, e logo contra Cuba”, diverte-se a ex-ponteira. Uma vitória sobre a Rômenia, por 3 a 0, evitou que o Brasil terminasse o torneio na oitava e última posição.

A voz mansa e o jeito pacato encobrem determinação e tenacidade incomuns. Vera recorda que havia “previsto” sua presença nos Jogos disputados na União Soviética. “Eu estava assistindo à cerimônia de encerramento dos Jogos de Montreal. Como sempre, eles fazem uma prévia do que será a edição seguinte do evento. Quando vi o ursinho Misha (mascote dos Jogos de 80), disse ao meu pai que iria para a ‘Olimpíada do Misha’. Ele disse que eu ‘tava’ maluca.”

Com o tempo, Vera foi tomando seu espaço na seleção. A excursão ao Japão, em 1983, foi fundamental. “Lembro que o Ênio precisava de uma ponta que passasse bem. A Fernanda não era boa nesse fundamento. A Helga era, mas não estava passando nada. O treinador me mandou entrar e disse que aquela era minha chance. Eu treinava muito passe, passe, passe. E me tornei uma das primeiras ponteiras-passadoras. Era uma qualidade rara na época.”

Herdeiro

Em 1984, ano em que disputou os Jogos de Los Angeles, Vera começou a namorar Bernardinho, reserva de William no time da geração de prata (no Mundial da Argentina-82 e na Olimpíada de Los Angeles). Fruto desse relacionamento, Bruninho nasceu em 1986.

O relacionamento durou nove anos. Ao longo de sua infância e adolescência, Bruno viveu alguns períodos no Rio e outros em Campinas. Iniciou-se na escolinha de vôlei do Fluminense, mas também se desenvolveu nas categorias de base do Fonte São Paulo, clube no qual descobriu o badminton. Em Campinas, o avô o ajudava a ficar sempre perto de uma bola.

“O Bruno nasceu fazendo esporte. Se quisesse ter sido jogador de futebol, teria sido, e dos bons. Eu o levava para bater bola no Centro Esportivo do Careca. Houve um tempo em que jogou tênis. Teve uma fase em que jogou basquete no Regatas, e também era bom.” Estranhamente, o ídolo futebolístico de Bruno, que era meia, foi Dunga.

Foi o pai, Bernardinho, que pediu para o garoto escolher entre o badminton e o vôlei. Às vezes os calendários das duas modalidades se embaralhavam. Se continuasse a correr atrás da peteca, a performance no vôlei poderia cair. Foi uma escolha difícil. Aos 12 anos, ele se tornou o primeiro brasileiro a conquistar um título pan-americano no badminton – o da categoria infanto-juvenil.

“Quando chegou a hora de escolher, optei pelo vôlei, por considerar que é o esporte no qual tenho mais talento. Mas o badminton ajudou bastante na minha formação. Trabalha-se muito a velocidade com os pés, porque é um jogo veloz. Preciso muito disso para chegar nas bolas, porque tenho que estar equilibrado para levantar. E o badminton me ajudou também a defender, a alcançar as bolas mais longas e as largadas”, diz Bruno, por telefone, da Itália – ele hoje defende o Lube Civitanova, pelo qual foi campeão italiano, da Champions League e do Mundial de clubes.

Bruninho, o mais consagrado dos Mossa, torce agora pelo sucesso do primo João Gabriel, que tem 19 anos, ainda está no juvenil e hoje é o terceiro levantador do Vôlei Renata, de Campinas. “Eu vi o João jogar pela primeira vez contra o Sesi, e gostei. É um levantador alto (1,93m), o que é importante no vôlei atual. O toque dele é muito mais limpo e plasticamente melhor do que o que eu tinha na idade dele (Bruno tem 33 anos). É um cara preciso. Acho apenas que ele precisa ser um pouco mais duro com os colegas. É um garoto muito tranquilo e gente boa, mas no vôlei às vezes precisamos ser chatos e exigentes para tirar o melhor dos nossos companheiros em quadra.”

Dedicado, João ouve os conselhos de Bruninho e as opiniões contundentes do avô, “corneteiro” assumido de todos os atletas da família. E procura desfrutar da amizade com Bernardinho, que a família preservou, a despeito da separação entre ele e Vera. No final do mês, planeja ir a Valinhos, onde o time de Bernardo, o Sesc-RJ, vai enfrentar o Vôlei Renata, para bater um papo com o treinador.

Dentro de quadra, a referência é o primo. “Se existe alguém para me inspirar, é o Bruno. Ele tem uma característica de liderança espetacular. É um excelente levantador, mas o que mais admiro é o senso de defesa dele. O que o bicho defende é impressionante”, diz o mais jovem dos Mossa, que sonha ampliar a longa lista de façanhas esportivas da família.

