Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Árbitro de decisão do Paulista 2018 vira 'estrela' no Campeonato Paraibano

Após polêmica, Marcelo Aparecido de Souza troca de federação e vira 'tutor' no Estadual

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2019 | 04h30

O árbitro da polêmica final do Campeonato Paulista de 2018 trocou São Paulo pela Paraíba neste ano. Nove meses depois de trabalhar na decisão entre Palmeiras e Corinthians, Marcelo Aparecido de Souza estourou a idade limite de 45 anos para participar do quadro da Federação Paulista de Futebol (FPF) e é a principal aquisição do quadro de juízes do Campeonato Paraibano.

A final do Paulista de 2018 ficou marcada pela reclamação do Palmeiras sobre interferência externa. O clube sustenta que o árbitro anotou um pênalti de Ralf em Dudu e voltou atrás na decisão oito minutos depois ao ser avisado por alguém que estava fora do campo. 

Na Paraíba, o árbitro vai se apresentar com o status de principal novidade do projeto de reformulação local. O Estado nordestino encara desde 2018 um escândalo deflagrado pela Operação Cartola, promovida pelo Ministério Público contra a corrupção e manipulação de resultados no campeonato local. Com dirigentes afastados e nove árbitros banidos, a Federação Paraibana precisou "importar" juízes de outras federações para recompor o quadro.

Segundo o diretor de arbitragem da Federação Paraibana, Arthur Alves Júnior, o árbitro paulista será o principal nome do Estado. "Queremos ter árbitros experientes, como o Marcelo. Ele vai ajudar os outros companheiros. A presença dele é importante. O campeonato será complicado", disse.

A maioria dos juízes locais é jovens e foi promovida dos trabalhos na segunda divisão paraibana. "Infelizmente alguns dos nossos árbitros não foram bem nas provas teóricas que aplicamos. Isso me deixou triste. Precisamos aprimorar nosso quadro e contar com quem está acostumado a trabalhar em decisões importantes", afirmou o diretor de arbitragem.

Assim como Souza, outros três nomes, ainda não definidos, vão migrar para a Paraíba para reforçar o quadro local. As transferências têm, inclusive, o aval da CBF. Nas competições organizadas pela entidade, como o Brasileiro, e na maioria dos Estaduais o árbitro pode apitar até os 50 anos.

O responsável pelo apito na final do Paulista de 2018 diz ter superado a polêmica com as reclamações do Palmeiras e se considerar como um tutor no novo Estado. "Quando você está em São Paulo, divide a responsabilidade com outros nomes experientes da Federação Paulista. Agora, sou um espelho para os mais novos. Vou levar para a Paraíba a minha experiência nos grandes jogos", disse ao Estado o árbitro, que continuará a participar do quadro da CBF. 

Souza vai continuar a morar em São Paulo e só viajará à Paraíba na véspera das partidas. A estreia foi no fim de semana, no amistoso entre Botafogo e Serrano. Na ocasião, também participou de palestras com os novos colegas e fez testes físicos. 

PARA LEMBRAR

Ao longo de cinco meses, o Palmeiras tentou anular a final do Campeonato Paulista. O clube argumentou que o árbitro Marcelo Aparecido de Souza havia sofrido interferência externa para voltar atrás após marcar um pênalti do corintiano Ralf em Dudu.

O clube levantou provas com vídeos, contratou uma empresa americana de inteligência e produziu um dossiê para tentar defender a tese. A primeira investida do Palmeiras foi no âmbito estadual, no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). Depois do revés, o departamento jurídico alviverde recorreu ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), no Rio.

Como o órgão entendeu que não era possível comprovar a interferência externa, o Palmeiras encerrou o assunto. A diretoria afirmou na ocasião que estava satisfeita por ter provocado o debate sobre melhorias na arbitragem.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Fiz a coisa certa na final do Paulista do ano passado', diz árbitro

Juiz garante se sentir com a consciência tranquila e conta ter recebido apoio até de palmeirenses

Entrevista com

Marcelo Aparecido de Souza

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2019 | 04h30

O árbitro Marcelo Aparecido de Souza não sofre mais com a polêmica na final do Campeonato Paulista do ano passado. Mesmo depois de o Palmeiras ter defendido a existência de interferência externa na decisão de cancelar o pênalti marcado em Dudu, ele disse que só pode ser questionado pela demora de oito minutos em definir o lance, e não pela escolha final. Em entrevista ao Estado, o agora árbitro da Federação Paraibana de Futebol garante se sentir tranquilo com o episódio.

O que te levou a apitar pela Paraíba?

Eu cheguei ao limite da idade estipulada em São Paulo. Aceitei o projeto da Paraíba de resolver problemas na arbitragem. Como a CBF permite trabalhar até os 50 anos, asseguro minha vaga no Campeonato Brasileiro. Se eu não estiver afiliado a uma federação, não trabalho no Brasileiro. Ficar parado e sem atuar em Estaduais seria péssimo, porque perderia ritmo de jogo.

Como analisa a polêmica na final?

Aquilo atrapalhou a minha carreira. O que me deixa chateado é que não houve equívoco, mas houve acerto. A gente sempre escuta que os árbitros não têm humildade ou que não reconhecem o erro, mas eu tive essa atitude. Eu errei por demorar, é claro, mas o importante é que acertamos e não teve má fé. Eu posso ser cobrado pela demora, mas não pela escolha. Eu recebi apoio até de alguns palmeirenses. Eles me falaram que eu estava acerto e que não queriam ganhar a final daquele jeito.

Você sofreu com a polêmica? Está arrependido?

Eu trabalhei durante 20 anos na Federação Paulista e foram poucos os problemas. Somos árbitros, somos seres humanos. Mas a gente fica infelizmente marcado pelo equívoco. Apesar de tudo isso, estou tranquilo. Eu sei que fiz a coisa certa naquela final. Imagina se daqui 20 anos eu me lembrar que decidi um campeonato por erro de arbitragem? O mais importante de tudo é poder olhar para o meu filho e encostar a cabeça no travesseiro com tranquilidade. Eu tenho a consciência limpa.

Apitar na Paraíba será mais fácil?

Esses jogos podem ser até mais difíceis. A diferença é só a repercussão. Um jogo da Série A tem mais qualidade, então é mais fácil decidir e analisar o jogo. Só que qualquer polêmica pode ser apontada como motivo da derrota. Na Paraíba os jogos têm muita força, muita disputa, então é preciso ficar mais esperto nos lances.

Você já apitou um jogo amistoso por lá. Gostou?

Eu fui surpreendido positivamente. Eu não tive oportunidades de ter atuado na Paraíba antes, mas gostei muito. No sábado apitei no estádio Amigão o amistoso do Botafogo com o Serrano. Um gramado espetacular, parecido ao do Pacaembu. As equipes fizeram uma partida disputada. Tecnicamente o nível técnico é mais baixo do que no Sul ou no Sudeste, mas o jogo é interessante.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.