Eduardo Medrano/Paulista
Vendas ajudam Paulista a se manter durante pandemia de coronavírus. Eduardo Medrano/Paulista

Rifa de medalha resgata plano do Paulista, do Jundiaí, de se recuperar no futebol

Durante pandemia, clube da Série A-3 muda gestão, faz mutirão de vendas de máscaras e busca opções para quitar rombo de R$ 60 milhões

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h01

Uma sala que permaneceu trancada e esquecida há anos dentro do estádio Jayme Cintra é uma das esperanças para o Paulista, de Jundiaí, começar a se reerguer após anos de insucessos no futebol e inúmeros problemas financeiros. A nova diretoria do clube encontrou no local abandonado uma série de itens antigos, em especial um pacote de 25 medalhas pelo título da equipe na Copa do Brasil de 2005. Um dos itens de premiação foi vendido em uma rifa e outros ainda devem ser leiloados para ajudar a arrecadar dinheiro.

Com 111 anos de história, o Paulista vive durante a pandemia do novo coronavírus um período de intensas transformações. O líder da torcida organizada do time, Rodrigo Alves, topou assumir como presidente gestor depois do cargo ficar vago e encontrou uma situação bastante complicada. O clube está registrado em quatro diferentes números do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJs), faz campanha ruim na Série A-3 do Estadual e acumula R$ 60 milhões em dívidas, a maior parte tributária e trabalhista.

O cenário difícil não desanimou o presidente novato. Apenas com 30 anos, ele recebeu cumprimentos de líderes de outras torcidas organizadas após tomar posse e entende ser o momento do clube se reinventar. "Nossa torcida é apaixonada e está comprando a ideia das ações que estamos fazendo durante a pandemia para arrecadar dinheiro. Tenho fé que vamos conseguir nos reestruturar", disse ao Estadão. Em quatro sábados recentes, o Paulista fez um mutirão de vendas no estádio e conseguiu bons números de vendas: 5 mil máscaras, 250 camisas e 80 mochilas. Todas as peças trazem o escudo do clube.

Mas a ação mais notória nesta época foi justamente a rifa da medalha de campeão da Copa do Brasil. O clube vendeu cem números aos interessados a R$ 10 cada e conseguiu arrecadar R$ 1 mil para pagar algumas contas atrasadas. "As medalhas estavam em uma sala trancada dentro do estádio. Por anos ninguém abriu a porta. Eu chamei um chaveiro, entrei lá e achei um monte de camisas antigas, agasalhos sem uso e 25 medalhas da Copa do Brasil. Nós vamos nos organizar para fazer bom uso de todos esses itens", contou o presidente.

Do pacote de medalhas, parte ficará no memorial do clube e o restante será destinada a outras ações, como leilões. Os uniformes também devem ser usados para essa finalidade. Nas últimas semanas o Paulista organizou não só o mutirão de vendas de máscaras e mochilas, como também realizou lives nas redes sociais com a presença de ex-jogadores para incentivar a participação da torcida neste novo momento.

O clube viveu o ápice entre 2005 e 2006. O título da Copa do Brasil rendeu a participação na Libertadores do ano seguinte, quando chegou a ganhar dentro de casa do poderoso River Plate. Nos anos seguintes a situação do Paulista desandou e os rebaixamentos viraram rotina. No Campeonato Brasileiro, o time chegou a disputar a Série B até 2007. No Estadual, a última presença na elite foi em 2014, para depois amargar a queda ao quarto escalão.

Em 2019 o Paulista conseguiu acesso à Série A-3, porém nesta temporada a equipe estava na lanterna antes da paralisação. "Faltam quatro jogos e quem sabe a gente precise ganhar três para não cair", calcula o novo presidente. Outra preocupação dele é organizar o CNPJ do clube. O time está registrado na Federação Paulista de Futebol (FPF) como Paulista Ltda. e vai estudar em como unificar os cadastros.

