LIONEL BONAVENTURE/AFP
Torcedores no Stade de France LIONEL BONAVENTURE/AFP

Combate à homofobia nos estádios divide o futebol francês

Dirigentes e políticos do país têm trocado farpas sobre como agir nas arenas

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 14h57

Enquanto no Brasil o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) passou a recomendar que árbitros paralisem as partidas se casos de homofobia e transfobia forem registrados nos estádios, a França está em direção contrária. O presidente da Federação Francesa de Futebol, Noël Le Graët, pediu aos árbitros para que não interrompam os jogos por causa de cantos ou bandeiras homofóbicas nas arquibancadas e abriu uma grande polêmica no país atual campeão do mundo.

"Parar as partidas não me interessa. É um erro. Pararia um jogo por causa de gritos racistas, pararia uma partida por causa de uma briga ou por causa de incidentes se houver perigo nas arquibancadas, mas não é o mesmo", disse Le Graët. O dirigente defendeu ainda que funcionários do clubes devem retirar bandeiras homofóbicas das arquibancadas, mas o jogo não deve ser paralisado.

Para Le Graët racismo e homofobia "não são a mesma coisa". O dirigente alega que a homofobia é um problema nacional e, por isso, não aceita que apenas o futebol seja afetado. Le Graët recebeu o apoio do técnico da seleção francesa, Didier Deschamps, o que aumentou ainda mais a polêmica.

Ex-campeã de natação e atual ministra dos Esportes, Roxana Maracineanu qualificou de "erro" o ponto de vista do dirigente. Le Graët rebateu: "Ela não tem o hábito de ir aos estádios e é verdade que nas piscinas não se ouve o que se grita".

O debate se intensificou na França porque desde o início da temporada várias partidas foram interrompidas na primeira e na segunda divisões para deter cantos homofóbicos vindos das arquibancadas ou para remover bandeiras, uma atitude que o governo francês defende. Um dos casos ocorreu na vitória do Paris Saint-Germain sobre o Metz, no Stade Saint-Symphorien no dia 30 de agosto. Dois dias antes, os torcedores de Nice exibiram uma faixa com a inscrição “OM: apoie uma equipe LGBT para lutar contra a homofobia” durante partida contra o Olympique de Marselha.

Dirigentes do futebol e políticos do país têm trocado farpas sobre como agir contra a homofobia nos estádios. Chegou a ser agendada uma reunião da Liga de Futebol Profissional (LFP) com representantes dos torcedores e associações antidiscriminação.

Com o objetivo de reduzir a tensão, a ministra do Esporte e o presidente da Federação Francesa de Futebol publicaram uma declaração conjunta para mostrar que estão de acordo em "agir de maneira decisiva, adaptada e pragmática". O presidente da federação, no entanto, não tem autoridade para instruir os árbitros a ignorarem as novas regras.

A partir da próxima rodada do Campeonato Francês, que começa na sexta-feira com a partida entre Lille e Angers, ficou definido que quando forem ouvidos gritos discriminatórios nas arquibancadas os delegados da Liga vão alertar o árbitro, que tomará a decisão de interromper ou não a partida.

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Clubes brasileiros criticam punições contra homofobia no futebol

Times podem perder três pontos por manifestações homofóbicas de torcedores

Ciro Campos, Daniel Batista, Gonçalo Junior e Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 04h30

A decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) de punir os clubes em casos de homofobia de torcedores fez os dirigentes pensarem em ações de conscientização. Por outro lado, a maioria dos 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro consultados pelo Estado não aprova ser penalizada por possíveis atitudes da torcida. A punição prevista para casos de gritos homofóbicos é a perda de três pontos (veja todas abaixo).

O STJD divulgou a medida no início desta semana, em texto assinado pelo procurador-geral Felipe Bevilacqua. Há a recomendação para que árbitros, auxiliares e delegados das partidas relatem na súmula e/ou documentos oficiais dos jogos as possíveis manifestações homofóbicas dos torcedores.

Os possíveis casos de homofobia devem ser enquadrados no artigo 243-G do Código Disciplinar (praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência). Os dirigentes dos clubes concordam que haja punições, mas alegam que são os torcedores que deveriam ser penalizados e não o clube.

“É um absurdo punir os clubes. Seria a mesma coisa que um cidadão ser assaltado e o prefeito e o governador serem punidos”, compara o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez.

Dos outros clubes paulistas que estão na Série A, o Palmeiras afirmou que “está absolutamente envolvido com esse tema e irá elaborar programas de conscientização para seu torcedor”. São Paulo e Santos não responderam.

O único clube que mostrou-se favorável à punição é o Bahia, que vem realizando ações para combater o preconceito nos estádios. O presidente Guilherme Bellintani ainda pediu para que o racismo seja tratado da mesma forma.

“O Bahia já faz várias campanhas de orientação. Acho importante discutirmos este tema, mesmo que seja com certo atraso. É bom que chegou. Além da homofobia, a ação podia envolver o racismo, que também é uma pauta comum nos estádios e deveria ser tratada”, diz.

Bellintani considera que já houve um avanço na questão da homofobia e diz que o Bahia vai fazer um trabalho especial sobre o tema. “Eu não chamaria de orientação. A palavra é formação de uma nova cultura de tolerância, abraço às pessoas mais diferentes possíveis. Acho positiva a punição. Podemos pensar em um exemplo, que não está no mesmo patamar e na mesma esfera. Antigamente, as pessoas jogavam objetos nos gramados. Quando os clubes foram punidos, a situação mudou. Sou muito favorável à punição. É o mecanismo correto para desestimular a ação homofóbica da torcida”, opina.

