Gabriela Biló/ Estadão
Gabriela Biló/ Estadão

Muricy revela falta de preparo para lidar com o problema do alcoolismo de jogadores

Categorias de base são monitoradas mais de perto nos clubes grandes, que têm estrutura e profissionais adequados para isso

Alessandro Lucchetti, especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

O que os treinadores podem fazer para orientar os jogadores que acabam por incorrer no vício do alcoolismo? Na opinião de Muricy Ramalho, ex-treinador de São Paulo, o papel do técnico, nesses casos, é parecido com o de um volante limitado: tem de tocar a bola para alguém habilitado. "Os treinadores estão preparados para treinar o time e não para tratar de alcoolismo. Quando um problema desse tipo aparece, tem de ter um médico ou um psicólogo para intervir. Trabalhar em conjunto. Claro que o técnico pode conversar com o atleta, mas não tenho conhecimento para lidar com uma questão dessa natureza", admite Muricy. Ele questiona se outros treinadores têm.

"Acho que deve ser cada um na sua: o treinador não deve avaliar se a grama está alta ou baixa, isso é com o jardineiro. Também não posso falar sobre alimentação. Quem sabe disso é a nutricionista, e assim por diante", diz o hoje comentarista do SporTV.

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Já presenciei diversos casos de atletas com vício em álcool e drogas. Tentamos de absolutamente tudo para recuperar alguns deles
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João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras

Felizmente, os grandes clubes têm estruturas para tratar o problema em sua base e no profissional. Desde 2011, a Lei Pelé prevê que, para que uma agremiação possa ter o Certificado de Clube Formador, é necessário que tenha em seu quadro alguns profissionais específicos, como psicólogos, assistentes sociais e pedagogos. Regiane Cristina Fernandes, assistente social do Corinthians, atua quando percebe mudanças de comportamento nos atletas da base. Seu trabalho é importantíssimo.

"Com o nosso olhar, conseguimos detectar um semblante mais triste, por exemplo. Nós conversamos com os atletas. Os técnicos ajudam. Além disso, o clube promove palestras. O Casagrande, ex-jogador, por exemplo, já falou para os atletas da base. O Sindicato dos Atletas de São Paulo também trabalha nesse sentido." Ocorre que o time ainda é tabu no mundo esportivo. E quem bebe nunca acha que bebe o suficiente para atrapalhar sua carreira, como contou ao Estado o ex-lateral Cicinho, do São Paulo e Roma.

João Paulo Sampaio, coordenador geral das categorias de base do Palmeiras, lamenta que nem sempre o clube consiga evitar que os garotos desenvolvam o vício e permaneçam nele. O primeiro passo, e talvez o mais difícil, é descobrir os casos. "Já presenciei diversos episódios de atletas com vício em álcool e drogas. Tentamos absolutamente de tudo para recuperar alguns deles, mas, quando não querem, infelizmente é bastante complicado reverter." 

Segundo Sampaio, engajam-se nesse esforço não apenas os funcionários do clube, mas profissionais de fora também. "Procuramos ajudá-los de todas as maneiras para que saíam dessa situação." Os pais são importantes e sempre chamados nesses casos.

Família

A parceria com os pais é uma das estratégias adotadas por Ricardo Barros, assistente social do Santos, para lidar com problemas como o consumo abusivo de álcool. "Antes de mais nada, os pais de jogadores jovens devem ser informados de que o futebol tem processos excludentes e altamente seletivos. 99% dos jogadores vão ficar pelo caminho. Se não sinalizarmos isso, pais e filhos acabam se frustrando, e isso pode ser perigoso", diz o profissional. "Procuramos oferecer o atendimento o mais individualizado possível."

O psicólogo Gabriel Puopolo de Almeida, que atua no CT da base do São Paulo, mune-se de informações passadas por treinadores, massagistas, roupeiros e fisioterapeutas, entre outros, para detectar quadros que possam requerer intervenção. "Precisamos investigar a vida do atleta para saber o contexto que envolve um quadro de consumo excessivo de álcool", pondera Almeida, que não adota uma linha repressiva. Ao ingressar no CT de Cotia, os jogadores recebem uma cartilha com diversas orientações de conduta, e o tema álcool é abordado.

"Procuramos desenvolver atletas que pensem, não que obedeçam. Formamos os atletas, aqueles que serão promovidos ao profissional e os que não serão, para serem livres. A ideia é tratá-los como adultos, mas entendê-los como garotos", completa Puopolo. Os clubes gostumam tratar desses casos em sigilo absoluto.

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