Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC
Casa Meninos da Vila, uma das sedes da base santista, aguarda regularização Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

Elite do futebol no Brasil está sujeita ao risco

Maioria dos clubes da Série A descumpre normas de segurança em seus alojamentos e trabalha sem alvarás

Leonardo Augusto, Luciano Nagel, Raphael Ramos e Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h30

A tragédia que vitimou dez garotos em consequência do incêndio ocorrido no alojamento das categorias de base do Flamengo, há pouco mais de uma semana, no Rio, comoveu o Brasil por se tratarem de jovens entre 14 e 16 anos e chocou por mostrar que um dos clubes mais ricos do País alojava suas promessas em contêineres. Afinal, se no topo da pirâmide do futebol os meninos viviam em local cheio de irregularidades, o que esperar de times de estrutura mais modesta?

Porém, levantamento feito pelo Estado junto aos órgãos competentes (prefeituras e Corpos de Bombeiros) constatou que o caso flamenguista pode não ter sido a exceção à regra: na verdade, dos 20 clubes que disputarão a Série A do Campeonato Brasileiro em 2019, a maioria (14) possui alguma pendência em seus centros de treinamento.

No Cruzeiro, por exemplo, outro gigante em termos técnicos e financeiros, os dois locais utilizados para treinamentos, chamados de Toca 1 e Toca 2, ainda "se encontram em processo de regularização, sendo o clube formalmente notificado da necessidade de regularização no prazo legal de 60 dias", diz o Corpo de Bombeiros Militares de Minas Gerais (CBMMG). Já a prefeitura de Belo Horizonte afirma ter notificado o clube para a obtenção dos alvarás de funcionamento. O Cruzeiro não se posicionou sobre o assunto. A assessoria de comunicação afirmou que trata da questão junto aos órgãos competentes.

O Grêmio, campeão da Libertadores de 2017 e outra potência no País, foi notificado na quarta-feira pela prefeitura de Eldorado do Sul por não ter licença do município para o seu alojamento da base, localizado na cidade a 50 km de Porto Alegre. O clube alega que "existe um alvará de funcionamento válido deste local para a atividade hospedagem em nome do proprietário do prédio e locador para o Grêmio". Também diz que protocolou uma nova solicitação de alvará, agora em seu nome.

Apenas seis clubes da elite estão em dia com as documentações necessárias para alojar e manter os atletas: Atlético-MG, Avaí, Bahia, Chapecoense, Internacional e São Paulo, sendo que este último possui uma ressalva. O CT da Barra Funda, utilizado pelo time principal, ainda tem pendente pedido de renovação da documentação, já que o local passou por reformas recentemente. A própria Prefeitura de São Paulo diz, porém, que "não foram observadas situações que pudessem ser caracterizadas como risco iminente", durante inspeção realizada nesta semana pela Secretaria de Subprefeituras.

Mesmo assim, por precaução, na noite da última terça o elenco se concentrou para o jogo contra o Talleres-ARG no Centro de Formação de Atletas em Cotia, sede da base, que está regularizado. Tal decisão veio após a Prefeitura paulistana divulgar um comunicado oficial falando em "suspensão imediata de todos os alojamentos que não tivessem licença de funcionamento".

Na manhã seguinte, representantes da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer se reuniram com os clubes para definir um cronograma de providências a serem tomadas. O Ministério Público de São Paulo também abriu investigação sobre a situação desses locais.

Os grandes clubes da capital passaram a tomar providências paliativas. O Palmeiras transferiu seus atletas da base para um hotel. Normalmente, o clube aluga imóveis residenciais para os garotos, a exemplo do que faz o Corinthians, que admitiu não ter o laudo de segurança específico do Corpo de Bombeiros para abrigar os adolescentes.

A Prefeitura deu 90 dias para os clubes se enquadrarem. Em nota enviada à reportagem, informou: "A ação da Prefeitura continuará, abrangendo a fiscalização para os clubes menores que também abrigam atletas em alojamentos, além de residências que servem de alojamento de atletas".

Clubes de Norte a Sul possuem pendências e ficam sem alvará

Tradicional celeiro de craques, o Santos possui dois alojamentos para a base: a Casa Meninos da Vila, um imóvel próximo ao clube utilizado pela categoria sub-20, e o próprio estádio da Vila Belmiro, onde ficam os jovens dos times sub-15 e sub-17. Este último, segundo informou à reportagem a prefeitura de Santos, "possui Auto de Vistoria de Segurança (AVS)". Já a Casa, segundo o clube disse por nota, "encontra-se em processo de regularização junto ao Corpo de Bombeiros".

Muitos clubes também se encontram nessa fase de regularização, como é o caso do Goiás. Já o CSA-AL, recém-promovido à Primeira Divisão, foi notificado pela Secretaria Municipal de Segurança Comunitária e Convívio Social (Semscs), "já que não apresentou o alvará de localização e funcionamento para o CT Gustavo Paiva".

