Neide Carlos/Vôlei Bauru
Neide Carlos/Vôlei Bauru

Números de Tifanny, primeira trans na Superliga, provocam debates

Atleta do Vôlei Bauru bate o recorde de pontos e chama atenção por sua boa estatística no ataque

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2018 | 07h02

Com sete partidas na Superliga feminina de vôlei, Tifanny Abreu, do Vôlei Bauru, vem se destacando nas quadras e chamando muita atenção fora delas por causa de sua condição de ser a primeira atleta transexual a atuar na competição. Na terça-feira à noite, ela anotou 39 pontos diante do Dentil Praia Clube e bateu o recorde de pontos do torneio.

+ DEBATE - Veja opiniões distintas sobre a presença de Tifanny na Superliga feminina de vôlei

A marca anterior pertencia a Tandara, mas foi destronada por Tifanny. Não demorou para que o debate sobre se uma atleta trans, que nasceu homem, levaria vantagem sobre atletas nascidas mulheres. E a polêmica deve continuar nos próximos dias, ainda mais se Tifanny continuar com sua boa média de pontos por partida.

A central Angélica, capitã do Bauru, dá apoio total para que sua companheira brilhe na quadra. “A Tifanny está fazendo história no vôlei brasileiro e estar com ela na quadra num momento tão especial como esse é fantástico e impressionante. Eu acho que ela já está muito à vontade com a equipe e crescendo a cada jogo. Seremos sempre as primeiras a apoiá-la e tenho certeza que ela sabe disso.”

Até agora, em sete rodadas da Superliga, ela já anotou 160 pontos, uma média de 22,85 por partida. No mesmo período de competição, Bruna Honório, do Pinheiros, marcou 124 pontos enquanto Tandara fez 110, mas com uma partida a menos. E Edinara, do Hinode Barueri, tem 90 pontos nessas sete rodadas. As quatro são as principais pontuadoras do torneio.

Os números chamam a atenção, mas Tifanny também mostra deficiências no ataque. Os 39 pontos feitos na última partida saíram de 75 ataques, ou seja, ela teve 44% de acerto. Na mesma rodada, Tandara fez 15 pontos, mas com 56% de eficiência. E Bruna marcou 33 pontos, com 46% de acertos.

Para além das estatísticas individuais, as atletas sabem que se trata de um esporte coletivo e que sozinhas não conseguirão levar suas equipes ao título. Bruna reforça isso. “Na verdade, a questão da pontuação para mim é como um ‘bônus’ durante a temporada. O objetivo principal não é só fazer o maior número de pontos, mas sim ajudar a minha equipe de forma geral e tentar fazer bons jogos. Quando isso acontece, e de quebra eu ainda consigo atingir uma pontuação alta, além de ficar muito feliz, me sinto mais motivada”, comenta Bruna.

A jogadora do Pinheiros não vê uma rivalidade com Tifanny ou qualquer outra adversária pelo posto de maior pontuadora. “Não encaro que seja uma disputa minha com outras jogadoras, mas sim uma vontade de querer me superar cada vez mais. O que está em jogo não é necessariamente a posição de maior pontuadora, mas sim o título da Superliga. Claro que para mim o fato de estar entre as maiores pontuadoras da temporada é bastante gratificante.”

Nesta sexta-feira, em Osasco, Tifanny estará em quadra contra o Vôlei Nestlé. O debate vai continuar, mas até agora impera a decisão do COI, que permite que ela jogue. Após os Jogos de Inverno, a entidade vai divulgar novas diretrizes para o tema.

TRAJETÓRIA

Nascida em Conceição do Araguaia, no Pará, Tifanny Abreu era Rodrigo até pouco tempo atrás e chegou a disputar as ligas masculinas de vôlei. Em 2015, completou o processo de transição de gênero e agora, aos 33 anos, está liberada para jogar profissionalmente.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) estabelece que um atleta trans não precisa ter feito a cirurgia para mudança de sexo, apenas que o nível de testosterona fique abaixo de 10 nmol por litro de sangue, no caso das disputas femininas. Tifanny mantém a taxa em 0,2 nmol por litro.

A polêmica tem sido grande e até por isso muitos atletas, técnicos e dirigentes têm evitado falar sobre o assunto. Alguns especialistas já declararam que ela perdeu força, velocidade e resistência, mas outros colocam que o corpo dela foi moldado até os 30 anos com muita testosterona e isso seria uma grande vantagem agora.

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