Agustin Marcarian|Reuters
Diego Armando Maradona morreu aos 60 anos na Argentina Agustin Marcarian|Reuters

Diego Armando Maradona morreu aos 60 anos na Argentina Agustin Marcarian|Reuters

Diego Maradona morre na Argentina após sofrer parada cardiorrespiratória

Ídolo do futebol mundial estava com 60 anos e lutava contra uma série de problemas de saúde

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Diego Armando Maradona morreu aos 60 anos na Argentina Agustin Marcarian|Reuters

O ídolo do futebol argentino Diego Armando Maradona morreu nesta quarta-feira em Buenos Aires. Aos 60 anos, completados no mês passado, ele trabalhava como técnico do Gimnasia Y Esgrima de La Plata e lutava contra uma série de problemas de saúde. Ele morreu depois de sofrer parada cardiorrespiratória.

Maradona tinha deixado o hospital havia duas semanas após ser internado para tratar de um hematoma no cérebro. Depois disso, o camisa 10 da Argentina foi levado para casa, na cidade de Tigre, região metropolitana de Buenos Aires, para terminar sua recuperação. A recomendação médica era para que Maradona cuidasse principalmente da dependência química de remédios e de álcool. Seu médico chegou a dizer que ele precisava se cuidar. Maradona não queria fazer o tratamento e tentou deixar o hospital antes do tempo.

O ex-jogador estava em sua casa quando se sentiu mal. Familiares e funcionários chamaram uma ambulância para socorrê-lo, mas ele morreu antes mesmo da chegada do veículo da emergência. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, decretou três dias de luto no país. A Argentina vai parar para chorar a morte de Maradona.

POLÊMICO E GÊNIO

Polêmico e gênio da bola, o argentino transcendeu o universo do futebol e entrou para a história como um dos maiores de todos os tempos e até mesmo pelas polêmicas com Pelé. Maradona nasceu no dia 30 de outubro de 1960 e passou a infância em Villa Fiorito, na periferia de Buenos Aires. Ali, começou a se destacar por sua habilidade com a bola nos pés. Nesta época, o seu maior ídolo era o brasileiro Roberto Rivellino, canhoto como ele. No livro Yo Soy el Diego de la Gente, ele reverencia o brasileiro. "Sempre o menciono como um dos maiores. Ele teve elegância e rebeldia. Ele se rebelou contra os poderosos", dizia Maradona. Na Copa de 70, então com dez anos, Maradona ficou encantando com os "elásticos" de Rivellino, no México.

Quase duas décadas depois, também no México, foi a vez de ele se consolidar como uma estrela do futebol, quando como capitão da seleção argentina levantou a taça da Copa do Mundo em 1986. Foi lá que marcou seus gols mais famosos: o polêmico a "mão de Deus" e outro no qual saiu driblando os adversários desde o meio de campo, ambos contra a Inglaterra.

Na Argentina, Maradona despertou devoção e paixões a ponto de alguns fãs criarem a Igreja Maradoniana, cujos fiéis o consideram seu deus. "Gostaria de ver Diego para sempre, driblando por toda a eternidade", cantou a banda de rock Ratones Paranoicos, em uma das dezenas de canções feitas em homenagem ao camisa 10.

Pela seleção argentina, ele chorou de raiva ao receber a medalha de vice-campeão na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Jogou outros dois Mundiais: Espanha-1982 e Estados Unidos-1994, quando pronunciou a frase "cortaram minhas pernas", depois de testar positivo no controle antidoping para efedrina, em meio a um momento de renascimento no futebol. Mais tarde, como treinador, comandou a seleção nacional entre 2008 e 2010, até a Copa do Mundo na África do Sul, com Lionel Messi em campo. Mas seu destino foi selado com uma dura derrota para a Alemanha nas quartas de final.

