UFC 187 parte 3: o enigma Vitor Belfort

UFC 187 parte 3: o enigma Vitor Belfort

Vitor Belfort terá de superar neste sábado suas maiores fraquezas para derrotar Chris Weidman e conquistar o título dos médios

Fernando Arbex

22 de maio de 2015 | 13h02

Chegamos ao epílogo desta série de posts projetando o UFC 187, que será realizado neste sábado, 23, no cassino MGM, em Las Vegas. Primeiro falamos sobre a disputa pelo título dos pesos meio-pesados do Ultimate, que consagrará um entre Anthony Johnson e Daniel Cormier como o sucessor de Jon Jones. O assunto em seguida foi Chris Weidman, campeão dos médios da organização e que tem um gosto especial por derrotar atletas brasileiros. E o capítulo final começa agora, o papo será a respeito de Vitor Belfort, um controverso veterano deste breve esporte que é o MMA.

Vitor Belfort é uma charada. Crédito da foto: Andre Penner/AP

Vitor Belfort é uma charada. Crédito da foto: Andre Penner/AP

Houve um tempo em que Vale Tudo era o nome dessa modalidade que acompanhamos e seu objetivo principal era demonstrar qual arte marcial era superior. Inicialmente, a vantagem aparentou ser do jiu-jitsu, embora a amostragem para que se chegasse a alguma conclusão definitiva tenha sido pequena. Pequena porque os grandes competidores de outros esportes não se interessaram por uma atividade taxada como violenta e logo os lutadores unidimensionais do MMA preferiram aprender técnicas que complementassem suas habilidades originais.

Nesse contexto, um carioca de 19 anos chocou a todos em fevereiro de 1997, quando apresentou impressionante velocidade com suas mãos para nocautear rapidamente dois adversários no UFC 12. Não só por isso: Vitor Belfort era treinado pelo lendário instrutor de jiu-jitsu Carlson Gracie. A expectativa era de que esse jovem tentasse derrubar e finalizar seus oponentes, mas ele andava para frente alternando socos em linha reta.

Belfort estreou no Ultimate vencendo um torneio sem limite de peso (e regras, à época só era proibido dedadas no olho dos rivais) e também derrotou o folclórico “Tank” Abbott. Isso fez dele o campeão peso pesado da organização? Não, naquele mesmo evento Mark Coleman derrotou Dan Severn e se tornou o detentor do título inaugural do UFC. “O Fenômeno”, como o brasileiro ficou conhecido por suas primeiras atuações no octógono, teria a chance de disputar esse cinturão posteriormente, mas perdeu duelo eliminatório para o wrestler Randy Couture naquele mesmo ano e preferiu baixar para a categoria dos meio-pesados.

Estreia de Belfort nos meio-pesados, contra Wanderlei Silva

Belfort marcou território em sua nova divisão ao nocautear Wanderlei Silva em 44 segundos – em um evento do UFC disputado no ginásio da Portuguesa de Desportos -, depois fez algumas lutas no Pride e voltou para o Ultimate em 2002. Ele perdeu de Chuck Liddell (pouco depois de participar da Casa dos Artistas, reality show do SBT), mas na sequência venceu de forma avassaladora o irregular Marvin Eastman. Em janeiro de 2004, um mês depois de se casar com Joana Prado e ter a notícia do desaparecimento de sua irmã Priscila, “O Fenômento” derrotou Couture, que também descera de divisão e àquela altura era o campeão meio-pesado.

Esse segundo duelo entre os atletas durou apenas 49 segundos. Após acertar um soco de raspão, a costura da luva de Belfort fez um corte por dentro do olho do norte-americano, que resultou na interrupção médica do confronto e na consequente mudança de posse do cinturão. Seis meses depois, Couture venceu sem dificuldades na trilogia, o triunfo veio sobre um adversário sem muito foco e ainda abalado pelo sumiço da irmã. O brasileiro ainda viria a perder a perder quatro de seus seis combates seguintes e ser suspenso pelo uso de testosterona sintética.

Wrestler gabaritado, Couture controla o corpo de Belfort para bater

Essa retrospectiva da carreira de Belfort teve o objetivo de evidenciar suas maiores fraquezas: psicológico, defesa de quedas e testes antidoping. O veterano de 38 anos perdeu a maioria das lutas mais importantes que fez na carreira e a maior parte dos confrontos contra rivais bem ranqueados. Couture (duas vezes), Liddell, Tito Ortiz, Kazushi Sakuraba, Dan Henderson e Alistair Overeem (duas vezes) foram seus algozes em combates válidos por torneios, título ou pela possibilidade de disputar o cinturão.

Belfort se tornou um homem muito religioso e superou o desaparecimento da irmã, fatores que melhoraram em muito seu aspecto mental. Mas o que “O Fenômeno” pode mais se gabar é da grande melhora técnica de suas habilidades de 2012 para cá, fruto de seu dedicado trabalho na academia Blackzilians, no sul da Flórida. Se no início da carreira o veterano apenas andava em linha reta alternando as mãos para socar, hoje ele é mais cauteloso, movimenta-se melhor pelo octógono e tira chutes impressionantes da cartola.

O problema é que, para derrotar Weidman, Belfort terá de mostrar que superou as três adversidades citadas.  Ele de fato aparenta estar com um psicológico mais forte, mas mesmo assim teve atuações abaixo da média contra Anderson Silva e Jon Jones, em disputas de cinturão recentes. Também é difícil supor que seu wrestling defensivo esteja melhor, uma vez que Jones e Anthony Johnson foram seus rivais recentes que entraram com o plano de levá-lo para o chão e conseguiram repetidamente. Por fim, o atleta brasileiro falhou em um exame antidoping em fevereiro de 2014, por isso ele foi impedido de prosseguir com seu tratamento de reposição de testosterona (TRT) que fazia desde 2011 – o agravante é que ele não compete desde novembro de 2013.

Antes de ser finalizado, Johnson derrubou Belfort duas vezes

Belfort é azarão neste combate contra Weidman, mas ele sem dúvida tem chance de vitória. O brasileiro é um especialista em nocautear rivais no primeiro round e é aí que me mora o perigo para o dono do cinturão dos médios. Não é aconselhável para ninguém aceitar a luta em pé com o carioca nos assaltos iniciais, mas o norte-americano costuma ser imprudente e venceu Anderson Silva e Lyoto Machida dessa forma. Campeão e desafiante tem histórico de se cansar a partir da metade do combate, mas “O Fenômeno” é mais velho, está a mais tempo inativo e sua condição física sem o TRT é uma incógnita.

Com a estratégia correta, Weidman tem tudo para vencer. Ele tem ótimas técnicas de wrestling e jiu-jitsu, o que historicamente é um problema para o brasileiro. Belfort é um faixa preta legítimo, mas não se desenvolve bem quando está na posição da guarda, de costas para o chão. Mas qual Belfort vai entrar no octógono? O que quase finalizou Jones com uma chave de braço? O que chutou Henderson, Luke Rockhold e Michael Bisping na cabeça? O que parou na frente de Anderson Silva e tomou um chute frontal no queixo? Há muitas perguntas que só ele poderá responder neste sábado.

 

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