Lucas Figueiredo/CBF
Equipe do VAR no jogo entre São Paulo e Botafogo. Lucas Figueiredo/CBF

VAR no Brasil demora 46% a mais do tempo recomendado pela Fifa

Com média de 110 segundos (1min50) para árbitros tomarem decisões, CBF estuda como melhorar uso do vídeo no País

Guilherme Amaro e Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 05h00

Pouco mais de um ano depois de sua implantação no Brasil, o VAR ainda não caiu nas graças do público. As longas conversas entre o juiz de campo e a equipe que fica na sala que opera o equipamento para definir se um lance precisa ser revisto tem tomado cada vez mais tempo nas partidas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) estuda como melhorar o uso do árbitro de vídeo e deverá divulgar mudanças na segunda-feira.

No último balanço divulgado pela CBF, após as primeiras cinco rodadas do Brasileirão, cada consulta ao VAR tem demorado em média 110 segundos (1min50), tempo de 46% acima do recomendado pela Fifa quando a entidade aprovou o uso da tecnologia. Os 75 segundos (1min15) apontados pela organização foram exatamente os registrados na primeira experiência do VAR no Brasil, em 14 jogos da Copa do Brasil de 2018. 

No último fim de semana, os problemas do futebol nacional com o VAR ficaram evidenciados com a estreia do recurso no Campeonato Inglês. Decisões rápidas, transparentes ao público e sem longas paralisações até chegaram a levantar dúvidas se as regras seriam diferentes nas duas competições. Mas não é o que acontece quando olhamos o regulamento.

Campeonato Tempo médio de parada do VAR
Brasileirão 2019 1m50s (110 segundos)
Liga dos Campeões 1m30s (90 segundos)
Copa do Mundo 2018 1m22s (82 segundos)
Copa do Brasil 2018 1m15s (75 segundos)
Sugestão da Fifa 1m15s (75 segundos)

Há apenas quatro tipos de lances que podem ser analisados pelo VAR no Brasil, na Inglaterra ou em qualquer outro país, segundo a cartilha feita pelo Conselho da Federação Internacional de Futebol (Ifab, na sigla em inglês): se foi gol ou não, se houve pênalti, erro de identificação para aplicar um cartão e se a jogada foi ou não para vermelho direto.

Até mesmo o slogan que norteia os protocolos de arbitragem no Brasileirão e na Premier League é o mesmo: "interferência mínima, benefício máximo". O que difere os torneios são orientações. Antes de o Campeonato Inglês colocar em prática a tecnologia oficialmente, foram dois anos de testes realizados. Assim, foi possível fazer ajustes para minimizar o impacto do VAR no espetáculo. Quatro delas são essenciais para a dinâmica do jogo: 

- usar a cabine de checagem apenas em casos imprescindíveis; 

- tentar verificar se houve irregularidade no gol enquanto os jogadores comemoram;

- comunicar via telão o que está sendo analisado pelo VAR (em campos sem este recurso - Old Trafford, do Manchester United, e Anfield, do Liverpool - são usados sistemas de som);

- punir com cartão amerelo jogadores que façam sinal pedindo o uso do VAR.

Mas, por aqui, o problema parece estar mesmo na demora para uma tomada de decisão. No empate entre Palmeiras e Bahia, em duelo válido pela 14.ª rodada do Brasileirão, dois pênaltis foram marcados para a equipe baiana após Ricardo Marques Ribeiro, árbitro de vídeo, acionar Igor Benevenuto em campo. Em cada uma das vezes, cerca de cinco minutos foram gastos para que um consenso fosse tomado sobre as infrações. A partida teve uma duração total de 110 minutos - 20 a mais do que o tempo regulamentar.

O zagueiro Vitor Hugo, que fazia sua reestreia pela equipe paulista depois de duas temporadas na Itália e teve contato com o VAR na Europa, estranhou a demora: "Quando cheguei na Itália já tinha o VAR. Lá, o árbitro se faz respeitar mais e os jogadores respeitam mais toda situação do VAR. Também é mais rápida a tomada de decisão. Aqui está pecando um pouco, não na decisão em si, mas no tempo que está levando." 

Até mesmo os impedimentos, que são lances objetivos e que não demandam interpretação, estão demorando para passar por revisão. O brasileiro Gabriel Jesus foi o autor do primeiro gol anulado pelo VAR na Inglaterra. Todo processo de revisão do lance, milimétrico, durou exatamente 62 segundos. Por aqui, o gol feito por Gabigol no empate entre Flamengo e Corinthians demorou 5min15 para ser validado.