 

Maradona disputou 676 partidas e marcou 345 gols em 21 anos de carreira, entre seleção e clubes. Ele deu os primeiros passos nas divisões de base do Argentinos Juniors, clube pelo qual estreou na Primeira Divisão aos 15 anos, em 20 de outubro de 1976. Seguiu para o Boca Juniors (1981-1982), onde conquistou um campeonato nacional. Transferido para o Barcelona (1982-1984), foi contratado em seguida pelo italiano Napoli (1984-1991), onde virou ídolo.

Problemas fora de campo

Mas, em 17 de março de 1991, seu vício em cocaína custou-lhe a primeira suspensão. Maradona mostrava-se de carne e osso, humano como todos apesar do que fazia em campo. Voltou aos gramados atuando pelo espanhol Sevilha (1992-1993) e de lá retornou à Argentina para uma breve passagem pelo Newell's Old Boys em 1993. Depois da Copa do Mundo de 1994 e da segunda sanção por doping, vestiu mais uma vez a camisa do Boca Juniors, onde deixou os gramados em 25 de outubro de 1997, cinco dias antes de seu 37.º aniversário. Numa despedida memorável em 2001, dentro do Estádio La Bombonera lotado, Maradona falou sobre seus vícios. "Errei e paguei, mas o que fiz em campo não se apagou".

Maradona foi mais do que um grande jogador. Indomável, enfrentou o poder do futebol mundial, desafiou o establishment, abraçou líderes da esquerda latino-americana, fez amizade com Fidel Castro, tatuou Che Guevara e é o ídolo de figuras lendárias do esporte.

Saúde debilitada

Em 2000, o argentino sofreu um ataque cardíaco devido a uma overdose quando estava em um resort uruguaio de Punta del Este. Fez um longo tratamento, com idas e vindas a Havana, longe das câmeras. Pesando 100 quilos, outra crise cardíaca e respiratória o surpreendeu em 2004 em Buenos Aires. Ela o deixou à beira da morte.

Recuperado, fez uma cirurgia bariátrica e perdeu 50 quilos, para retornar um ano depois como apresentador de televisão. Em 2007, os excessos no consumo de álcool o levaram a uma nova hospitalização, agora por hepatite. Foi internado em um hospital psiquiátrico. Saiu novamente.

Para os gramados, voltou como treinador, função que já havia tentado, sem sucesso, no Mandiyú (1994) e Racing (1995). Depois de liderar a seleção nacional, comandou o Al Wasl (2011-2012) dos Emirados Árabes Unidos, depois o Al Fujairah (2017-2018) e seguiu para o México, onde esteve à frente do Los Dorados de Sinaloa (2018). Operado dos joelhos e com uma bengala, assumiu em 2019 em seu país o comando do Gimnasia y Esgrima La Plata.

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Última passagem de Maradona pelo futebol argentino como técnico teve 'nova mão de Deus' e homenagens

Trabalho final da vida do ex-camisa 10 misturou idolatria com polêmicas e poucos resultados convincentes

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 13h52

O último ato de Maradona no futebol foi como técnico do Gimnasia y Esgrima La Plata. Depois de 24 anos, ele voltou a trabalhar em um clube argentino em 2019 e foi uma atração à parte no campeonato nacional. Todos os adversários demonstravam respeito quando iam enfrentá-lo e, por onde o Gimnasia jogava, ele era homenageado, independentemente do placar da partida.

Era comum Maradona receber camisas com seu nome estampado nas costas ou placas de felicitações pelos serviços prestados ao futebol do país. Outra reverência era os torcedores confeccionarem grandes bandeiras com o seu rosto.

O anúncio da chegada de Maradona ao Gimnasia mexeu com as estruturas do futebol argentino. No dia 8 de setembro de 2019, cerca de 30 mil torcedores lotaram o estádio em La Plata para dar as boas-vindas a Maradona. Seu último trabalho em um clube do país havia sido em 1995, após passagens por Deportivo Mandiyú, em 1994, e Racing. Anos depois, de 2008 a 2010, ele dirigiu a seleção argentina. No exterior, ele trabalhou no Al Wasl e no Al Fujairah, dos Emirados Árabes, e no Dourados de Sinaloa, da Segunda Divisão do México.  

