Divulgação/Guangzhou Evergrande
Ricardo Goulart, ídolo do Guanghzou Evergrande, deve defender em breve a seleção da China Divulgação/Guangzhou Evergrande

China prepara mutirão para naturalizar cinco brasileiros para a seleção

País asiático acelera processo para contar com estrangeiros para a disputa das Eliminatórias da Copa

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2019 | 04h30

A China não ficou satisfeita em somente contratar jogadores e técnicos brasileiros. O país mais populoso do mundo quer mais. Com a ajuda do governo do presidente Xi Jinping, dos clubes e da federação de futebol nacional, cinco atacantes brasileiros estão nos trâmites finais para obter a nacionalidade chinesa e ainda neste ano defender a seleção pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022.

Os próximos reforços da seleção chinesa devem ser Ricardo Goulart e Elkeson, do Guangzhou Evergrande, Alan, do Tianjin Tianhai, Aloísio, do Guangdong Tigers, e Fernandinho, do Hebei Fortune. Todos estão à espera dos documentos da naturalização, já encaminhados aos órgãos competentes. O quinteto foi procurado pelo Estado, mas, por determinação do governo chinês, nenhum deles pode dar entrevista enquanto não finalizar o processo. 

É a primeira vez na história que a seleção asiática se abre para estrangeiros. Apegada ao patriotismo e tradição milenares, os chineses mudaram de postura a partir deste ano pela meta de voltar a disputar uma Copa. A única participação em Copas foi em 2002. Na ocasião, chegou a enfrentar o Brasil em uma campanha pífia. Foram três derrotas, nove gols sofridos e nenhum marcado.

A seleção chinesa começou a se reforçar pelo processo mais fácil. Os dirigentes vasculharam os jogadores estrangeiros da liga local e encontraram um norueguês e um inglês cujas mães eram chinesas. O laço familiar facilitou a obtenção do passaporte e o meia londrino Nico Yennaris já até estreou pelo seu "novo país" em junho.

Depois, o plano chinês seguiu para a parte mais ousada. O técnico italiano Marcello Lippi, campeão do mundo em 2006, com a Itália, reassumiu a seleção chinesa em maio e pediu mais jogadores "importados". Como a Fifa exige que o atleta tenha no mínimo cinco anos de residência no país para ser naturalizado, a federação agiu rápido e buscou os brasileiros de destaque.  

Defender a China vai exigir sacrifícios. O quinteto precisará aprender a cantar o hino, terá aulas sobre história e cultura, precisará renunciar à nacionalidade brasileira e terá de adquirir um nome chinês. O inglês Yennaris, por exemplo, virou Li Ke. Elkeson deve ser chamado de Ai Jisen.  

Ricardo Goulart deixou o Palmeiras em maio depois de quatro meses no clube para voltar ao Evergrande motivado por um novo contrato e pelas vantagens criadas com a naturalização. Os clubes chineses ganham com a mudança por eles deixarem de ter um estrangeiro no elenco. Cada time pode ter até seis jogadores de outro país.

MERCADO

A mudança de nacionalidade contribui ainda para outras ligas da Ásia. Alguns campeonatos do continente consideram atletas chineses não como estrangeiros, mas dentro de uma cota extra permitida de reforços no mercado asiático. Por isso, ao adotar a nova bandeira, os brasileiros se tornam mais cobiçados na região.

Com cerca de 20 anos de atuação no mercado internacional, o agente de jogadores Marcelo Robalinho avalia que mesmo com a burocracia para se naturalizar chinês, optar por defender a seleção pode valer a pena. "Jogar pela China é uma decisão que depende do planejamento de carreira para quem não tem possibilidade de defender a seleção brasileira. Vai abrir chance para outra experiência de vida e dá mais oportunidade de prolongar a carreira na Ásia", disse.

O pacote de "importações" de jogadores deve abranger também um peruano e um espanhol. O governo chinês quer transformar o país em uma potência no futebol até 2050, quando pretende ter mais de 50 milhões de praticantes da modalidade e 20 mil centros de treinamento.

O atual auxiliar técnico do Vasco, Maurício Copertino, trabalhou na China como jogador e, anos depois, como treinador. Na opinião dele, para a seleção local crescer, será necessário não só incorporar estrangeiros ao time, mas principalmente desenvolver um estilo de jogo próprio.

