Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Longe de casa, filho de Luizão repete o pai no interior de São Paulo

Ex-atacante da seleção manda Rocco, de 13 anos, morar no Ituano para aprender a ser jogador de futebol

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2018 | 05h00

Quando tinha 14 anos, o ex-atacante Luizão foi morar debaixo da arquibancada do Estádio Brinco de Ouro, casa do Guarani, em Campinas, onde se profissionalizaria pouco depois, movido pelo sonho de vingar no futebol. O resto é história, com direito a uma Copa do Mundo e muitos outros títulos na carreira. Em 2018, todo esse filme passou novamente pela cabeça do ex-goleador de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e da seleção, mas com outro protagonista: Rocco, seu filho.

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Cria da base do mesmo Palmeiras onde o pai viveu momentos gloriosos, o garoto de 13 anos viu sua rotina mudar drasticamente a partir de março: deixou os treinos no clube que frequentava desde os 7, o conforto da residência em Perdizes, bairro nobre de São Paulo onde vivia com a mãe – os pais são separados –, e partiu com Luizão rumo a Itu. Destino? O alojamento do Ituano, sua nova casa.

“Acho que ele tem de viver tudo o que eu vivi, morar em alojamento, estudar em escola estadual. Se o Rocco fica aqui, eu pagando motorista para ele ir pro treino, não vivenciar o que é ser um jogador de futebol, não vai ser jogador nunca. É como eu penso”, diz o ex-artilheiro.

Não que tenha sido uma decisão fácil. A mãe, Mariana Mesquita, com quem Luizão também tem uma filha (Yasmin, de 16), era radicalmente contra: “O Rocco teve de convencê-la”, explica Luizão, em outro momento de déjà-vu: dobrar a dona Jesuína também não foi tarefa simples na época em que saiu de Rubineia, no interior de São Paulo, rumo a Campinas. 

“A minha mãe não queria porque meu irmão também jogava fora, minha avó tinha acabado de falecer. Botei na cabeça que queria ser jogador de futebol, fui em busca do meu sonho”, conta Luizão.

Convencer-se de que não seria justo privar o garoto do desejo de virar atleta profissional também ajudou o ex-jogador a se desprender do medo. Ou você acha que foi tranquilo para ele entrar no carro após largar Rocco no alojamento do Ituano?

“Foi horrível, cara! Sou apaixonado pelos meus filhos, queria estar com eles no meu colo todos os dias. Mas é o sonho dele, eu apoio. Faz parte da vida.”

Apesar da vontade de jogar futebol ser maior do que tudo, o moleque também se assustou quando se viu longe de casa.

“É uma fase difícil, querendo ou não. Mas estou encarando da melhor maneira, que é jogando bola e me divertindo, porque estou fazendo o que mais amo. É um sonho difícil que muitos jogadores já tentaram e não conseguiram. Todo jovem que sai de casa fica um pouco assustado porque você vai ficar longe da sua família, dos seus amigos. Mas cada um tem um objetivo e o meu, no momento, é ser jogador”, afirma Rocco, com uma confiança na voz até incomum para alguém tão novo.

No fim das contas, Luizão espera que o filho encare a experiência da mesma forma como ele enxerga hoje aquele período no Brinco de Ouro, quando conviveu com outros atletas que também dariam muito o que falar, a exemplo de Amoroso, seu primeiro grande parceiro. “Foi fundamental para eu aprender a ter minhas responsabilidades desde cedo”, recorda-se.

Tem futuro?

Assim como o pai, Rocco joga no ataque e, segundo Luizão, bate na bola muito melhor do que ele. Jogou salão no Palmeiras dos 7 aos 12 anos. No ano passado, iniciou a transição para o campo.

Desafiado a analisar o garoto, Luizão tenta ser o menos coruja e o mais crítico possível. Se é que isto é possível... “Ele joga de centroavante, sabe fazer a parede, não é burro, é inteligente” Palavra de pai. E de jogador.

Três perguntas para Luizão:

1. O Rocco tem condições financeiras que a maioria dos meninos não possuem. Como você lida com isso?

Não facilito em nada. Peço para o pessoal do Ituano que ele seja tratado igual aos outros meninos. Se perceberem que não tem condições, que mandem embora. Não quero nada que ele possa ser favorecido. Seria uma enganação.

2. O seu nome mais ajuda ou mais atrapalha?

Mais atrapalha. Sinto por ele mesmo, porque ele sabe que todo dia tem de enfrentar um peso muito grande.

3. Você passa instruções ou evita dar palpites para não conflitar com o que é ensinado a ele?

A única coisa que eu falo pra ele é: se divirta! Jogue futebol como se fosse um brinquedo. Mas também falo para ele treinar falta e chutar mais, porque ele bate bem na bola, muito melhor do que eu (risos).

Três perguntas para Rocco:

1. Como era sua rotina antes e o que mudou com essa ida para o Ituano?

Antes, eu ia para a escola de manhã, chegava, almoçava e já saía correndo para o treino. Agora, mudou muito, porque tenho muito mais a presença dos meus amigos, fico com eles no dia a dia. O que mais mudou foi ficar longe dos meus pais, mas já me adaptei e estou gostando bastante.

2. Você conversa com seu pai sobre futebol?

Eu assistia aos vídeos de gols dele, às vezes até com ele do meu lado. Ele sempre me chama para conversar. Às vezes, me dá conselhos.

3. Ser filho do Luizão mais ajuda ou mais atrapalha?

Depende do ponto de vista. Querendo ou não, ele sempre me ajuda. Mas tem o outro lado. Ser filho do Luizão não é fácil, porque se eu errar um gol, alguém pode falar que meu pai não errava. Mas gosto da pressão.

 

 

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