Paulo Liebert/Estadão
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Fechou em grande estilo

Clássico entre Guarani e Ponte Preta foi belo encerramento para o futebol paulista antes da paralisação do estadual

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 04h00

O futebol paulista precisava interromper definitivamente suas atividades. Poderia terminar de cabeça baixa com um jogo insípido, com alguma partida melancólica, sem torcida e sem público. O acaso decidiu de outra maneira. O Campeonato Paulista de 2020 interrompeu suas atividades em grande estilo, com um clássico de intensidade impensável, com todos os ingredientes dos grandes clássicos.

Quando se pensa em clássico, aliás, vem sempre à mente os mesmos jogos, envolvendo quase sempre as mesmas torcidas. Poucos se lembram de outros clássicos, mas eles existem. Espalhados pelo Brasil, se mantêm vivos e rivalizam com os grandes clássicos das grandes metrópoles.

Bem perto de nós, aqui no interior paulista, temos uma das maiores rivalidades do País, com jogos épicos no decorrer de suas histórias, que não perdem para nenhum Palmeiras x Corinthians em intensidade e significado para suas torcidas. Falo de Guarani x Ponte Preta.

Pois bem, no meio disso tudo, do medo, da insegurança, da perplexidade e sentimento de abandono que atinge todo o País, esses dois clubes protagonizaram um espetáculo que vai se conservar, talvez por longo tempo, na lembrança das torcidas como a mais digna despedida que o futebol paulista poderia oferecer. O clássico que não deveria ser jogado, o clássico do luto, o clássico solitário, longe do público, o clássico das despedidas, a cerimônia do adeus do futebol interrompido.

Foi, ao contrário, um clássico como não se via há muito tempo, para uma invisível torcida que parecia estar lá, lotando o Brinco de Ouro. Se não houver mais futebol, os torcedores de Guarani e Ponte levarão para sempre em suas retinas fatigadas esse jogo épico, com todos os ingredientes das celebrações em momentos decisivos.

Houve de tudo o que compõe um clássico. A Ponte vencia por 2 a 0 até o fim do primeiro tempo. Um jogo pegado, tumultuado, mas bem jogado, com chances dos dois lados. O segundo tempo terminou com a virada espetacular do Guarani. O segundo gol, o de empate, foi uma jogada de grande sofisticação e a Ponte quase marca um gol também antológico. O jogo terminou com a vitória do Bugre e briga entre os jogadores. Em vez de despedida lacrimosa, briga. Como nos bons tempos.

Como um jogo dessa qualidade se deu em momento tão inesperado? É como se a vida, que vai ressurgir sem dúvida, desse uma derradeira mensagem de esperança através do futebol e deixasse como que uma promessa de futuro. As maiores tragédias trazem consigo brechas através das quais é possível espreitar e vislumbrar coisas mais agradáveis, pelo menos por momentos. Guarani e Ponte Preta se tornaram uma dessas brechas, momentâneos instantes ensolarados entre dias sombrios, para suavizar um cotidiano brutal. Faz parte também do acaso ter destinado a esses dois clubes fazer o jogo final, o que dava por encerrado o campeonato não se sabe por quanto tempo.

Guarani x Ponte merece seu lugar entre os clássicos pela trajetória invulgar das duas equipes no futebol paulista e brasileiro. Talvez, neste momento, tivesse mais significado para o Guarani, pelos infortúnios do clube até recentemente, quando se temeu até por seu próprio desaparecimento. Mas, por tratativas e providências que eu totalmente desconheço, o time ressurgiu e o prêmio maior que poderia ter, a mensagem mais clara que poderia dar de sua reconstrução, é certamente uma vitória como a que acaba de obter contra seu maior rival.

A volta do Guarani é importante também para a Ponte. Os dois clubes se nutrem da rivalidade e talvez existam sobretudo por ela. Quero dizer que pessoalmente agradeço a Guarani e Ponte por me terem dado momentos, que julgava já perdidos, de encanto com o futebol. Foi como olhar pela janela e perceber, subitamente, que sobre a rua deserta o sol brilhava. 

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