Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

‘No COB, não vai passar nada que eu não saiba’, diz Paulo Wanderley

Dirigente assumiu entidade em meio à crise que envolve Carlos Arthur Nuzman e promete administrar com total transparência

Entrevista com

Paulo Wanderley

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 07h01

Novo presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Paulo Wanderley Teixeira era vice de Carlos Arthur Nuzman, que renunciou este mês para se defender de participação em suposto esquema de compra de votos para o Rio de Janeiro sediar os Jogos Olímpicos do ano passado. A passagem de bastão não teve nenhuma pompa, já que se resumiu a uma transmissão automática assim que Nuzman assinou sua carta de renúncia de dentro da prisão – ele agora está em liberdade.

COB estima maior repasse às confederações

Com a decisão da Justiça de proibir o ex-cartola de se comunicar com qualquer membro do COB, Paulo Wanderley tem caminho aberto para modificar a estrutura montada por Nuzman ao longo de 22 anos de presidência. Ao assumir a entidade este mês, Paulo Wanderley Teixeira elogiou o antecessor, mas em seus primeiros dias já dá mostras de que algumas coisas vão mudar.

Ao Estadão, o novo presidente disse que “não sabe se o COB gasta muito”, mas está trabalhando em corte de custos. O mais vistoso será a mudança da sede da entidade de um prédio exclusivo na Barra da Tijuca para o Parque Aquático Maria Lenk, junto ao Parque Olímpico. A economia será próxima de R$ 4,5 milhões/ano.

O corte de custos deverá atingir todas as áreas, inclusive um dos principais eventos organizados pela entidade, o Prêmio Brasil Olímpico. O COB chegou a cogitar o fim da premiação, que acontece anualmente desde o início do século, mas decidiu mantê-la com alguns ajustes. “Vamos fazer de uma forma mais realista”, assegurou Paulo Wanderley, informando ainda que ela acontecerá em março do próximo ano.

O dirigente também revelou que irá fazer mudanças no quadro de pessoal da entidade. “Fatalmente, em função do que está sendo posto, poderá haver, sim, algumas mudanças. Mas não é pra já”, sustentou. “Provavelmente no mês que vem já teremos alguma coisa.”

Sobre o diretor executivo de Esportes, Agberto Guimarães, Paulo Wanderley elogiou o trabalho, mas fez uma ressalva: “o Agberto é um dos grandes quadros profissionais do comitê olímpico, é um patrimônio do esporte nacional. Mas carta-branca não tem pra ninguém”.

O senhor assumiu o COB em meio a uma investigação, com o Nuzman preso e com a Polícia Federal fazendo buscas na sede do comitê. Como encontrou o ambiente?

Eu já estava dentro do COB, mas naquele dia, especificamente, não. Evidentemente que uma notícia dessas não é do agrado de absolutamente ninguém. Mas o que eu constatei é que aquilo que o COB sabe fazer melhor, que é fomentar o esporte, tratar o esporte como ele tem que ser tratado, estava funcionando. Não parou de funcionar nada. Os projetos que estavam em andamento continuaram à frente, aquilo que estava chegando de demanda continuou a ser atendido. Sua atividade básica e precípua não sofreu nenhum tipo de interrupção ou continuidade. Essa foi minha visão. A gente observa o esporte.

O senhor já conseguiu se inteirar de tudo o que está acontecendo aqui?

Desde que assumi a vice-presidência, eu vinha numa postura de entender o funcionamento. A organização é grande, tem 100 anos, mais de 100 anos. Eu vinha de uma estrutura grande de confederação, uma das maiores do País, a Confederação Brasileira de Judô (CBJ), e tinha uma noção. O que acontece lá acontece aqui também, são os mesmos objetivos, só que aqui o volume é muito maior. Eu vinha fazendo o trabalho de relacionamento com as confederações, e brincando com o pessoal aqui eu dizia ‘hoje eu quero ler uma página do manual’. Quando você recebe um equipamento novo, para aprender tem que ler o manual. Eu vinha lendo o manual com o tempo que me era dado, já vinha atuando nesse sentido. Eu não tinha poder decisório, mas (buscava) o conhecimento que era necessário. Estou ainda nesse processo, adiantado, acelerado, mas estou nesse processo ainda.

E dentro desse processo, o que o senhor percebeu que tem que ser seu principal foco de preocupação?

Está dentro daquilo que eu já defini que são as palavrinhas-chaves a se tratar. A transparência, e acho que isso já está sendo feito. A gente tem procurado pessoas, órgãos, instituições, para tratar e demonstrar o que estamos fazendo. As pessoas não sabem o que a gente faz. As próprias instituições esportivas não têm noção do trabalho desta organização aqui, do que ela produz. Todo mundo liga só a imagem à competição, Olimpíada, Jogos Pan-Americanos, mas não, tem trabalho interno, trabalho de preparação de técnico, de atleta. Transparência tem que ser jogada para fora em todos os níveis. Mérito, ou meritocracia, tem que trabalhar com esse objetivo, de valorizar quem busca o conhecimento, quem está atrás do resultado. A gente está com essa visão de premiar a conquista de seus propósitos, e isso foi mostrado na última exposição que nós fizemos (plano de distribuição de recursos da Lei Agnelo-Piva, apresentado na terça-feira). E controle de gastos e otimização de recursos. É nessa linha que estamos andando, já estamos implementando, já está funcionando.