Os outros clubes que responderam aos questionamentos do Estado adotaram discursos contrários à punição. Também alegam que a pena deveria ser dada aos cidadãos envolvidos nos casos. A ideia é realizar ações principalmente nas redes sociais para alertar os torcedores, defendem Cruzeiro, Grêmio, Vasco, Avaí, Fortaleza, Ceará, Goiás, CSA e Chapecoense.

AS PENAS:

Suspensão: Se o ato for praticado por algum jogador ou membro da comissão técnica, a punição pode ser de cinco a dez partidas. Se o autor tiver outro cargo no clube, a pena prevista é de quatro meses a um ano de suspensão, além de multa de R$ 100,00 a R$ 100.000,00.

Perda de pontos: O artigo diz que caso a infração “seja praticada simultaneamente por um número considerável de pessoas vinculadas” a um mesmo clube, a punição será a perda de três pontos, independentemente do resultado da partida. 

Punição dobrada: Caso o clube seja reincidente, perderá seis pontos.

Indivíduos: Os torcedores identificados ficarão proibidos de ingressar na respectiva praça esportiva por no mínimo dois anos.

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ANÁLISE: O futebol francês, racismo e homofobia

Durante os jogos, os torcedores, irritados com uma má jogada, insultam jogadores

Gilles Lapouge, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 14h54

O futebol francês sofre de uma doença estúpida que não conseguimos erradicar: com freqüência, durante um jogo de futebol, os torcedores, irritados com uma má jogada, insultam este ou aquele jogador. Recentemente, vários jogos foram assim vilipendiados por insultos homofóbicos, vindos das arquibancadas. Em outros jogos, esses ataques ou gozações não visam os homossexuais, mas aqueles jogadores que têm a indelicadeza de ter uma pele marrom, ou negra.

Esse comportamento imbecil não é uma especialidade francesa. O futebol é um esporte magnífico. Próximo da França, uma grande nação do futebol é vítima desses rituais. Cada país tem um catálogo particular de insultos. Na Itália o alvo são os jogadores negros ou árabes (que são brancos). A cenografia preferida é acompanhar uma jogada fracassada de um jogador com gritos imitando um macaco, ou berrando "volta para sua árvore!". Em seguida, esses torcedores se pavoneiam diante dos amigos. Da parte do país que inventou a Commedia Del Arte na Idade Média, é a decadência.

Os franceses não conseguem rivalizar com o gênio italiano. Se um negro ou um mulato os irrita, eles gritam "Bravo banania"  e em seguida não têm mais idéias. São melhores quando atacam os homossexuais, comumente imaginários. Na semana passada nos jogos da Liga 1 e Liga 2, eles usaram seu vocabulário: "Bicha", ou "filho da p".

Há pessoas que afirmam que esse tipo de comportamento é recente. Não é verdade: nos anos 1880 inúmeros italianos se refugiaram em Marselha, grande porto cosmopolita. Os marselheses ficaram revoltados com a vulgaridade dos recém-chegados e os espancavam, às vezes até a morte. Três italianos morreram. Aquela semana recebeu o nome de Vésperas Italianas (Esse termo é uma resposta a excessos muito mais antigos. Em 1281, em plena Idade Média, os sicilianos foram à caça dos franceses instalados nessa ilha. Durante uma semana os franceses foram massacrados e aquela semana foi chamada Vésperas Francesas, A história tem uma longa memória.

Retornemos ao nosso século. Na semana passada, dois árbitros foram obrigados a interromper um jogo por causa dos insultos lançados contra os "homossexuais". No dia seguinte o presidente da Federação Francesa de Futebol, Noel Le Graët, decidiu intervir. Aprovou o comportamento dos árbitros, mas seu discurso foi repleto de nuanças. "Não quero ser prisioneiro da homofobia. Interromper um jogo, sim, mas essas interrupções não devem ser longas".  Em seguida, introduziu uma hierarquia segundo os alvos dos insultos. Os insultos contra os homossexuais, sim, é ruim, mas na hierarquia das faltas há coisa pior: os racistas.

Neste caso, o presidente da confederação se mostrou intransigente: "aprovaria a interrupção completa de um jogo se forem lançados insultos racistas das arquibancadas". No dia seguinte a ministra dos Esportes, Rosana Maracineanu, ex-campeã de natação, se manifestou: "Não, o senhor Le Graët se engana. Não existe hierarquia. Atacar uma minoria (por exemplo, os homossexuais) é extremamente grave, tão grave quanto os insultos racistas. Nos dois casos, é preciso condenar rigorosamente.

Rapidamente foi organizado um debate entre os partidários de Le Graët e os da ministra. Os argumentos se chocaram. Os que desejam encontrar circunstâncias atenuantes no caso dos homofóbicos usaram um argumento exato no início e falso no fim: os jovens, disseram, que gritam esses horrores usam termos baixos sem o seu verdadeiro sentido. É um insulto, mas são lançados como numa aula de recreação, grosserias, sem referência ao seu sentido real. A palavra "pédé" (pederasta, bicha), por exemplo, os mais jovens nem a conhecem pois hoje ela foi substituída por homossexual ou gay. São termos hoje combalidos.

Estas análises não são obrigatoriamente falsas. Mas não justificam a indulgência de Noel Le Graët. "É preciso expurgar dos estádios essa purulência, disseram os outros, suspendendo certos encontros. Pouco a pouco os comportamentos degradantes diminuirão e desaparecerão.

Como no caso de muitos problemas da sociedade, voltamos à necessidade da pedagogia. Aguardando que a pedagogia faça seu trabalho (mas ela é uma ciência inexata e seus efeitos são lentos) vamos aguardar o próximo meio-tempo do jogo entre o presidente da Federação de Futebol Noel Le Graët e a ministra dos Esportes. E também os próximos incidentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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