Apesar de toda a idolatria, os resultados de Maradona como treinador não foram bons. Tanto é que ele mesmo afirmou que a decisão da Associação de Futebol Argentino (AFA) de encerrar a temporada passada por causa da pandemia do novo coronavírus e cancelar o rebaixamento foi como "nova mão de Deus", pois a sua equipe iria cair de divisão. Vale lembrar que na Copa do Mundo de 1986, Maradona fez um dos gols na vitória da Argentina sobre a Inglaterra (2 a 1), nas quartas de final, com a mão e brincou após o jogo dizendo que havia sido "La mano de Diós".

Polêmicas

Como de costume, Maradona acumulou polêmicas no Gimnasia. Pouco tempo depois de assumir o time, chegou a ser anunciada a sua saída por causa de problemas políticos dentro do clube. Mas esse cenário não se confirmou.

Em junho deste ano, apenas um dia depois de ser revelado por seu empresário Matias Morla um impasse para a renovação de seu contrato, Maradona acertou a sua permanência como técnico do Gimnasia La Plata. O novo vínculo do ex-jogador iria até o final de 2021.

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Maradona teve uma relação de amor e ódio com Pelé, mas ambos sempre se respeitaram

Argentino e Rei do Futebol trocaram farpas por décadas até fazerem as pazes em 2016, dar abraços e um reconhecer o outro como gênio

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 13h42

Diego Maradona teve ao longo da vida uma relação de amor e ódio com Pelé. Nos últimos anos, no entanto, os dois selaram as pazes e até trocaram afagos em público, abraços e respeito mútuo. No centro do embate entre o argentino e o Rei do Futebol esteve principalmente a disputa pela condição de maior jogador de todos os tempos. Para a ampla maioria dos fãs do futebol de todo o mundo não havia dúvidas de que não existiu ninguém maior do que Pelé. Na Argentina, muitos colocam Maradona como o melhor jogador da história.

A notícia de sua morte, chocou Pelé, 20 anos mais velho do que ele. "Que notícia triste. Eu perdi um grande amigo e o mundo perdeu uma lenda. Ainda há muito a ser dito, mas por agora, que Deus dê força para os familiares. Um dia, eu espero que possamos jogar bola juntos no céu", escreveu Pelé.

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Acervo: Maradona

Curiosamente, o argentino teve Rivellino como maior ídolo de sua infância e não apenas por causa do talento do brasileiro, mas também por ele ter, nas suas palavras, desafiado Pelé durante a Copa do Mundo de 1970. "Rivellino sempre teve resposta para tudo. Ele encarou Pelé, que já era o melhor do mundo, e disse: 'Fala a verdade, você gostaria de ser canhoto?'”, contou o ídolo argentino certa vez.

Maradona e Pelé nunca se encontraram nos campos, mas fora deles se enfrentaram, fizeram amizade, competiram, brigaram e se reconciliaram. Durante muito tempo, Pelé não perdoava Maradona por seus vícios e atos de rebeldia, enquanto o argentino desprezava Pelé por sua ligação com a cartolagem do futebol.

O brasileiro, por sua vez, disse que o argentino "só tinha pé esquerdo", que era "um mau exemplo" e que "seu único gol importante foi feito com a mão", numa referência ao primeiro gol contra a Inglaterra (2 a 1) nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Em 1998, durante entrevista a um canal de televisão da Argentina, Maradona bateu forte no Rei do Futebol. "Pelé é um escravo, ele vendeu seu coração para a Fifa. Pelé gosta mais de dinheiro do que de dormir", disse.

