Helder Santos/ASPress
Lucas Fernandes, 21 anos, em partida do Portimonense contra o Marítimo, pelo Campeonato Português. Helder Santos/ASPress

Em busca de carreira na Europa, jovens brasileiros 'invadem' liga portuguesa

Jogadores do País se transferem cada vez mais cedo para Portugal, que chega a ter time com 19 atletas do Brasil

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2019 | 04h30

O volante Maurício Guedes Cruz Júnior jogou na Portuguesa dos 12 aos 18 anos. Um dos pontos altos de sua carreira foi a Copa São Paulo de Futebol Júnior do ano passado, quando chegou à semifinal. Mesmo com a carreira em ascensão, ele decidiu se mudar para a Europa para iniciar sua vida profissional por lá. Hoje, o neto de portugueses atua no time sub-19 do Naval 1893, da Segunda Divisão portuguesa. Seu time não paga salários para os meninos da base, só alimentação e alojamento. Mesmo assim, o volante se diz feliz por estar na Europa, a maior vitrine do futebol mundial, em sua visão.

A trajetória de Maurício não é um ponto fora da curva. Os jovens brasileiros estão indo cada vez mais cedo para a Europa. A nova conjuntura vai além dos casos célebres, como Vinicius Junior, que foi contratado pelo Real Madrid quando tinha 17 anos, mas só se transferiu depois da maioridade. O cenário abrange também os jogadores que ainda buscam o estrelato e se transferem para times pequenos e medianos. Com isso, a Copa São Paulo perde um pouco de seu brilho como grande vitrine. “Todo jogador que está no Brasil sonha com uma transferência para a Europa. A oportunidade surgiu e era o meu sonho”, diz o volante.

O que fez o lateral-esquerdo João Lucas arrumar as malas assim que completou a maioridade foi a diferença de estrutura comprovada pelos amigos que viajaram antes dele. “O Brasil, tanto no profissional como nas categorias de base, está um pouco atrás do futebol europeu. Os times de segunda e terceira divisões têm problemas de estrutura para os atletas. Na Europa, é diferente”, compara o defensor, que começou sua passagem na Europa no Alcochetense, da Terceira Divisão portuguesa.

Em função do idioma, Portugal é o destino preferido. Hoje, o Brasil tem 152 atletas divididos pelas 18 equipes só na Primeira Divisão de acordo com o site Transfermarket, especializado em transferências internacionais. A Diretoria de Registro, Transferência e Licenciamento da CBF aponta que a terra de Cristiano Ronaldo e Figo foi o país que mais contratou brasileiros na última janela. Foram 51, a grande maioria entre 18 e 23 anos. Esse movimento migratório cria alguns casos curiosos. O Naval tem oito brasileiros (cinco na base e três no profissional). Já o Portimonense tem 19 jogadores do País (leia abaixo). 

A Europa não é propriamente o paraíso para os principiantes. Pelo contrário. Alguns clubes não pagam salário e outros dão uma ajuda de custo que varia entre 150 euros (R$ 640) e 400 euros (R$ 1700). “Estou em busca de um objetivo, que é ser atleta profissional. Agora não estou ligando muito para dinheiro. Tudo tem seu tempo”, diz Maurício.

Para a aventura dar certo, os atletas têm de se adaptar aos gramados sintéticos, realidade nas divisões inferiores, e às exigências táticas dos treinadores – exigências mesmo. Eles têm de encarar também o frio na casa dos 5 °C nesta época do ano.

As relações têm uma temperatura um pouco melhor. “Nós fomos muito bem recebidos. Foi melhor do que eu imaginava”, comemora João, que estava preocupado com preconceito e discriminação.

O economista Michel Augusto de Souza Teixeira viu na imigração antecipada um nicho de mercado. Ele criou uma empresa de gestão de carreira de atletas que oferece acompanhamento médico, preparação física e até assessoria financeira. Hoje, atende uma dúzia de atletas em Portugal, Itália e Malta. Auxilia mais jogadores no exterior do que no Brasil, a maioria até 23 anos. “A Europa é a melhor vitrine. Além disso, mesmo que o atleta não dê certo, ele ganha credibilidade e valorização numa eventual volta ao Brasil”, diz o empresário. 

Seis perguntas para Lucas Fernandes, meia do Portimonense

1. Adaptação, definitivamente, não deve ter sido um problema para você, certo? Além do idioma, o clube conta com 19 brasileiros no elenco...

A adaptação em Portugal foi muito boa e rápida. Eu já conhecia muitos jogadores daqui do Portimonense e isso me ajudou bastante.

2. Como funciona o vestiário do Portimonense? Às vezes, você tem até a sensação de ainda estar jogando em um clube do Brasil?

Por mais que a maioria seja brasileira, é diferente. É outro ambiente, outra cultura de trabalho, mas dá para se sentir um pouco “em casa”, sim. Isso ajuda bastante.

3. Os jogadores de outras nacionalidades estranham um pouco? Acaba, não por maldade, mas por afinidade mesmo, criando-se uma “panela” de brasileiros e outra com o “restante”?

É um pouco mais difícil por conta da língua para eles, mas nosso grupo aqui no Portimonense é muito bom, muito unido. Sempre estamos todos interagindo, sem deixar ninguém de lado.