Segundo o diretor jurídico do Paulista, Marco Antônio Zuffo, a situação difícil do clube tem conseguido ser resolvida pouco a pouco com doações da torcida. Uma loja de materiais de construção, por exemplo, bancou R$ 14 mil para reformar o vestiário do time. Outro comerciante contribuiu com produtos de limpeza para a faxina. "O clube quase chegou ao ponto de insolvência. Mas em Jundiaí as nossas ações têm mexido positivamente com a torcida", comentou.

Zuffo contou que mesmo antes da pandemia o Paulista já havia conseguido diminuir um pouco as dívidas. O clube conseguiu usar parte da cota recebida pela FPF para quitar pendências. Em um ano, foram gastos R$ 1,2 milhões para resolver 78 processos trabalhistas.

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Parcerias com empresas e revelações de jogadores marcam história do Paulista, de Jundiaí

Fundado em 1909 por funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, o clube sempre foi um tradicional participante de Campeonatos Estaduais das duas principais de divisões

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

O hoje Paulista de Futebol de clube já atendeu por outros nomes ao longo dos 111 anos de história. Seja como Lousano Paulista ou Etti Jundiaí, a equipe se notabilizou nas últimas décadas por conseguir surpreender times grandes, assim como por revelar jogadores que inclusive chegaram à integrar a seleção brasileira.

Fundado em 1909 por funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, o clube sempre foi um tradicional participante de Campeonatos Estaduais das duas principais de divisões até firmar uma parceria na década de 1990 e se chamar Lousano Paulista. Sob esse nome, o time sai da Série A-3 e consegue projeção nacional nas categorias de base ao ser campeão da Copinha, em 1997, sob o comando do técnico Giba.

No ano seguinte foi a vez da parceria mudar de empresa e ser a Parmalat a operadora do clube. Em campo, o time passa a se chamar Etti Jundiaí. A operação durou até 2002, quando voltou ao nome original, mas conservou o legado de ter organizado uma forte categoria de base para a revelação de talentos. "Com a Parmalat o time se estruturou de mais e bons jogadores subiram ao time de cima e foram depois negociados", disse Vágner Mancini, ex-treinador e ex-jogador do time.

Mancini viveu os momentos mais gloriosos do Paulista ao ser campeão como jogador do Campeonato Brasileiro da Série C em 2001 e vencedor no papel de técnico da Copa do Brasil de 2005. "Do time que eu comandei, até 70% do elenco era formado dentro de casa. Isso foi um trunfo, porque os jogadores tinham identificação com o clube, conheciam a história e se sentiam bem na cidade", comentou.

O elenco que na Copa do Brasil de 2005 passou por Botafogo, Cruzeiro e Fluminense para ser campeão tinha o goleiro Victor e o zagueiro Réver, atualmente no Atlético-MG, mais o atacante Mossoró e o meia Cristian, ex-Corinthians. Parte daquele grupo foi ainda vice-campeão do Estadual em 2004 e disputou pela equipe a inédita Libertadores, em 2006.

O meia Cristian, atualmente no Juventus, relembra com saudade daquela época. "Naquela época o time era muito unido. A maioria dos jogadores morava debaixo da arquibancada, estavam subindo da base para o profissional. Todo mundo já se conhecia e se entendia muito bem. Quase todos foram criados ali", disse o jogador, que atualmente está com 36 anos.

Outro nome revelado pelo Paulista foi o atacante Nenê, atualmente no Fluminense. O jogador tem participado de algumas ações da equipe neste momento de crise. Além dele, quem passou pelo Paulista durante a época mais gloriosa do clube, garante sentir uma grande empatia pelo time e torcer para que a equipe consiga se recuperar.

"O Paulista desde a época do Etti Jundiaí sempre foi um clube formador de time grande. É triste ver um clube nesta situação. Eu participei de muitas coisas ali, peguei safras boas. O clube me deu as condições de ser um jogador profissional", comentou Cristian. "É um clube de tradição, mas que vive momento difícil. Quem toca o Paulista precisa ter competência e conhecer muito do futebol e dos bastidores", disse Mancini.

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