Em audiência pública na Comissão do Esporte da Câmara Federal dos Deputados, no mês passado, o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba, defendeu o uso do VAR. Segundo ele, nas nove primeiras rodadas do Brasileirão foram 40 erros capitais corrigidos, com um índice de aproveitamento nas decisões de 97,1%. Agora, o objetivo da CBF é diminuir o tempo gasto no processo: "Vamos tentar melhorar um pouco o tempo gasto nas revisões, sem nunca abrir mão da precisão. Mas para poder melhorar a fluência do jogo". O ex-árbitro já disse que sua meta é diminuir o tempo médio perdido dos 110 segundos (1min50) para 80 segundos (1min20).

SEM AJUDA

Um fator que tem sido determinante para a implantação do sistema do VAR nas competições internacionais é a compreensão dos técnicos e jogadores. Um dos grandes defensores do árbitro de vídeo antes de sua estreia na Europa, Pep Guardiola manteve o discurso mesmo quando foi eliminado da última edição da Liga dos Campeões. 

"O VAR pode levar mais tempo para ver as imagens e os diferentes ângulos. Se cometemos erros com o VAR eu não concordaria em levar muitos minutos para tomar a decisão... É por isso que eu apoio bastante: porque é justo", disse o multicampeão após ver um gol de Sterling ser bem anulado no último minuto do jogo contra o Tottenham com a ajuda da tecnologia.

Já no Brasil, em muitos casos não existe colaboração para a adaptação da arbitragem ao novo processo. A pressão ocorre enquanto os árbitros tentam conversar com quem está na cabine, operando o sistema - em cena emblemática da Copa do Brasil, o meia D'Alessandro, do Internacional, foi expulso depois de perseguir o árbitro Rafael Traci, que tentava chega até a cabine do VAR. Há também um questionamento quando os juízes anunciam a decisão tomada após a revisão dos lances. E, por fim, quando a partida acaba, muitos técnicos e dirigentes dos time derrotados "culpam" a arbitragem e o VAR pelo resultado adverso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Arnaldo Cezar Coelho detona uso do VAR no Brasil: 'É um desastre'

Ex-árbitro diz ser favorável ao uso da tecnologia para 'falha humana gritante', mas critica como tem sido a utilização do vídeo atualmente

Guilherme Amaro e Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 04h30

Primeiro árbitro brasileiro a apitar uma final de Copa do Mundo, em 1982, Arnaldo Cezar Coelho detonou o uso do árbitro de vídeo no Brasil. O ex-juiz disse ser a favor da utilização da tecnologia para lances com "falha gritante", mas criticou os métodos que têm sido adotados. Veja abaixo a análise:

"Sou a favor da tecnologia para esclarecer algumas dúvidas, mas da forma como está sendo empregado o VAR é um desastre para o futebol em vários aspectos. Primeiro porque contraria tudo que a regra determina. A regra determina que um jogo jogado de forma dinâmica, de não se perder tempo. Antigamente, o goleiro poderia ficar com a bola nas mãos após recuo e não tinha tempo limite, por exemplo. Essas modificações demonstram interesse em que o futebol se torne dinâmico. Na hora que cria um negócio que deixa o jogo paralisado, já é conflitante. O pior é que o futebol perdeu sua essência. O gol não é comemorado por jogadores, torcida e muito menos narradores. O torcedor que está assistindo ao jogo não sabe se comemora ou não. No fundo, para mim, é um desastre. 

A presença de um árbitro de vídeo muda completamente o espírito do jogo, ele não está lá dentro para sentir a temperatura. Sou a favor de interferência em lances com equívocos com falha humana gritante, como gol de mão do Maradona (na Copa do Mundo de 1986 sobre a Inglaterra).  Não pode um lance de mão que o árbitro mandou chamar e ele mudou a opinião. Ele está se isentando da responsabilidade. A maioria muda a opinião, transfere a responsabilidade. E outra coisa: o VAR criou um hábito de as reclamações terem aumentado. Os próprios jogadores sentem que ganham o jogo no VAR. Dessa forma que está sendo utilizado o VAR em impedimento, pode-se colocar um sorveteiro de bandeirinha.

Nos outros países, o respeito pela autoridade é muito maior. Não se pode comparar o futebol de lá com o brasileiro. O VAR é um coadjuvante, assim como o bandeirinha e o quarto árbitro, como o auxiliar técnico do treinador da equipe. Mas imagina quando se tem um árbitro Fifa no VAR e outro que não é Fifa em campo. É difícil.

O erro do árbitro é o erro humano. A regra é difícil de ser interpretada, você pode interpretar da forma errada. Ninguém quer aceitar esse erro, mas aceitam os erros dos jogadores."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.