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Técnico Renan ainda não é unanimidade na família Mossa

Comandante da seleção de vôlei é elogiado por Bruninho, mas seu avô acha que ‘está faltando alguma coisinha’

Alessandro Lucchetti, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 04h31

Não fazia parte dos planos de Bernardinho ter Renan como seu sucessor no comando da seleção brasileira de vôlei. Os dois são amigos, mas o ex-treinador da seleção havia preparado Roberley Leonaldo, o Rubinho, para assumir o cargo depois que o deixasse. Em entrevistas, o próprio Bernardinho já declarou que não pensava em Renan, porque havia passado para a função de dirigente. Ressaltou, no entanto, que o colega de tantos anos terá todo o seu apoio.

O desempenho da seleção deixou a desejar na opinião dos críticos mais severos em alguns momentos, como no da sofrida classificação para Tóquio, com vitória por 3 a 2 sobre a Bulgária arrancada a fórceps. Mas a conquista da Copa do Mundo, no final de 2019, no Japão, despertou otimismo quanto às chances do bicampeonato olímpico.

O clã Mossa se divide quanto ao trabalho de Renan. Bruninho elogiou algumas mudanças promovidas pelo novo treinador. Uma das principais foi sacrificar o potencial ofensivo de Lucarelli, que assumiu maior responsabilidade no passe, para aproveitar o impressionante poder de ataque do cubano naturalizado brasileiro Leal.

“O Renan colocou na cabeça do Lucarelli que ele será fundamental como passador, e ele teve a generosidade e a boa vontade de aceitar esse papel”, diz.

O “corneta mor’’ da família, Carlos Luiz Mossa, não está totalmente convencido com Renan. “Estou curtindo a seleção, mas parece que está faltando alguma coisinha. O Bernardo indicou o Rubinho, mas os caras da CBV não quiseram. A gente não sabe direito o que corre lá na Confederação”, observa o avô de Bruninho.

Renan ainda não tem uma trajetória como técnico de clubes digna de cair o queixo de quem acompanha o vôlei. Mesmo comandando um supertime, o Olympikus, no final dos anos 90 (com Giba, Nalbert, Carlão e Mikinkovic), foi superado na final do Campeonato Paulista pelo Suzano, uma equipe inferior. Na Superliga, o time de medalhões foi batido pela Ulbra.

De qualquer maneira, Bruno aposta nas chances da seleção brasileira em Tóquio, mesmo antecipando que o nível do torneio será muito parelho. “O vôlei vive um momento de extremo equilíbrio. Temos seis candidatos a medalha de ouro (Polônia, Brasil, Estados Unidos, Rússia, França e Itália). Serão duas semanas de muito foco, concentração e luta. A gente acredita que pode chegar lá, confiamos nas nossas possibilidades, mas dependemos de vários fatores”, analisa o levantador.

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Alessandro Lucchetti, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 04h31

Não fazia parte dos planos de Bernardinho ter Renan como seu sucessor no comando da seleção brasileira de vôlei. Os dois são amigos, mas o ex-treinador da seleção havia preparado Roberley Leonaldo, o Rubinho, para assumir o cargo depois que o deixasse. Em entrevistas, o próprio Bernardinho já declarou que não pensava em Renan, porque havia passado para a função de dirigente. Ressaltou, no entanto, que o colega de tantos anos terá todo o seu apoio.

O desempenho da seleção deixou a desejar na opinião dos críticos mais severos em alguns momentos, como no da sofrida classificação para Tóquio, com vitória por 3 a 2 sobre a Bulgária arrancada a fórceps. Mas a conquista da Copa do Mundo, no final de 2019, no Japão, despertou otimismo quanto às chances do bicampeonato olímpico.

O clã Mossa se divide quanto ao trabalho de Renan. Bruninho elogiou algumas mudanças promovidas pelo novo treinador. Uma das principais foi sacrificar o potencial ofensivo de Lucarelli, que assumiu maior responsabilidade no passe, para aproveitar o impressionante poder de ataque do cubano naturalizado brasileiro Leal.

“O Renan colocou na cabeça do Lucarelli que ele será fundamental como passador, e ele teve a generosidade e a boa vontade de aceitar esse papel”, diz.

O “corneta mor’’ da família, Carlos Luiz Mossa, não está totalmente convencido com Renan. “Estou curtindo a seleção, mas parece que está faltando alguma coisinha. O Bernardo indicou o Rubinho, mas os caras da CBV não quiseram. A gente não sabe direito o que corre lá na Confederação”, observa o avô de Bruninho.

Renan ainda não tem uma trajetória como técnico de clubes digna de cair o queixo de quem acompanha o vôlei. Mesmo comandando um supertime, o Olympikus, no final dos anos 90 (com Giba, Nalbert, Carlão e Mikinkovic), foi superado na final do Campeonato Paulista pelo Suzano, uma equipe inferior. Na Superliga, o time de medalhões foi batido pela Ulbra.

De qualquer maneira, Bruno aposta nas chances da seleção brasileira em Tóquio, mesmo antecipando que o nível do torneio será muito parelho. “O vôlei vive um momento de extremo equilíbrio. Temos seis candidatos a medalha de ouro (Polônia, Brasil, Estados Unidos, Rússia, França e Itália). Serão duas semanas de muito foco, concentração e luta. A gente acredita que pode chegar lá, confiamos nas nossas possibilidades, mas dependemos de vários fatores”, analisa o levantador.

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