4. Em termos de cultura, o clube é muito diferente do que você estava acostumado no São Paulo? Me refiro a disciplina, regras de conduta, postura dentro e fora de campo... Eles entregam alguma espécie de cartilha para quem chega?

Quase não tem diferença, pois, assim como o grupo, a diretoria também é brasileira, então muda pouca coisa. Me entregaram umas duas folhas com algumas regras, mas nada que eu já não estivesse acostumado no São Paulo.

5. Em campo, você tem jogado na mesma função da época do São Paulo, como meia de ligação? 

Tenho jogado na minha posição, de meia, ou às vezes de segundo volante, saindo mais de frente para jogar. Eu me sinto muito à vontade nessas duas posições.

6. Seu contrato vai até maio. Quais são os planos? Pretende ficar na Europa por mais tempo ou sonha em voltar ao São Paulo e se firmar no Morumbi?

Estou focado em fazer um bom campeonato aqui, tanto individual como coletivamente. Sendo assim, o que acontecer no final desse contrato será fruto do trabalho feito aqui.

 

 

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Reduto de Ayrton Senna atrai brasileiros ao Portimonense

Equipe fica em Portimão, famosa região turística do Algarve, em Portugal

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2019 | 04h30

Portimão, uma das maiores e mais conhecidas regiões turísticas do Algarve, em Portugal, foi durante muitos anos um dos redutos de Ayrton Senna, que tinha uma mansão na cidade. Conhecida por suas belas praias e clima quente, é destino recorrente de brasileiros, incluindo jogadores de futebol. Só no Portimonense, clube local, há 19, o que representa 70% do elenco.

“O Algarve é muito semelhante ao Brasil porque é uma região turística e praiana. A adaptação fica muito fácil”, explica o presidente do clube, o também brasileiro Rodiney Sampaio. Seu vice é outro compatriota, Robson Ponte, ex-jogador que brilhou no Guarani, nos anos 90, e acabou fazendo carreira no Bayer Leverkusen, da Alemanha.

O perfil do elenco é parecido: jovens talentos da América do Sul, África e Ásia. A exceção é o já rodado atacante colombiano Jackson Martínez, de 32 anos.

Entre os brasileiros, muitas promessas que deixaram cedo o País rumo ao Velho Continente, casos de Lucas Fernandes, de 21 anos, e Paulinho Bóia, de 20, emprestados no ano passado pelo São Paulo, com quem o Portimonense tem parceira: são 11 atletas formados na base tricolor atualmente por lá.

“Sempre apostamos nos jovens que não têm oportunidade no futebol brasileiro, africano ou japonês. Essa é a filosofia: revelar, ter um DNA próprio, um futebol parecido com o sul-americano. Naturalmente, depois, você vende para outras equipes. Em Portugal, somos o clube que mais vendeu no ano passado e o que mais vai vender nesta janela”, garante Sampaio.

As comparações com o Porto, clube que tem fama de bom negociador, ao comprar barato e vender caro, acabam sendo inevitáveis. “Ficamos muito conhecidos em Portugal porque não fazemos força para vender. Os jogadores são caros. Tanto que estamos no meio da tabela, ganhamos do Sporting, do Guimarães, do Benfica... Então, é um pouco diferente do que o Porto faz. O Portimonense não compra jogadores com os valores que o Porto compra”, compara.

Em sua segunda temporada seguida na Primeira Divisão, o time figura na zona intermediária da tabela. Conseguir uma das vagas à Liga Europa seria a cereja do bolo do projeto iniciado em 2014 pela diretoria atual. O clube, fundado em 1914, jamais foi campeão na elite. 

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Fifa fecha cerco sobre negócios com atletas menores de idade

Clubes como Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid já foram punidos pela entidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2019 | 04h30

A Fifa proíbe a transferência internacional de atletas menores de 18 anos. Recentemente, a entidade abriu processos disciplinares que terminaram em sanções a Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid, que tentavam se aproveitar de algumas exceções à proibição. O Real Madrid, por exemplo, foi impedido de inscrever jogadores nas janelas de transferência de janeiro e julho de 2017.

Uma das exceções aproveitadas pelos clubes é a viagem de um estrangeiro para morar em outro país por razões não esportivas. Exemplo: um adolescente brasileiro viajou com a família para acompanhar o pai, que foi trabalhar como engenheiro. Ele começou a jogar futebol no novo país e acabou inscrito nas categorias de base de determinada equipe. Nessa situação, a contratação é permitida pela Fifa e não é caracterizada como transferência. 

“A Fifa investigou e descobriu que alguns clubes estavam extrapolando a regra. Hoje, o monitoramento é mais efetivo. Um subcomitê da Fifa deve analisar e verificar se cada caso de contratação de menor de idade se encaixa em uma das exceções”, explica o advogado Eduardo Carlezzo.

No caso de contratações internacionais feitas antes da maioridade, os atletas continuam a treinar e atuar no seu clube de origem até que completem 18 anos, momento em que serão transferidos ao exterior. Vinicius Junior, que se transferiu do Flamengo para o Real Madrid, é um exemplo.

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