Agência i7/Sada Cruzeiro
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No vôlei, o Cruzeiro que dá certo: 37 troféus em 50 campeonatos

Equipe mineira se sagrou hexacampeã sul-americana e lidera a Superliga Masculina

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 15h00

Enquanto o futebol masculino do Cruzeiro foi rebaixado à Série B do Campeonato Brasileiro e acumula dívidas de R$ 262 milhões, o vôlei masculino do clube conquista um título atrás do outro. No último final de semana, o Sada Cruzeiro se tornou heptacampeão sul-americano. Desde 2010, o time disputou 50 campeonatos, chegou a 44 finais e conquistou 37 troféus. O Cruzeiro que vem dando certo nos últimos anos é o do vôlei.

Com os sete títulos continentais (2012, 2014, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020), a equipe celeste disparou na galeria histórica de troféus. Banespa e Paulistano ganharam cinco vezes cada nas décadas de 1970 e 1990, respectivamente. A conquista do Sul-Americano foi a terceira taça da temporada – o time já havia conquistado a Copa Brasil e o Campeonato Mineiro. Além disso, o time é hexacampeão da Superliga e lidera a edição atual.

Para o ponta Filipe, único remanescente desde a criação do time em 2010, a manutenção de uma espinha dorsal foi fundamental para o início da hegemonia. “Mantivemos a nossa base por quatro ou cinco anos. Isso foi muito importante para o início desse período de conquistas”, diz o atleta de 39 anos.

Em 2009, o Sada Betim Vôlei se uniu ao Cruzeiro Esporte Clube e passou a se chamar Sada Cruzeiro Vôlei. O histórico de conquistas do clube começou logo no ano seguinte, em 2010, quando conquistou seu primeiro título mineiro, desbancando o hegemônico Minas Tênis Clube, e chegou em quarto lugar na Superliga, temporada 2009/10.

As conquistas seguintes, ainda na opinião de Filipe, foram consequência da criação de uma mentalidade vencedora. O ponto de partida para os títulos internacionais foi a decisão do Mundial em Dubai, em 2011, diante do Trentino, da Itália. “A partir daquele jogo, nós descobrimos que era possível vencer as principais equipes do mundo”, afirma.

O treinador Marcelo Mendez é um dos principais responsáveis por essa era de ouro. São dez anos e 35 títulos à frente do clube brasileiro. Natural de Buenos Aires, Mendez concilia o comando da equipe com o da seleção de seu país, que se classificou para os Jogos de Tóquio. “Temos uma vontade grande de vencer, melhorando a cada dia”, completa o treinador que coordenou que já treinou a seleção da Espanha, clubes italianos e os argentinos River Plate e Daom.

O clube vai bem inclusive fora de quadra. A associação entre futebol e esporte olímpico serviu para aumentar o público nas quadras, o que se reflete em ginásios cheios e grande apoio dos torcedores que costumam ir aos estádios.

A presença de um patrocinador forte – o Grupo Sada é referência na América Latina em transportes e armazenagem, além de atuar em vários setores da economia – ajuda a manter as contas em dia e trazer jogadores de ponta. O Estado apurou que os investimentos anuais já chegaram a R$ 10 milhões por ano, valor comparável a um clube médio da Europa.

Quando Vittorio Medioli, empresário italiano fundador do time e presidente do Grupo Sada, decidiu investir no vôlei, em 2006, a sua intenção era usar o esporte tentar mudar a vida de jovens carentes em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. A opção pelo vôlei era uma saudade da infância dele e do irmão, Alberto, que acompanharam a criação do Parma, que se tornaria esquadrão italiano.

O empresário revela que a queda dos investimentos não comprometeu o sucesso do projeto. “Nos últimos três, anos o investimento diminuiu em valores, mas não se perdeu eficiência. Tivemos que ceder atletas que estavam fora da nossa possibilidade de serem mantidos, mas sempre preenchemos com novidades à altura”, diz Medioli, que também é prefeito de Betim. “As empresas do Grupo Sada emprestaram seus princípios e experiências de sucesso a este projeto”, diz o fundador.

A saúde financeira do time azul faz contraste com o cenário de dificuldades estruturais do vôlei brasileiro. Equipes como Maringá e Taubaté, por exemplo, estão com salários atrasados há três meses. No caso do time paranaense, os jogadores estão sendo obrigados a se desfazer de seu patrimônio para custear as despesas pessoais. O líbero Daniel Rossi vendeu seu Gol prata 2010 para ajustar as dívidas do cartão de crédito.

O Sada Cruzeiro, no entanto, não é imbatível. No Mundial de Clubes, disputado em dezembro, a equipe foi derrotada pelo Lube Civitanova, da Itália. Ficou com o vice. Na atual edição da Superliga, o time caiu uma vez em 16 jogos. O time passou por momentos de instabilidade com as mudanças no elenco. Em 2018, o ponteiro cubano Leal, um dos destaques da equipe, decidiu atuar na Europa e foi para o Civitanova, da Itália, depois de seis anos em Minas Gerais. Outro craque do time, o central Robertlandy Simon, também deixou a equipe. O substituto de Leal, o norte-americano Taylor Sander, ficou metade da temporada e foi para a Rússia.

Nesta temporada, a equipe vive uma reformulação profunda. São sete novos nomes no elenco, com quatro deles no time principal: o líbero Lukinha, os ponteiros Gord Perrin e Facundo Conte e o central Otávio. “Quando perdemos uma peça, é preciso encontrar outra que corresponda. Esse é um fator importante. Além de bons jogadores, é preciso trabalho, conhecimento e aperfeiçoamento”, avalia Marcelo Mendez.

ENTREVISTA - Vittorio Medioli - presidente do Grupo Sada

Quais são os principais fatores que levam o Cruzeiro a acumular tantos títulos nos últimos anos?

Uma gestão competente, planejamento de longo prazo, desenvolvimento do potencial dos atletas, inovação e aprimoramento constante, num clima de seriedade e honestidade. O nosso projeto Associação Social e Esportiva Sada nasceu com a finalidade social de formação de jovens. E ele cresceu, agregando valores e diferentes modalidades, mas segue especialmente focado no vôlei, que hoje, além do time profissional e das nossas categorias de base, ainda movimenta cerca de 2000 alunos que recebem aulas de voleibol gratuitamente em projetos sociais que apoiamos.

Qual é a forma de gestão do clube atualmente?

As empresas do Grupo Sada emprestaram seus princípios e experiências de sucesso a este projeto. O esporte é mais uma atividade levada a sério e sem fins lucrativos. Aprendemos muito em 14 anos, sempre procurando ampliar os nossos objetivos.

Como está a situação financeira?

Sob controle e cumprindo pontualmente nossas obrigações. A cada ano se prospecta um orçamento com base na disponibilidade dos recursos e receitas. Nos últimos três, anos o investimento diminuiu em valores, mas não se perdeu eficiência. Tivemos que ceder atletas que estavam fora da nossa possibilidade de serem mantidos, mas sempre preenchemos com novidades à altura e seguimos como um projeto vitorioso, com a mesma filosofia dos últimos anos.

Quais os principais objetivos para 2020?

Pelo retrospecto e pelos resultados, dizem que somos o clube mais bem-sucedido da história do vôlei mundial. Nós gostamos de vencer, de fazer sempre o nosso melhor. Mas não é possível ganhar tudo. Já ganhamos três títulos nesta temporada e somos vice-campeões do disputadíssimo Mundial. Ainda tem a Superliga, que sempre foi uma grande meta, e que conta também com outros fortes candidatos ao título.

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