"A China trouxe muitos treinadores estrangeiros, mas não criou uma metodologia local. Os chineses ficam preocupados em copiar estilos, mas esquecem suas origens. Isso atrapalha. Não adianta colocar a seleção chinesa para fazer o tiki-taka espanhol de Guardiola. Eles não vão conseguir", disse o ex-zagueiro.

Pelo menos para Copertino, os reforços brasileiros vão ajudar a seleção chinesa. "Você não consegue desenvolver o talento de um jogador. Isso é de nascença. Na China, isso falta um pouco. No Brasil, sobra".

Jogadores vão renunciar à nacionalidade brasileira

A principal etapa no processo para se naturalizar envolve o Itamaraty. Como a China não aceita dupla nacionalidade, os atletas escolhidos precisam entrar com um processo para renunciar à nacionalidade brasileira. Só depois disso eles recebem os documentos de cidadãos chineses.

No futuro, quando voltar, o quinteto poderá readquirir a nacionalidade brasileira a partir do processo inverso. Será preciso renunciar ao posto de cidadão chinês e novamente abrir no Itamaraty processo para pedir a recuperação da cidadania brasileira.  

A burocracia para se tornar chinês impacta também em questões fiscais. É preciso, por exemplo, atender exigências da legislação brasileira para contas bancárias abertas em nome de estrangeiros, assim como atualizar possíveis registros de imóveis e de sociedade em empresas.

"Chineses", os jogadores podem entrar no Brasil para visitar seus familiares, porém vão precisar do visto de turista. Filhos e mulheres podem manter o passaporte brasileiro.

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Brasileiros da China, Marlos e Jorginho podem jogar Copa por outra bandeira

No caminho rumo ao próximo Mundial, seleção asiática terá de superar Eliminatória complicada

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2019 | 04h30

Quando escalar, de fato, brasileiros em sua seleção, a China vai se juntar a um grupo de países que se valem de estrangeiros para fortalecer o futebol nacional. Até hoje, 24 atletas fizeram esse caminho, dos quais cinco atuaram na última Copa, em 2018, na Rússia. 

O quinteto candidato a defender a China no Mundial de 2022, em caso de classificação, vai lutar por uma vaga junto a outros brasileiros naturalizados. Pela Ucrânia, o meia Marlos, ex-Coritiba e São Paulo, tem sido titular nos últimos jogos do time. A seleção russa conta com o lateral Mário Fernandes e com o goleiro Guilherme Marinato. A Polônia tem o zagueiro Thiago Cionek. Na Itália, os representantes são o lateral-esquerdo Emerson Palmieri e o meia Jorginho, ambos do Chelsea. Quando as Eliminatórias começarem, todos esses brasileiros estarão em ação por suas seleções. 

O primeiro jogador do Brasil a ganhar uma Copa deu a volta olímpica pela Itália. O atacante paulistano Guarisi, com passagens por Portuguesa, Corinthians e Palmeiras, foi campeão com o país-sede na disputa de 1934.

O caminho da China para se classificar para a Copa é complicado. A equipe não passou das quartas de final nas duas últimas Copas da Ásia e vai precisar ficar entre os quatro primeiros colocados das Eliminatórias para garantir vaga no Mundial do Catar sem depender da repescagem intercontinental.

Chineses, brasileiros e demais naturalizados vão ter como concorrentes equipes mais tradicionais como Japão, Coreia do Sul, Irã e a Austrália, que também disputa as Eliminatórias pela Ásia. A boa notícia é a ausência do Catar. O país-sede está classificado automaticamente e é uma das novas potências da região. Neste ano, o time ganhou a Copa da Ásia pela primeira vez.

A China estreia nas Eliminatórias no próximo mês, já pela segunda fase da competição. Os adversários iniciais são as fracas Maldivas, Guam e Filipinas. O país mais populoso do mundo é favorito a passar para a etapa decisiva do torneio, quando terá pela frente rivais mais fortes.

A naturalização de estrangeiros atende também ao projeto chinês para ter uma seleção forte em 2023. Caso não consiga vaga no Catar, no ano seguinte a equipe será sede da Copa da Ásia e vai tentar conquistar o inédito título continental.

Nos últimos compromissos, a China não teve resultados brilhantes, mas venceu. Em junho, em casa, a seleção bateu dois rivais asiáticos em amistosos: Filipinas por 2 a 0 e Tajiquistão por 1 a 0

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