Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Ao lado da seleção brasileira, um vizinho rebelde e sonhador

A quatro quilômetros de Sochi, casa da seleção, um país chamado Abkházia está fora do clima de Copa e clama pela independência

Ciro Campos, enviado especial a Sochi, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 17h00

A festa do futebol na Rússia vai começar nesta semana, mas deixará do lado de fora um vizinho rebelde e sonhador. Enquanto os russos se preparam para receber seleções e turistas de todos os cantos na Copa, a quatro quilômetros do estádio de Sochi, um dos palcos do torneio e onde o Brasil ficará, um território ignora a agitação internacional à espera do dia em que o mundo reconheça sua existência como país independente e não como uma nação fantasma.

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A cerca de 35 minutos de carro de onde a seleção de Neymar vai se concentrar durante a disputa, um “país” chamado Abkházia é o oposto da globalização de um evento do porte do Mundial da Fifa. O local precisa ser grafado como “país”, ainda entre aspas, por não ter a independência da Geórgia reconhecida por grande parte da comunidade internacional. Menos de 20 países dão ao local esse status.

A confusa situação faz a Abkházia e seus 240 mil habitantes viverem situações curiosas. Apesar de para o resto do mundo ela pertencer à Geórgia, o “país” tem idioma e hinos próprios, não utiliza a mesma moeda e registra as placas dos carros com a sua bandeira. Os cidadãos locais precisam fazer uma ligação internacional se quiserem entrar em contato com um georgiano, pois cruzar a fronteira é complicado e perigoso.

Localizada a menos de dez minutos de carro do cosmopolita estádio Fisht, a Abkházia permanece distante demais do resto do mundo. A realização de grandes eventos em Sochi, como os Jogos Olímpicos de Inverno, em 2014, e o GP de F-1, pouco afetaram os vizinhos desconhecidos da Rússia. Segundo números do governo, desde 2007 o “país” continua com o mesmo número de turistas: 1,5 milhão por ano. A maioria dos visitantes vem da Rússia. Como o país-sede da Copa é uma das poucas a reconhecer a independência, tem como privilégio não precisar de visto para que seus cidadãos acessem a Abkházia.

Para quem é de outras partes do mundo, é preciso ter paciência. O pedido pelo documento é burocrático e custa cerca de R$ 40. A fronteira costuma ter longas filas, de até duas horas de espera para atravessá-la.

A reportagem do Estado esteve na fronteira da Rússia com a Abkházia. O local tem forte policiamento e a presença de várias pessoas que oferecem de excursões turísticas a formas de facilitar o acesso ao território.

A origem desse imbróglio separatista é histórica. A população da Abkházia se sentiu durante muito tempo dominada pelos vizinhos georgianos e viu na década de 1990 uma oportunidade para conseguir a independência. Na começo da ruptura da antiga União Soviética, o pequeno território entrou em guerra com a Geórgia. O conflito terminou em 1993, após um acordo de paz assinado justamente em Sochi.

 

As tensões se repetiram nos anos seguintes, com outros conflitos posteriores. Há dez anos, a Rússia reconheceu a independência da Abkházia e deu respaldo ao território. “O país tem estabelecido contatos internacionais e conseguiu recentemente o reconhecimento por parte da Síria”, explicou o ex-ministro de Relações Exteriores da Abkházia, Viacheslav Chirikba.

Ainda assim, a situação é estranha. O governo local faz jogo duro com estrangeiros principalmente para evitar que os georgianos circulem pelo território. A Abkházia tem como principais atrativos as praias, mais preservadas e livres da especulação imobiliária existente em Sochi, por exemplo, e as montanhas do Cáucaso, onde há cachoeiras e práticas de esporte de aventura, como o rafting. “Quem é do país não tem interesse na Geórgia porque a considera como uma nação estrangeira. A única coisa que a Abkházia quer do governo georgiano é o reconhecimento da independência e o benefício disso para a economia”, disse George Hewitt, professor da Universidade de Londres e especialista em Abkházia. O local tem como principal atividade a agricultura, o cultivo de madeira e vinho. E um time de futebol.

Logo mais as seleções estarão em Sochi para disputar partidas da Copa do Mundo e colocar em jogo o orgulho nacional. Vizinha de tudo isso, a Abkházia sonha com uma conquista bem mais improvável: poder um dia se ver como nação, quem sabe filiada à Fifa. “Não vejo solução breve. Abkházia é um país que deve continuar no limbo”, diz Hewitt.

Futebol é alegre e independente

A situação política da Abkházia não impede a torcida de vibrar com o futebol. Tanto é que há dois anos a nação foi sede e venceu a competição mundial voltada especificamente para territórios que se encontram na situação de busca por reconhecimento internacional ou minorias étnicas, a Copa do Mundo de Nações Independentes.

O torneio é realizado a cada dois anos e tem decisão marcada para este domingo em Londres, entre Chipre do Norte, uma província separatista, e Kárpátalja, que representa a minoria étnica de origem húngara residente na Ucrânia. A Abkházia começou bem o torneio, ao bater o Tibete na estreia, mas acabou superada em jogos diante dos finalistas. A Fifa não chancela esses torneios.

“O futebol é uma das formas de mostrar ao resto do mundo que a Abkházia merece reconhecimento”, disse ao Estado o diretor da seleção local, Astamur Ashleiba. Assim como os outros times participantes do Mundial, a Abkházia tem metade do elenco formado por amadores.

O torneio conta com eliminatórias para definir os 16 participantes entre os 46 filiados. Organizar a disputa em Abkházia foi um desafio, até pela dificuldade de se entrar no país. “A competição ajuda as fronteiras políticas a se enfraquecerem. Os atletas não são estrelas, mas pessoas que querem vivenciar experiências”, diz o secretário-geral da organização, Sascha Düerkop.

O título de 2016 veio nos pênaltis sobre Panjab, seleção que representa a diáspora de paquistaneses e indianos. A vitória de Abkházia resgatou no público da capital, Sukhumi, o prazer de ver futebol. Desde o início da guerra com a Geórgia, na década de 1990, a região não tem mais clubes profissionais.

Rio-2016

A edição deste ano dos países independentes teve como curiosidade a presença do zagueiro Etimoni Timuani, de Tuvalu. O beque foi o único representante enviado pelo conjunto de ilhas do Oceano Pacífico aos Jogos do Rio. A participação dele foi nos 100 metros rasos. A nação não é filiada à Fifa por não ter campos ideais.

 

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