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É triste ver o Flamengo nessa posição. É mais triste ainda ver a posição do Vasco

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2020 | 05h00

Há muito tempo o Flamengo é notícia. Foi campeão de todos os títulos, atrás dos quais correm todos os times do Brasil. De quebra mostrou um futebol vistoso, eficiente, do qual, também, muitas vezes em vão, correm os outros times. De certo modo, o Flamengo ressuscitou um futebol brasileiro meio desacreditado e por tudo isso, com toda justiça, não saia dos noticiários.

Pois bem, saiu. A pandemia que assola o país paralisou tudo, inclusive as notícias esportivas. Todos foram relegados à mesma vala comum do silêncio. Não havia mais competições e rivais a vencer. Mas o Flamengo tinha que continuar ‘notícia’. E nestes últimos tempos, voltou a ostentar essa duvidosa glória. Talvez inebriado pela sucessão de títulos e reverências, o Flamengo resolveu olimpicamente descumprir determinações da Justiça e voltar a treinar. Lutar para voltar a jogar é um direito de todos os clubes. Lutar contra uma situação econômica que leva todos à falência é até dever dos clubes, pensar no seu patrimônio que se esvai dia a dia é algo a ser enfrentado com vigor. Insurgir-se contra uma determinação legal é outra coisa.

O Flamengo poderia recorrer ao governador de seu Estado, ao prefeito de sua cidade. Deveria recorrer preliminarmente às associações médicas do Rio de Janeiro. Deveria consultar um instituto científico de excelência internacional, a Fiocruz, que fica ali mesmo no Rio de Janeiro. Poderia discutir o assunto e pedir auxílio à federação carioca, deveria ou poderia recorrer aos outros clubes cariocas, além do Vasco da Gama, para, aí sim, liderar uma decisão em conjunto.

Nada disso foi feito, ou foi feito sem muito ânimo. A atitude tomada foi voltar às atividades, em treino cuidadosamente registrado pela televisão. Ao mesmo tempo em que fazia isso organizava uma excursão para ia à Brasília falar com quem? Com o presidente da República do Brasil!

A manobra não deixa de revelar certa malícia e esperteza. A reunião foi cuidadosamente calculada para, num certo sentido, absolver o Flamengo de qualquer punição mais forte, já que se entregava à proteção do presidente da República. Ao mesmo tempo, por sua vez, num gesto tácito, colocava à disposição do presidente toda a nação rubro-negra, o que não é pouco, num momento em que o presidente debate-se para resolver problemas pessoais, que não são poucos nem fáceis.

Estabeleceu-se uma espécie de toma lá dá cá entre a presidência do País e o presidente do clube mais popular do Brasil. Deu certo o pleito? Fez sentido o pedido? Aparentemente não, já que, como de hábito, teve contra si toda a nação pensante. Mas foi de qualquer modo proveitoso para os dois lados. O presidente fez-se fotografar sorridente, não no meio do tiroteio habitual de palavras, mas reunido tranquilamente, sem máscara, com os presidentes do Flamengo e Vasco, também sem máscaras. Os clubes arriscaram onde poderiam. Quem mais no meio dessa tragédia com milhares de mortos poderia sequer ouvir pleitos como os levados à reunião?

É triste ver o Flamengo nessa posição. É mais triste ainda ver a posição do Vasco, coadjuvante numa festa na qual entrou como ator secundário. Do Vasco, aliás, é melhor não falar, para resguardar sua enorme tradição e história. Esse episódio é uma prova da confusão que reina no País no enfrentamento dessa pandemia. Enquanto imprensa e comunidade científica gritam solitárias a plenos pulmões alertando dos perigos e imprudências, vê-se que, com raras exceções, ninguém está à altura da situação. Praticamente não há lideres nem lideranças. O fato é que ninguém sabe o que fazer, além do salve-se quem puder. Nesse sentido, e só nesse sentido, a atitude do Flamengo, se não é correta, é compreensível.

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