Transparência, mérito e austeridade. Desses três, o que o senhor considera que é o mais difícil?

Eles caminham juntos. Não adianta você ter austeridade se você não está se comunicando, se você não sabe o que se está fazendo. A pessoa tem que saber. O mérito é implícito do esporte. O que o comitê olímpico trata? É de alto-rendimento, resultado. Tem que ter meta, tem que ter resultado. As três são interligadas e interdependentes. O que hoje se procura mais, se exige mais, que é mais visível, é a transparência.

O COB gasta muito?

Não sei isso ainda, tenho que estudar melhor pra dizer isso pra você. Gastar muito é relativo. O que é gastar muito para uma federação, para um governo? Tem resultado? De repente o que ele gasta é muito numericamente, mas os resultados justificam.

Na apresentação sobre os planos para distribuição dos recursos da Lei Agnelo-Piva do próximo ano, uma rubrica previa investimento menor, justamente aquela que trata dos gastos do próprio COB. Como reduzir o custeio?

Na austeridade. Vamos gastar dentro do que é possível. Vou lhe dar um exemplo, uma informação que ainda não demos publicamente, que é o PBO (Prêmio Brasil Olímpico). Um exemplo dessa questão de austeridade, de controle interno, é o PBO. É um evento que ocorre há 16 anos, de premiação do mérito dos atletas, e nós estamos dentro de um dilema. Vamos cortar a hora de o atleta receber os seus louros fora das quadras, dos tatames? É difícil, mas podemos gastar esse orçamento? Não, não podemos. Aí veio o consenso, dentro da questão da austeridade: vamos fazer, mas dentro da nossa realidade atual. Vai ser feito, sim, vai acontecer, mas de uma forma mais realista.

Vai ser ainda este ano?

Não, vai ser em março do ano que vem.

Como aconteceu este ano...

Exato, e acho que é uma coisa bem razoável, porque você termina o ano completo. Você pode estar em dezembro (mês em que tradicionalmente acontecia a premiação) com competições ainda acontecendo. Como tudo acontece, o ano fiscal é de janeiro a dezembro, eu acho razoável nós pensarmos em manter esta data de março. Este está definido que vai ser em março dentro dessas condições.

A mudança da sede do COB para o Maria Lenk já era prevista ou foi ideia do senhor?

Não, foi dentro do plano de austeridade.

Tem ideia de quanto vão economizar?

Em torno de R$ 4,5 milhões por ano. Envolve não só questão de aluguel, mas tem também serviços, a manutenção aqui é muito maior, segurança, enfim, tem algumas rubricas paralelas. O montante é uma economia saudável, necessária sob o ponto de vista de custo. E também tem que estar junto com o esporte, não cabe mais a administração estar aqui, apartada. Lá já está funcionando.

A intenção é mudar quando?

É aquela coisa: você tem a ideia, tem a vontade, mas não é só em função disso. O projeto já está finalizado, faltam ajustes, quem fica aonde, em que posição. Tem uma parte de obras, tem que fazer alguns ajustes, mas não tem nada de construção grande, não vamos botar abaixo e construir nada. Vamos utilizar e otimizar o que a gente já tem. Esse projeto de execução, planejamento, mudanças e obras, está se prevendo, a partir do momento que assinar o contrato, em torno de nove meses. É um parto.

Metade do ano que vem, segundo semestre...

É, segundo semestre do ano que vem. Não pode passar disso.

O senhor pretende manter todos os diretores e gerentes do COB?

Olha... Fatalmente, em função do que está sendo proposto, poderá, sim, haver algumas mudanças. Mas não é pra já.

“Não é pra já” tem um prazo?

Pra já seria este mês, não vai acontecer nada assim. Provavelmente mês que vem já tenha alguma coisa nesse sentido. O que eu observo é que os profissionais atuantes, específicos de cada área, são extremamente competentes e capazes. São compromissados realmente. Tem que ter uma análise muito fria, mas é necessário. O corte, quando vem, não dá pra dizer ‘esta área sim, esta não’. Mas eu realmente não pensei em pessoas nem pra trazer, nem pra tirar.

Isso inclui a diretoria ligada diretamente ao esporte?

Pode, pode chegar. Diretoria, gerentes, funcionários, colaboradores. Não é uma visão focal, ela é ampla, de 360 graus.

O senhor deu carta branca ao Agberto Guimarães? Considerando, claro, que ele não seja um dos previstos para mudança...

O Agberto é um dos grandes quadros profissionais do comitê olímpico, é um patrimônio do esporte brasileiro pelo que ele fez pessoalmente pelo esporte e pelo que ele fez na trajetória de administrador esportivo. Carta branca não tem pra ninguém.

O senhor estabeleceu metas para o esporte?