 

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No Rio de Janeiro, todos os clubes grandes estão com pendências

Fluminense busca alvará dos bombeiros; Vasco foi autuado pela prefeitura, e Botafogo teve CT interditado pela Polícia Civil

Marcio Dolzan/ Rio, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h31

Os centros de treinamento do Fluminense apresentam irregularidades tanto no espaço da base, em Xerém, Duque de Caxias, quanto no dos profissionais, na zona oeste do Rio. No primeiro caso, o clube está em dia com os bombeiros, mas não possui o Habite-se fornecido pela prefeitura. 

"Estamos fazendo todas as obras, estamos atrás de todos os documentos. É um processo que esperamos que se resolva o mais rápido possível", diz o gerente-geral do Fluminense, Fernando Simone.

No local de treino dos profissionais, o clube não conta com o Certificado de Aprovação emitido pelo Corpo de Bombeiros (CBMERJ). A corporação informa, contudo, que o Fluminense já iniciou o processo de regularização. "O local possui o Laudo de Exigências, que é o primeiro documento emitido no processo", explica o CBMERJ. O clube também foi multado pela Prefeitura do Rio por falta de alvará.

O Vasco também já foi autuado pela prefeitura. Além da falta de alvará, técnicos do município vistoriaram o CT do clube, na zona oeste, e constaram obras que não estavam licenciadas. Procurado pela reportagem do Estado, o clube não se posicionou.

Por sua vez, o Botafogo teve o alojamento das categorias de base no Estádio Caio Martins, em Niterói, interditado pela Polícia Civil devido a rachaduras na parede e fiação elétrica exposta. O clube alega que as instalações são utilizadas apenas "pontualmente", e que o alojamento de General Severiano, na zona sul do Rio, "apresenta toda a estrutura e documentação necessária para o seu funcionamento". A direção informou ainda que "está envidando todos os esforços para atualizar a documentação" em Niterói.

 

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Tido como modelo de gestão, Athletico Paranaense não tem alvará

Questionado, clube se negou a dar explicações: "Não participaremos da reportagem", informou, por nota

Julio Cesar Lima/ Curitiba, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h32

Considerado um clube de vanguarda no País, o Athletico Paranaense possui um dos mais modernos centros de treinamento do mundo – chegou a hospedar a seleção espanhola durante a Copa de 2014, mas não passou em uma vistoria realizada pela prefeitura de Curitiba nesta semana, que constatou a falta de Alvará de Funcionamento da área que atualmente abriga 120 jovens entre 14 e 19. 

Questionado, o clube se negou a dar explicações. "Não participaremos da reportagem", informou, por meio da assessoria. A prefeitura deve notificar o Athletico nos próximos dias.

A ação foi executada pela Secretaria Municipal do Urbanismo e coordenada pela Secretaria do Governo Municipal. Ao todo, 40 clubes da capital paranaense foram envolvidos. Já o Corpo de Bombeiros realizou uma ação de abrangência estadual em 48 clubes. Também fez vistorias e deve informar nos próximos dias se o Certificado de Licenciamento expedido pela corporação também se encontra irregular ou não.

Inaugurado em 1999, o Centro de Treinamento Alfredo Gottardi está localizado a 20 km do centro de Curitiba, no bairro Umbará. Há duas semanas, o Athletico se solidarizou ao Flamengo e às famílias das vítimas após o incêndio no Ninho do Urubu, que matou dez jovens das categorias de base. Bernardo Augusto Mankze Pisetta, Gedson Corgosinho Beltrão dos Santos e Vitor Isaías Coelho da Silva tiveram passagens pelo clube antes de se transferirem para o clube carioca.

 

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Governo promete varredura em todo o País e em outros esportes

Ideia é verificar situação dos centros de treinamento de basquete, vôlei, natação, ginástica e atletismo

Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h33

O governo federal também vai atuar na fiscalização das condições de infraestrutura de centros de treinamento em todo o País. Por determinação do ministro da Cidadania, Osmar Terra, o secretário especial do Esporte, Marco Aurélio Vieira, vai coordenar um levantamento nacional sobre os locais.

A ideia é fazer um estudo abrangente para verificar a situação dos espaços não apenas de clubes de futebol, mas também de agremiações de basquete, vôlei, natação, ginástica, atletismo e outros esportes.

As ações estão em andamento e a Secretaria Especial de Esportes ainda está finalizando a estratégia a ser adotada pelos órgãos. Uma das ideias de Vieira é atuar em conjunto com a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

O governo estuda, por exemplo, a possibilidade de as pastas elaborarem em conjunto um caderno técnico com orientações e regras que deverão ser seguidas pelos clubes. Essas normas definirão, entre outros itens, condições de trabalho e alojamento em que jovens das categorias de base devem ser mantidos nas dependências dos clubes. 

Também devem ser incluídos no caderno técnico do governo federal alertas e procedimentos cujo objetivo é prevenir casos de assédio moral e sexual, trabalho análogo à escravidão e discriminação racial.

 
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