Maxim Shemetov/Reuters
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Tá russo! Derrota para a Alemanha me persegue até no táxi

Todo dia, um 7 a 1 diferente. No último mês, teve um em russo e teve outro a uns 30 mil pés de altitude

Marcio Dolzan, enviado especial / Kazan, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 04h00

Logo no início da Copa do Mundo, depois de cobrir o jogo Portugal x Espanha, eu me vi do lado de fora do Fisht Stadium, às 2h30 da madrugada, com uma indagação que me acompanhava: “e agora?”. Eu precisava voltar ao hotel sem saber direito onde ele ficava e correndo o risco de o taxista me dar uma volta (em vários sentidos). Aí, eu fiz o que manda a cartilha: joguei no Google Maps o nome do hotel para saber mais ou menos a distância de onde estava, peguei o aplicativo de tradução e fui negociar com o taxista.

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O problema é que aquele seria o primeiro táxi que eu pegaria na Rússia e eu, tal qual um volante substituto na seleção brasileira em mata-mata, não tinha muita noção do que viria pela frente. Se o motorista me dissesse que a viagem até lá custaria, sei lá, 5 mil rublos (algo como R$ 300), eu provavelmente faria cara de quem estava achando aquilo muito caro e diria “quatro e quinhentos está muito bem pago, mas tudo bem”. 

Foi aí que o rapaz fez o preço da viagem. “Sua corrida vai custar mil trezentos e cinquenta rublos”, ele me disse - ou seja, eu pagaria em torno de R$ 80.

Beleza, aceitei. No trajeto, quase 3 horas da manhã, o motorista decidiu conversar comigo quando descobriu que eu era brasileiro. Pegou o aplicativo de tradução e digitou com uma mão enquanto dirigia com a outra. 

 

Do lado de fora, os guardrails da autoestrada passavam rente à porta. Do lado de dentro, eu pensava que finalmente descobriria como funciona um seguro saúde em viagens internacionais. Aí o taxista me mostrou o que havia escrito na tela do celular. 

“Lamento muito o que aconteceu com o Brasil na última Copa.”

Ou seja, minha primeira viagem de táxi em Sochi foi com um russo lembrando do 7 a 1 enquanto ele dirigia com uma mão na madrugada. Era praticamente um inferno de Dante.

Volantes de carro ou de futebol à parte, semana passada embarquei num voo a Moscou logo após a classificação da Rússia sobre a Espanha quando um nativo do país da Copa se sentou ao meu lado no avião. Ele nitidamente havia acompanhado o jogo do boteco. Estava bastante animado, viu minha credencial de jornalista e perguntou de onde eu era. Falei que era do Brasil. 

Ele arregalou os olhos, abriu um sorriso que emitiu uns cinco decigramas de álcool na cabine do nosso Airbus e desatou a conversar em inglês sobre grandes esportistas brasileiros.

“Pelé, muito bom, muito bom!”, disse Igor - ele se chamava Igor. “Ayrton Senna, muito bom, muito bom!”, continuou. Perguntei sobre o que ele achava de Nelson Piquet: “Piquet? Muito bom, muito bom. Mas ele é espanhol, não é?”.

O Igor estava animado com a vitória da Rússia sobre a Espanha. Foi aí que ele franziu o cenho. Olhou para mim sério e perguntou quem eu achava melhor, se Messi ou se Cristiano Ronaldo. “Messi”, respondi de pronto. Ele me estendeu a mão e me cumprimentou. Na sequência, declarou sua torcida nesta Copa do Mundo: “Estou torcendo para o Brasil. Brasil muito bom, muito bom!”.

Por um momento, bateu um orgulhinho nacional. Ao que o Igor emendou: “e como vocês encararam a derrota para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014?”.

Todo dia, um 7 a 1 diferente. No último mês, teve um em russo e teve outro a uns 30 mil pés de altitude. 

*MARCIO DOLZAN É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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