Mariana Capra/SC Internacional
Mariana Capra/SC Internacional

Com ‘missão cumprida’, Inter mantém pés no chão ao planejar retorno à elite

Em entrevista ao Estado, presidente Marcelo Medeiros é cauteloso ao projetar temporada 2018 do time gaúcho

Entrevista com

Marcelo Medeiros, presidente do Internacional

Olga Bagatini, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 14h33

Foram duas trocas de técnico, protestos da torcida e muitas oscilações ao longo da temporada, mas o Internacional, enfim, está de volta à primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O clube garantiu o acesso contra o Oeste no último dia 14, com duas rodadas de antecedência, e se despede da Série B neste sábado, quando enfrenta o Guarani no Beira-Rio. Para ser campeão, precisa fazer a lição de casa e torcer por um tropeço do líder América-MG.

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Para o presidente Marcelo Medeiros, contudo, perder o título não seria algo tão grave. “O importante para nós é estar de volta à Série A. Óbvio que o Inter quer ser campeão, mas nossa missão já foi cumprida”, afirmou Medeiros, em entrevista ao Estado.

Eleito na véspera do rebaixamento com 95% dos votos dados pelos associados do clube, Marcelo reconhece que o Inter enfrentou mais dificuldades do que o previsto em 2017. O maior desafio, segundo o presidente, foi recuperar a confiança do torcedor. Agora, com o acesso garantido, a direção tem mais tranquilidade para planejar a próxima temporada. E o primeiro passo é escolher o novo treinador. 

Os altos e baixos levaram o Inter a demitir dois técnicos neste ano. Antônio Carlos Zago, que comandou o time na campanha do vice-campeonato gaúcho, não resistiu ao início fraco na Série B do Brasileiro e caiu ainda em maio, dando lugar a Guto Ferreira.

O novo comandante teve forte respaldo da diretoria, mesmo diante das cobranças da torcida e das críticas da imprensa. Ele pegou um time desequilibrado e o levou à liderança do torneio. No entanto, a equipe não conseguiu manter o embalo e perdeu pontos em duelos decisivos. A pressão por resultados levou à demissão de Guto no início de novembro.

“Nós respaldamos o trabalho do Guto, mas, com a queda de produção, entendemos que era melhor fazer essa mudança agora para dar ganho na reta final e fazer os pontos que faltavam”, explicou Medeiros, que escolheu o auxiliar Odair Hellmann para comandar a equipe nas rodadas finais. 

CLUBE TENTA CONFIRMAR NOVO TÉCNICO

Enquanto o Inter se prepara para a partida final contra o Guarani, a diretoria corre contra o tempo para definir o treinador. Por enquanto, Medeiros evita falar publicamente do perfil pretendido para “evitar especulações”, mas, nos bastidores, Abel Braga é o favorito.

América-MG e Internacional brigam pelo título na última rodada da Série B

A direção busca acordo com o técnico, que tem contrato com o Fluminense até o fim do ano que vem. Filho e empresário de Abel, Fábio Braga esteve em Porto Alegre na última quarta-feira para discutir os termos do contrato e o pagamento da multa rescisória para o Flu. A identificação de Abel com o time colorado, pelo qual foi campeão do mundo em 2006, facilita as negociações. 

ELENCO

Quando assumiu o cargo, dia 3 de janeiro, Medeiros herdou uma dívida de R$ 25 milhões da gestão de Vitório Piffero , cujas contas foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo do Inter. O novo presidente diz ter feito “malabarismos” para equilibrar o caixa e pregou responsabilidade com as novas contratações.

“As contas estão em dia, mas ainda temos dificuldades. É bom lembrar que contratação que enche aeroporto esvazia os cofres. É com pesquisa, avaliação e criatividade que vamos qualificar a equipe”.

O primeiro reforço do Inter para 2018, anunciado na semana passada, é o atacante Roger, do Botafogo. O time também formalizou a contratação do zagueiro Klaus, que estava emprestado pelo Juventude. Para estabilizar os cofres, a diretoria planeja criar novas fontes de renda, ampliar o quadro social e seguir aproveitando os jogadores da base.

Questionado se o torcedor colorado pode sonhar com algo maior em 2018, Medeiros se mostra realista. “Eu acredito em continuidade. O Inter vitorioso de 1975 começou a ser montado em 1972, assim como o time de 2006 começou a ser montado anos antes. Essa é nossa filosofia. Vamos dar o máximo nas competições, mas não posso prometer títulos para o torcedor neste momento.”

D'ALESSANDRO

Maior ídolo do clube atualmente, o meia argentino Andrés D’Alessandro cumpriu a promessa de devolver o clube à Série A, mas ainda não sabe se fica. O contrato do camisa 10 se encerra dia 31 de dezembro e ele já afirmou à imprensa argentina que não descarta voltar ao River Plate.

Medeiros foi enfático ao dizer que as conversas sobre renovação estão paradas. “Ele próprio disse que só vamos tratar disso depois do término do campeonato”, afirmou.

OBSTÁCULOS NA SEGUNDA DIVISÃO

Segundo Medeiros, não foram poucos os desafios enfrentados pelo Inter na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Além das questões financeiras e da mágoa da torcida com o rebaixamento, a diretoria herdou outros problemas, como o desdobramento do caso Victor Ramos. 

Depois de cair no gramado, a gestão de Piffero acionou a Justiça Desportiva para tentar manter o Inter na elite, apontando irregularidades na transferência do zagueiro para o Vitória. O caso chegou à Corte Arbitral do Esporte (CAS), instância máxima do esporte, na Suíça, que encerrou o caso. A expectativa e frustração decorrentes do processo só fizeram aumentar a irritação da torcida.

O time também teve problemas dentro de campo e demorou a embalar. Apesar de facilidades como voos fretados para cobrir as distâncias mais longas e da folha salarial na casa dos R$ 7 milhões, disparada a maior da Série B, o presidente avalia que os jogadores sofreram com a logística da competição, gramados ruins e a falta de estrutura de alguns estádios. 

Os tropeços nas últimas rodadas, que adiaram em três jogos a previsão de acesso, ganharam outro diagnóstico. Para Medeiros, o “peso” da camisa colorada pode ter criado um ambiente de ansiedade que afetou o psicológico dos jogadores. 

“A disposição dos clubes para enfrentar o Inter era muito maior e nem sempre soubemos enfrentar os obstáculos. Gostaríamos de ter subido o quanto antes para aliviar a tensão do torcedor e evitar uma série de situações, mas sabíamos que seria difícil. Faz parte. Aprendemos com os erros. O que importa é que o Inter voltou”.

APOIO DA TORCIDA

Apesar de todos os problemas, os colorados não deixaram de apoiar o Inter. O clube registra a sexta melhor média de público de 2017, com 19.711 torcedores por partida, atrás apenas de Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Grêmio e Flamengo. 

A expectativa é de que haja novo recorde contra o Guarani na última rodada, marcada para sábado, 17h30 (de Brasília). O Inter soma 68 pontos, dois a menos que o América-MG, mas as equipes estão empatadas em número de vitórias. Valendo o título, o time mineiro recebe o CRB no Independência. 

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