Depois de anos de afastamento, eles se reencontraram em 2005, quando Maradona teve Pelé como o primeiro convidado especial de seu programa de TV 'La Noche del 10'. Mesmo assim, Maradona ainda continuou lançando algumas de suas frases espirituosas contra seu rival histórico pela coroa. "Não gosto das comparações com Pelé por causa das bobagens que ele fala. Ele fica falando bobagens quando toma a pílula errada", disse Maradona em 2013, depois de Pelé considerar Neymar um jogador melhor do que Lionel Messi.

Acordo de paz

A reconciliação só veio em 2016, mas definitiva. "Chega de brigas", declarou Maradona quando eles se encontraram em Paris para uma "festa pela paz", organizada por uma marca de relógios. "Agora, estamos de mãos dadas", respondeu Pelé de braço dado com Maradona, que o ajudava a entrar nas instalações do evento enquanto caminhava com uma bengala.

No último dia 23 de outubro, Maradona deu os parabéns a Pelé pelo seu aniversário em uma mensagem publicada nas redes sociais. "Quero me juntar a esta homenagem universal, feliz 80 anos de vida, Rei Pelé!!!", escreveu Maradona no Facebook. Pelé retribuiu a gentileza no dia 30, quando Maradona completou 60 anos, e publicou uma foto de ambos antes da final do Copa de 1990, na Itália, com a seguinte legenda: "Meu grande amigo, eu vou sempre te aplaudir. Eu vou sempre torcer por você. Que a sua jornada seja longa e que você continue sempre sorrindo, e me fazendo sorrir também!"

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Relembre dez frases polêmicas de Maradona

Ídolo argentino mostrava sua personalidade em frases ácidas e, ao mesmo tempo, irreverentes

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 13h54

Gênio e genioso. Ao longo dos seus 60 anos de vida, Maradona soltou inúmeras pérolas, carregadas de rebeldia, que ficaram marcadas na história do esporte. O Estadão relembra algumas das frases mais polêmicas do ex-jogador.

  • "Eu cresci em um bairro privado...privado de luz, de água, de telefone"

Diego Maradona cresceu em uma localidade chamada Villa Fiorito, no subúrbio de Buenos Aires.

  • "Quando me dizem que sou Deus, eu respondo que estão equivocados. Sou um simples jogador de futebol. Deus é Deus e eu sou Diego"

O craque sempre foi apelidado pelos argentinos como Deus pela genialidade e talento com a bola.

  • "Chegar à área e não poder chutar ao gol é como dançar com sua irmã"

Apesar de ser meia, Maradona sempre gostou de fazer gols. Em quatro Copas disputadas, ele anotou oito vezes.

  • "Ganhar do River é como ganhar um beijo de bom dia da sua mãe após acordar"

Torcedor fanático do Boca Juniors, Maradona sempre tentou provocar o maior rival.

  • "A primeira vez que me droguei foi na Europa, em 1982. Eu tinha 22 anos e foi para provar como era"

Maradona viveu por anos uma luta contra a dependência química e teve várias internações em clínicas para se curar do vício.

  • "Na Itália rica pensam que Nápoles é o norte da África"

O então camisa 10 soltou essa provocação às vésperas da semifinal da Copa de 1990 entre Argentina e Itália. O jogo foi disputado em Nápoles, onde Maradona era ídolo do time local.

  • "Se Pelé é Beethoven, eu sou Ron Wood, Keith Richards e Bono, todos juntos."

O argentino sempre cativou polêmicas com Pelé sobre quem foi melhor jogador.

  • "Sou completamente esquerdista, de pé, de fé e de cérebro.”

Maradona foi amigo do ex-presidente cubano Fidel Castro e tem até uma tatuagem do guerrilheiro Ernesto Che Guevara.

  • "Muitos dizem que fiz à mão. Eu digo que fiz isso com a cabeça e a mão de Deus"

Sobre o gol de mão contra a Inglaterra, na Copa de 1986.

  • "Minhas filhas legítimas são Dalva e Giannina. Os demais são filhos ou do dinheiro ou de algum equívoco"

Fora as duas filhas, Maradona tem pelo menos mais outros três filhos que só veio a reconhecer depois de adultos.

 

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