ALFREDO LUNA / TELAM / AFP
ALFREDO LUNA / TELAM / AFP

River Plate e Boca Juniors tentam salvar final da Libertadores

Insatisfeitos com final em Madri, rivais jogam em Madri quase duas semanas após atos de violência em Buenos Aires

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2018 | 05h00

Os argentinos sempre sonharam com uma decisão da Libertadores entre River e Boca. “Final do mundo”, expressão talhada pelo esparramado orgulho portenho. O empate por 2 a 2 na ida foi belo. Expressão aprovada. Na volta, a violência da torcida, as falhas de policiamento e da organização transformaram o sonho da final inédita em uma vergonha nacional. A chuva de pedras soterrou o espetáculo. Duas semanas depois, jogadores insatisfeitos com a escolha de Madri torcem para que não ocorram novos atos de violência. Só querem que a ex-final do mundo acabe bem. Simples assim. 

Santiago Solari, técnico do Real Madrid, anfitrião da partida, resumiu o sentimento da final que minguou. “A partida perdeu a transcendência”, disse o ex-jogador do River. 

A final deste domingo encerra uma fase na história do principal torneio sul-americano. A partir do ano que vem, ela será disputada em partida única com uma sede definida. O primeiro palco será Santiago, capital chilena. 

Após o empate por 2 a 2 no longínquo 11 de novembro, na casa do Boca, o ganhador será campeão. Novo empate leva a decisão para a prorrogação. Se o empate persistir, pênaltis. 

O caráter mítico e místico de Boca e River foi se perdendo a partir do dia 24 de novembro. Torcedores do River Plate jogaram pedras e garrafas no ônibus do Boca Juniors na chegada ao Monumental. Pablo Pavón precisou ser hospitalizado com graves ferimentos nos olhos. Jogo adiado para o dia seguinte. 

No domingo, depois que os torcedores estavam no estádio, Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, concordou com o pedido do Boca de novo adiamento, pois os atletas não tinham condições de jogo. A final foi adiada sem data e sem local definido. Depois de vários dias de incerteza, o Tribunal da Conmebol puniu o River Plate com multa de US$ 400 mil (R$ 1,54 milhão) dois jogos com portões fechados. E Madri foi escolhida por interferência direta da Fifa sobre a Conmebol. Com as duas torcidas. 

Ninguém gostou. O River se sentiu prejudicado, pois não jogará em casa; o Boca responsabiliza o rival pelo ataque e queria ser declarado campeão. Todos os argentinos queriam jogar em seu país. A alma do Superclássico se perdeu. “A decisão foi levada para fora da América do Sul por questões comerciais. O poder das instituições passou por cima da vontade dos jogadores”, avalia o sociólogo mexicano Fernando Segura, estudioso da violência no futebol argentino e membro da ONG Salvemos al Fútbol. 

A preocupação com a segurança percorreu 10 mil de quilômetros, a distância de Buenos Aires a Madri. Só se fala disso. Serão entre três e quatro mil policiais para coibir a ação de torcedores violentos. São esperados entre 400 e 500. Alguns foram deportados, como Maximiliano Mazzaro, líder de uma ala radical da torcida do Boca. “Tomara que seja um jogo de paz”, resumiu Dario Benedetto, carrasco dos brasileiros. 

O goleiro Franco Armani já pensa lá na frente e quer um fim para a história. Ontem, o Boca foi até o CAS (Corte Arbitral do Esporte) para ser declarado campeão. “Os jogos se ganham no campo. Depois de hoje, teremos um campeão e não se fala mais nisso”, definiu. 

RECEITAS

A cidade de Madri deve receber cerca de ¤ 42 milhões (R$ 186 milhões) com a final da Libertadores. A projeção foi feita pela Confederação Empresarial Independente de Madri. 

As receitas incluem, por exemplo, o crescimento na ocupação hoteleira, da ordem de 8 a 10%, aumento do número de turistas e ações dos patrocinadores na cidade. Foram vendidos 25 mil ingressos para os dois times mais 20 mil na Espanha.

“A final está gerando movimentação intensa em hotéis, aeroportos, bares e restaurantes. Para o Real Madrid, será uma valiosíssima oportunidade de beneficiar parceiros e ativos importantes, como os sócios-torcedores, permissionários de áreas vips, concessionários e fornecedores do estádio”, avalia Mauro Corrêa, da CSM Golden Goal, empresa especializada em gestão e marketing esportivo e que atuou na Copa do Mundo 2014 e nos Jogos de 2016 no Brasil. 

Os torcedores argentinos já mudaram a cara da capital espanhola. Madri ficou com um jeitão de Buenos Aires, pois os fãs levaram a cantoria tradicional dos estádios sul-americanos, já conhecida dos jogos da Libertadores, para os pontos principais da cidade, como a Plaza Mayor e o estádio Santiago Bernabéu, local da partida. Em alguns locais, os torcedores dos dois times até cantaram juntos. Os custos são “salgados”: passagem aérea, alimentação, transporte local, hotel e ingresso somam entre R$5 mil R$ 7 mil. 

Até Lionel Messi vai assistir ao jogo. De acordo com a Conmebol, o craque argentino terá a sua disposição um camarote exclusivo para seus familiares no Santiago Bernabéu. Ele confirmou presença. A entidade sul-americana também convidou todos os jogadores sul-americanos que atuam na Liga Espanhola e argentinos que defendem outros clubes europeus. 

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