Divulgação/Maracanã
Divulgação/Maracanã

Final da Libertadores reúne 5 mil pessoas no Maracanã: infectologistas criticam iniciativa

Conmebol promete rigor com exames dos convidados, mas presença de idosos e possibilidade de aglomerações liga o alerta. Conheça o esquema montado para o jogo entre Santos e Palmeiras sábado

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 10h00
Atualizado 26 de janeiro de 2021 | 19h44

A final da Copa Libertadores no próximo sábado terá uma logística especial para Santos e Palmeiras decidirem o título. A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) elaborou um novo protocolo para a decisão e permitirá até 5 mil presentes no Maracanã, número bem acima das 350 pessoas permitidas nas fases anteriores. Todos que estiverem por lá vão ter de apresentar na entrada uma carta de comprovação de teste negativo para o novo coronavírus e passar por medição de temperatura. Os portões estarão fechados e não haverá venda de ingressos como medida de prevenção à pandemia. Dois especialistas ouvidos pelo Estadão apontam riscos em ter um público desse tamanho no estádio neste momento.

Segundo a Conmebol, a quantidade de no máximo 5 mil presentes inclui jogadores, jornalistas, comissões técnicas, funcionários da entidade, empregados do estádio, dirigentes dos clubes, autoridades, representantes de patrocinadores, convidados e familiares dos atletas. A organização da final promete respeitar as regras de distanciamento e reservar espaços de até 2 metros entre uma pessoa e outra dentro do Maracanã.

Todos os presentes estarão credenciados pela Conmebol e com o devido registro de exame negativo. O uso de máscaras será obrigatório. Os testes PCR para detecção do novo coronavírus precisam ser realizados até quatro dias antes da decisão. Funcionários que já trabalham no Maracanã para a montagem de estruturas específicas para a final e na decoração do local têm sido testados regularmente.

Os dois clubes terão delegações compostas por 55 pessoas, incluindo jogadores e membros da comissão técnica. Além disso, Santos e Palmeiras vão poder levar ao Maracanã mais 250 convidados cada um. Dessa cota, 150 credenciais foram providenciadas pela Conmebol e mais outras cem foram cedidas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Os finalistas realizaram também ações para incluir nessa lista torcedores com alta pontuação de fidelidade no programa de sócio-torcedor.

O Palmeiras levará 11 torcedores como convidados. Já o Santos vai levar 55. O clube da Vila Belmiro também vai organizar uma excursão especial com ídolos do passado. Ex-jogadores como Clodoaldo, Mengálvio, Pepe e Edu estarão presentes na cota de VIPs e vão embarcar ao Rio em um ônibus fornecido pelo clube. A viagem começa na sexta-feira à tarde. O grupo vai retornar para Santos ao fim da partida.

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Eu me sinto seguro para ir para o jogo, sim. Temos de viajar com cuidados, mas todos da organização estão muito atentos para que tudo seja obedecido. Eu não posso perder a oportunidade de levar o meu apoio ao time
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Clodoaldo, Ex-volante do Santos

"Eu me sinto seguro para ir para o jogo, sim. Temos de viajar com cuidados, mas todos da organização estão muito atentos para que tudo seja obedecido. Eu não posso perder a oportunidade de levar o meu apoio ao time", disse ao Estadão o ex-volante santista Clodoaldo, de 71 anos, idade considerada pelos médicos do grupo de risco da covid-19. "O Santos programou os testes. Amanhã (nesta terça-feira) vamos fazer o testes na Vila Belmiro, junto com todos os outros convidados", contou.

A CBF também destinou um pacote de credenciais de convidados para os jogadores que foram campeões do mundo pela seleção brasileira. Um dos que recebeu o contato e recusou a oportunidade foi o ex-goleiro Marcos, campeão em 2002 e ídolo do Palmeiras. A estimativa da entidade é que a adesão seja baixa, já que muitos desses atletas aposentados estão em idade avançada ou moram longe do Rio de Janeiro.

Em contato com o Estadão, a Conmebol garante que preparou um controle rígido para conferir os exames negativos para covid-19. A maior parte das credenciais para a decisão começa a ser entregue em mãos na quinta-feira mediante a apresentação obrigatória do teste PCR.

Um decreto semana passada do governador em exercício do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, liberou o Maracanã para receber até 10% da capacidade para a final. O número corresponde a cerca de 7,8 mil pessoas. Ainda assim, a Conmebol limitou a no máximo 5 mil presentes e avalia que a operação necessária será ainda com uma quantidade inferior a esse número. Nesta terça, um novo decreto definiu que a autorização para a presença de público é excepcional.

OS RISCOS

Os preparativos para a final da Libertadores não devem ser suficientes para zerar o risco de contágio da doença durante o evento. Segundo o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Jaime Rocha, há um grande perigo em reunir 5 mil pessoas no estádio no próximo sábado em um momento em que o número de casos sobe muito no país.

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As pessoas entendem que ter um teste negativo é um selo de certeza 100% absoluta que não está infectada. Infelizmente não é bem assim
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Jaime Rocha, Consultor da SBI

O infectologista alerta que os testes negativos para coronavírus feitos até quatro dias antes da final não são prova de segurança, até porque os convidados podem se infectar dias depois e poderem transmitir a doença durante a decisão. "As pessoas não estarão isoladas no período pós-testagem", disse. "As pessoas entendem que ter um teste negativo é um selo de certeza 100% absoluta que não está infectada. Infelizmente não é bem assim. Se eu tive contato com alguém e peguei o vírus, o teste só pode dar positivo daqui uns dias", completou. 

Para o médico, mesmo pela grandeza do estádio e pelos cuidados prometidos, haverá um risco de transmissão pelo convívio em alguns locais. "Apesar do estádio do Maracanã ser um espaço grande, as pessoas devem ser colocadas em um mesmo setor. Ter espaço grande não é certeza de que não vai ter aglomeração. A gente não tem permitido eventos de massa e agora temos essa final como uma exceção perigosa. Se depois acontecer o aumento de casos de covid-19, será difícil avaliar se tem ou não relação com o jogo", afirmou.

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Eu acho muito temeroso (ter uma final). As pessoas acharam que por existir a vacina, está tudo resolvido
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Tânia Chaves, Professora da Universidade Federal do Pará (UFPA

Para outra especialista, Tânia Chaves, um perigo causado pela final é o fato de vários desses 5 mil presentes virem de outras cidades e países para acompanhar a decisão. "Você vai ter uma circulação de pessoas e muitas delas viajando, enquanto vivemos a transmissão de uma nova variante do vírus. Eu acho muito temeroso (ter uma final). As pessoas acharam que por existir a vacina, está tudo resolvido. A pandemia ainda está em curso", explicou a médica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Tânia Chaves.

A médica também alertou que a exigência de testes realizados dias antes da final não representa uma segurança. "Tem casos que o teste não alcança, apesar dos mais de 70% nos exames. Os casos leves e assintomáticos também pode transmitir casos e não serem identificados nesses exames", afirmou.

 

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