Não, ainda não. Tenho que conversar com eles que estão fazendo o esporte, mas estão implícitas algumas coisas dentro daquelas palavrinhas mágicas que a gente tem falado. Materialmente, ainda não.

Quando o senhor diz que ‘carta branca não tem pra ninguém’, o quê, por exemplo, não está autorizado a se fazer de maneira total?

Talvez o termo ‘carta branca não tem pra ninguém’, ou tem para algumas pessoas, não seja a resposta apropriada, porque ainda falta conhecimento de tudo. Dentro do esporte, primeiro que não são eles que escalam as equipes. São os atletas que conquistam o direito de participar. ‘Ah, a equipe tal não vai.’ Não vou falar uma coisa dessas, porque foi o atleta que conquistou e as confederações que nos entregam as equipes delas. Nós damos condições e oportunidades. Talvez a resposta seja muito mais dependente da pergunta de o que é dar ou não carta branca. Só sei dizer o seguinte: não vai passar nada que eu não saiba – não vai passar nada que eu não saiba humanamente.

Como deverá ser a participação do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 2019?

Isso eu tenho que perguntar à assessoria responsável pela área, o planejamento estratégico, esportivo, mas com certeza vou perguntar.

Mas certamente será diferente da última edição, não? Agora tem uma questão de classificação olímpica e de redução de custos.

Cada modalidade tem uma especificidade. Tem entidades nacionais que obedecem à classificação dirigida por suas similares internacionais, que exige participação nesse ou naquele evento. Tem outras que vão direto. Diferente vai ser, com certeza, não tem como ser igual.

Voltando um pouco na questão da gestão, por que a decisão de encurtar o prazo de 90 para 45 dias para a elaboração do estatuto?

Talvez porque eu queira, de uma forma bastante pragmática, resolver a situação. Foi feita uma proposta de 90 dias, mas vamos fazer em 45 porque eu já milito há muito tempo nessa área e sei que é possível fazer. Vai ter que se fazer um esforço concentrado, e está sendo feito, as pessoas estão se reunindo, discutindo. A gente precisa não só pensar em fazer, em mudar. Tem que mudar, e o quanto antes melhor. Temos que dar respostas o mais rápido possível.

Um novo estatuto ainda este ano também é uma forma de sinalizar ao Comitê Olímpico Internacional (COI) de que está havendo uma mudança na questão da governança e, assim, agilizar o fim da suspensão imposta ao COB?

Essa atualização – na verdade eu não sei nem o termo adequado, se é um novo estatuto, uma atualização, uma reforma –, passa, sim, por uma necessidade de demonstrar ao COI que nós estamos caminhando no sentido da transparência, das boas práticas de governança, tudo que está se exigindo mais do esporte hoje.

A suspensão cai ainda este ano?

Pela minha vontade ela cairia amanhã, mas não vai depender de mim, depende do executivo do COI. O que eu posso dizer é que estamos em contato e estamos bastante avançados.

Na opinião do senhor, qualquer pessoa deveria ter o direito de concorrer à presidência do COB?

Isso é motivo de propostas no reformado, revitalizado estatuto. Me fizeram uma pergunta recentemente sobre qual minha opinião a respeito, e eu disse o seguinte: a composição da comissão (de reforma do estatuto) foi indicação, aprovação e eleição. Há pessoas assessorando. Eu não queria dar opinião, porque qualquer opinião que eu der poderia direcionar uma linha de ação, e eu não quero interferir nesse estudo. Eu confio nas pessoas que foram eleitas pra isso.

Mas o senhor já disse, por exemplo, que considera que as condições impostas hoje para se inscrever uma chapa devam ser menos duras...

Sim, nisso eu concordo. Menos tempo, menos pessoas indicando a chapa – eram dez confederações e seis meses de antecedência. Eu já demonstrei na prática, é só pesquisar o estatuto lá na confederação (CBJ). O atletismo tem um estatuto supermoderno. Não é padrão, e se foi vai ter que mudar.

Vamos ter uma eleição para vice?

Sim, tem que ter. De acordo com o atual estatuto, a “x” tempo do término do mandato não seria necessário, mas é início de mandato e é necessário fazer uma eleição.

O senhor comandou a CBJ por 16 anos e conhece seus pares de outras confederações. Eles são abertos a mudanças?

Posso dizer que, na atualidade, há uma sensibilidade para mudanças. Eu já vinha conversando com eles há algum tempo sobre a necessidade de se ajustar à modernidade administrativa. Posso dizer que há uma simpatia da maioria deles nesse sentido, mas não posso afirmar que este ou aquele ou quantos são favoráveis a mudanças. No geral, o ambiente é propício.

O que fará o senhor ter o sentimento de dever cumprido ao final do mandato?

O mesmo sentimento que eu não consegui na Confederação Brasileira de Judô: tornar autossustentável. Consegui fazê-la mais equilibrada, não dependente na sua totalidade de recursos públicos, não dependente exclusivamente de um patrocinador. Foram avanços substanciais, mas é muito difícil conseguir, por toda a conjuntura do País. Não me sinto frustrado. Vão acontecer melhorias.

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